E se um dia a casa vier abaixo?

Vila do Bispo sofreu bastante com o tremor de terra

Assinala-se em fevereiro o 46º aniversário sobre o mais importante terramoto que afetou o Algarve durante o século XX, tendo causado consideráveis estragos nas construções de diversas localidades, do barlavento ao sotavento.

 

Texto: Rui Pires Santos
No comunicado de 28 de fevereiro de 1969, o Serviço Meteorológico Nacional (antecessor do atual Instituto Português do Mar e da Atmosfera) dava conta que “foi registado um sismo nas estações sismográficas de Coimbra e Lisboa, com inicio às 3h 41m 41,5s [e] 3h 41m 20,2s, respetivamente, e com o epicentro a cerca de 230 km a SW de Lisboa. A magnitude do sismo é de 7,3 na escala de Richter, tendo sido sentido com o grau VI-VII da escala Mercalli modificada (MM56) em Lisboa e noutras localidades do continente”.

O sismo dessa madrugada provocou alarme e pânico entre a população, cortes na telecomunicações e no fornecimento de energia elétrica, tendo-se registado 13 vítimas mortais em Portugal Continental, duas como consequência direta e 11 indiretas.

Em particular nas localidades de Vila do Bispo, Bensafrim, Barão de S. João, Lagos, Portimão e Castro Marim, representou um violento fenómeno natural, originando a fendilhação de paredes, chaminés e tetos, quebra de vidros, deslocamento de telhas, etc. E se em Bensafrim caíram mais de 20 casas, em Vila do Bispo e em todas as povoações deste concelho os prejuízos foram avultados, com muitas habitações derrubadas e outras gravemente danificadas.

Em Lagos, muitos edifícios ficaram danificados e as rachas apresentadas obrigaram a escorar alguns, calculando-se que cerca de 400 casas foram derrubadas ou arruinadas.

Nesta cidade houve a lamentar a perda de uma vida devido a desabamento de uma das paredes da habitação degradada onde vivia, enquanto na vizinha Portimão, também muito fustigada por estragos, verificou-se uma vítima mortal, quando a trepidação da viatura pesada que conduzia ao início dessa manhã terá provocado o colapso de um velho casarão.

 

Pressão acumulada

Ao longo dos tempos históricos, e para além do catastrófico terramoto de 1 de novembro de 1755, diversos outros acidentes naturais foram sentidos de modo devastador, com recorrente origem no banco de Gorringe, a sudoeste do Cabo de S. Vicente, fonte permanente de atividade e responsável pela classificação de parte do Algarve como zona de intensidade X, ou destruidora, na escala de Mercalli Modificada.

Nas últimas décadas, são vários os especialistas que vêm alertando para a certeza de um terramoto forte na região algarvia até 2050, embora “ainda não se possa prever um sismo”, conforme deixou claro há uns anos o ex-presidente da Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica, Carlos Sousa Oliveira, ao chamar a atenção para o facto de Portugal, “que vive um período de acalmia nas últimas décadas, poder sofrer os efeitos de um sismo de magnitude 7 ou 8 na escala de Richter nos próximos 40 anos”.
As construções
E aqui é que ‘a porca torce o rabo’, porque se a nossa expectativa é que são cumpridos e controlados os parâmetros de segurança antissísmica nas construções que nos rodeiam, certo é que muitas são as vozes a defender a urgente publicação de diploma que regule a qualificação profissional dos autores dos projetos de construção, o que permitirá às autarquias – quantas delas sem meios capazes para fiscalizar com eficácia – conhecer as credenciais dos responsáveis não só pelos edifícios, mas também pelas instalações elétricas, de gás, de tratamento de águas e esgotos.

Contudo, a fiscalização será somente um dos aspetos a ter em conta, porque o outro relaciona-se com as intervenções de conservação e reabilitação de imóveis e monumentos antigos. Neste âmbito, a filosofia técnica e estética, sem esquecer a vertente financeira, tem muito que se lhe diga: Lagos, Silves Faro ou Tavira, por exemplo, que ainda reúnem apreciáveis parcelas do seu rico património arquitetónico, são cidades a merecer uma atenção muito especial.

Defendem os entendidos que as estruturas habitacionais capazes de enfrentar com algum sucesso um sismo severo devem ter uma conceção simples e linear, sem formas geométricas muito complicadas, cujos comportamentos são difíceis de prever. Além do mais, os imóveis terão de ser ‘elásticos’, para que verguem sem rachar, de maneira a dissiparem a energia transmitida à estrutura pelas ondas de choque.

Por outro lado, a degradação dos materiais, as alterações clandestinas e a escassa espessura das paredes não oferecem quaisquer garantias, isto para já não falarmos nas deficientes fundações.

 

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Receio fundado
Os últimos grandes sismos e tsunamis ocorridos um pouco por todo o mundo, que causaram a morte a largas dezenas de milhares de pessoas (sobretudo por negligências várias), voltaram a suscitar preocupações pela eventualidade da ocorrência de uma catástrofe desta natureza no nosso país: não foi apenas por precipitação que pescadores algarvios deram o alarme, em agosto de 2001, de uma ‘onda gigante’ que avançava para a costa e que originou uma das mais patéticas demonstrações de ignorância e incompetência das (ditas) entidades responsáveis.

De então para cá, tem sido relevante o papel desempenhado pelas forças da Proteção Civil, nomeadamente ao nível dos simulacros, com particular incidência junto da comunidade escolar. Mas, será que os mecanismos que nos deverão proteger em caso de calamidade estão devidamente oleados?

 

 

O que é um tremor de terra?

 

De uma forma geral, é um fenómeno natural resultante duma vibração mais ou menos violenta da crosta terrestre, devida ao ajustamento súbito de rochas sob pressão. Os tremores de terra são frequentes em Portugal, embora na sua grande maioria não sejam sentidos pelo homem. As vibrações por eles produzidas podem durar desde poucos segundos até alguns minutos. Após o primeiro abalo, acontecem espaçadamente outros mais fracos, conhecidos por réplicas.

 

O que fazer?

 

Se está em casa, dentro de um edifício ou sala de espetáculos:

– Não se precipite para as saídas

– Nunca utilize os elevadores

– Mantenha-se afastado das janelas, espelhos, chaminés, candeeiros ou móveis
Se está na rua:

– Dirija-se para um local aberto, com calma e serenidade

– Não corra nem ande a vaguear pelas ruas

– Enquanto durar o tremor de terra, não vá para casa

– Mantenha-se afastado dos edifícios, sobretudo dos velhos, altos ou isolados, dos postes de eletricidade, dos taludes ou muros, que poderão desabar.


Se vai a conduzir:

– Pare a viatura afastada de edifícios, muros, postes e cabos de alta tensão e permaneça dentro dela.

 

Após o sismo:

– Mantenha a calma e procure ouvir as recomendações no rádio ou televisão

– Afaste-se das praias e das margens baixas dos rios. Pode ocorrer uma onda gigante

– Conte com a ocorrência de uma possível réplica

– Corte a água e o gás, desligue a eletricidade

– Não fume nem acenda fósforos nem isqueiro. Não ligue os interruptores. Pode haver fugas de gás ou curtos-circuitos

– Calce sapatos, proteja a cabeça e a cara com um casaco, uma manta, um capacete ou um objeto resistente e prepare agasalhos se o tempo o aconselhar

– Limpe urgentemente os produtos inflamáveis que se tenham derramado (álcool, tintas, etc.)

– Solte os animais domésticos. Eles tratarão de si próprios

 

 

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