Cada turista gasta em média 220 euros por dia só em alojamento

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O ano turístico apresenta uma subida “de 5 por cento nas taxas de ocupação e 6 por cento no volume de negócios” em comparação com igual período de 2014, afirma o presidente da direção da AHETA – Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve, Elidérico Viegas. Em entrevista a Algarve Vivo, nota que “em períodos eleitorais, o poder tem tendência a exagerar os sucessos e as oposições os insucessos. Também aqui, a tradição ainda é o que era. O melhor ano turístico de sempre ainda não se reflete, infelizmente, nas empresas, confrontadas com problemas graves de descapitalização resultantes, entre outros aspetos, de uma crise económica muito acentuada e demasiado longa”. E numa altura de enchente no Algarve, o dirigente associativo alerta para a “degradação na qualidade” dos serviços de saúde, entre outros.

José Manuel Oliveira

Como está o Algarve em termos de ocupação turística? Em comparação com o mesmo período de 2014, a situação melhorou ou registou-se alguma descida? Porquê?

O ano turístico apresenta uma subida homóloga de 5 por cento nas taxas de ocupação e 6 por cento no volume de negócios. Estes aumentos verificam-se sobretudo durante a época turística, enquanto a estação baixa regista uma tendência crescente de estagnação e mesmo de descida na procura turística.

Neste contexto, não temos conseguido esbater a maior fraqueza do turismo regional, a sazonalidade, verificando-se mesmo um acentuar desta fragilidade, consubstanciada num maior número de hotéis e empreendimentos turísticos encerrados durante o Inverno.

Estes aumentos ficam a dever-se, muito principalmente, a factores de ordem externa, nomeadamente a desvalorização do euro face à libra esterlina e ao dólar e à instabilidade em muitos destinos concorrentes.

Quais os principais mercados? O que melhorou e piorou a esse nível?

O nosso principal fornecedor de turistas é o mercado britânico com cerca de 36 por cento do total de dormidas, seguido dos nacionais com 23 por cento, alemães com 12,5 por cento, holandeses 12 por cento e irlandeses com 6 por cento, apenas para citar os mais importantes. Pelas razões já referidas, designadamente a desvalorização do euro, o mercado britânico apresenta um crescimento na ordem dos 4 por cento, enquanto o mercado interno regista uma subida de 20 por cento comparativamente ao ano anterior.

Qual é a influência da instabilidade em países como a Tunísia, Turquia, Egito e outras zonas onde se têm registado atentados terroristas?

A instabilidade associada a ataques terroristas assume-se como o inimigo público número um do turismo mundial. O Algarve faz da segurança uma das suas mais-valias competitivas, tendo beneficiado com o desvio de fluxos turísticos oriundos dos destinos afectados, especialmente dos países mencionados.

“Agosto terá ligeiro crescimento na última semana nas taxas de ocupação”

E como perspetiva o mês de agosto no Algarve? Vai ser mais uma enchente?

O mês de agosto é o mês turístico por excelência do turismo do Algarve. Este ano não vai ser exceção. A verdade é que, tradicionalmente, as taxas de ocupação nesta altura do ano são da ordem dos 100 por cento, não havendo espaço para grandes melhorias. No entanto, mesmo assim, as perspectivas apontam para um ligeiro crescimento, sobretudo no final do período, ou seja, na última semana do mês.

Este será o melhor ano turístico de sempre como alguns já dizem?

Em períodos eleitorais, o poder tem tendência a exagerar os sucessos e as oposições os insucessos. Também aqui, a tradição ainda é o que era. O melhor ano turístico de sempre ainda não se reflecte, infelizmente, nas empresas, confrontadas com problemas graves de descapitalização resultantes, entre outros aspectos, de uma crise económica muito acentuada e demasiado longa.

A verdade é que muitos dos aumentos anunciados são meramente estatísticos, atendendo a que as alterações legislativas enquadraram turisticamente muita oferta que já existia no passado mas não era considerada para efeitos estatísticos, com especial destaque para o chamado alojamento local, inflacionando, deste modo, excessivamente os números do turismo. Contudo, há que reconhecer que o facto de nos últimos anos termos crescido de uma forma sustentada, deixa antever que num período de dois ou três anos poderemos voltar a registar valores próximos dos chamados anos da abundância, ou seja, ocupações médias anuais de cerca de 65 por cento.

“Turistas holandeses são os que mais dias permanecem no Algarve, seguidos dos alemães, ingleses e irlandeses”

Quais são as preferências dos turistas? Hotéis de quatro, cinco estrelas, aldeamentos, apartamentos? E durante quanto tempo permanecem?

O facto de o Algarve dispor de uma oferta muito diversificada faz com que, de uma maneira geral, a procura seja mais ou menos homogénea. Assim sendo, as taxas de ocupação são muito semelhantes em todos os tipos de estabelecimentos.

A estada média mantém-se em 5,3 dias ao longo dos últimos cinco anos, sendo que os holandeses são os turistas que mais dias permanecem na região (11 dias), seguidos dos alemães (7,2 dias), ingleses (6 dias) e irlandeses (6,2 dias). Os nacionais pernoitam em média apenas 4,4 dias, enquanto os espanhóis não vão além dos 3,2 dias.

Quanto gastam em média?

Não existem dados estatísticos fiáveis que permitam apurar com rigor o gasto médio dos turistas que visitam o Algarve. Porém, e considerando que a facturação total dos hotéis e empreendimentos turísticos classificados ascende a 702 milhões de euros anuais, podemos estimar que cada turista gasta, em média, cerca de 220 euros por pessoa pela estadia, sem considerar os gastos extras com alimentação, rent-a-car, comércio, restauração e bebidas, etc. etc.

A rubrica de viagens e turismo do Banco de Portugal contabiliza as receitas turísticas anuais em cerca de 10 mil milhões de euros. O Algarve será responsável pelo menos por 4 mil milhões desse montante.

“Temos assistido à degradação na qualidade de alguns serviços, com destaque para a saúde”

Qual o peso dos hostels, que agora estão na moda, no turismo algarvio?

Comparativamente ao resto do país, os hostels representam uma fatia muito pequena no conjunto da oferta total de camas turísticas na região. O facto do programa “JESSICA” financiar projectos que envolvem a recuperação urbana, tem contribuído, decisivamente, para a expansão deste tipo de oferta que, em algumas como Lisboa e Porto, por exemplo, atingem números verdadeiramente notáveis. Trata-se de uma tendência da procura, conjugada com a oportunidade gerada pelo acesso ao crédito em condições mais favoráveis.

Quais as carências que nota nesta altura do ano no Algarve? Que alertas pretende fazer?

O Algarve precisa de garantir bons serviços de apoio ao longo de todo o ano, mas muito principalmente durante os períodos de maior procura. Estão neste caso, entre outros, serviços de saúde, higiene e limpeza, segurança, comunicações, abastecimento de água e electricidade, etc. etc. E se é verdade que muito tem sido feito nestas matérias, também é verdade que temos assistido a alguma degradação na qualidade de alguns destes serviços, com especial destaque para a saúde.

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