Editora Arandis “veio despertar o orgulho pela cultura algarvia”

Em meia dúzia de anos, empresa publicou mais de 130 livros, assinados por cerca de 80 autores, sempre com o Algarve em pano de fundo.

FERNANDO MANUEL VIEIRA

Tudo começou em 2012, quando três autores algarvios decidiram aventurar-se na criação de uma estrutura capaz de publicar os seus próprios trabalhos, em contraciclo à letargia editorial existente na região. Essa pedrada no charco foi de tal ordem certeira que, seis anos volvidos, a Arandis deu à estampa 133 títulos, de 80 criadores literários.

Algarve Vivo foi saber como se processa esse frenesim editorial e falou com Sérgio Brito e Nuno Campos Inácio, dois dos mentores.

“A ideia surgiu nos primeiros meses de 2012, quando decidimos ser a altura de termos uma editora, pois sentíamos dificuldades em lançar as nossas produções. Na ocasião, acabara de falecer o investigador histórico Vítor Borges, de forma totalmente inesperada e na véspera do lançamento de uma obra que iríamos apresentar. A partir dessa nefasta circunstância acendeu-se a centelha. Mais tarde juntou-se a nós Fernando Lobo, o homem das artes gráficas. Criou-se o logótipo e lançámos a marca Arandis no final do ano”, recorda Sérgio Brito.

A primeira obra, da autoria do próprio, intitulou-se ‘Histórias do Algarve’ e foi escrita totalmente em dialeto regional, sendo até agora o título mais vendido. “Quisemos logo marcar a diferença e dizer ao que vínhamos, numa altura em que tudo estava parado e não havia dinheiro para nada”, friza o editor.

“Pretendemos sensibilizar as pessoas para os valores culturais algarvios, cujas tradições devem ser preservadas. Costumo dizer que não se trata de nenhum regionalismo bacoco, é antes uma aposta consciente, até para se retomar a dimensão que o Algarve já teve em termos literários”, destaca.

“Desde que o turismo implicou a ‘invasão’ por populações de fora, não só de turistas mas também de trabalhadores de outras zonas do país que aqui vieram em busca de melhor vida e trouxeram a sua cultura, a identidade local começou a perder-se. Não é por acaso que um referendo sobre a regionalização perde aqui…! Noto mesmo uma certa vergonha por se assumir a identidade algarvia, fenómeno que se tornou evidente entre o 25 de Abril e a primeira década do século XXI”, lamenta.

INVERSÃO DE PARADIGMA

O sócio Nuno Campos Inácio partilha da mesma convicção: “Se calhar a Arandis não surgiu por acaso, porque aparece numa altura em que este cenário se começa a inverter, pois nota-se o retomar do interesse pelo rico património regional. Na atualidade, publicados por nós, mas também por outras editoras, já vão aparecendo vários artigos de investigação relacionados com o Algarve.”

Defende que o trio por detrás da Arandis tem “o mesmo ADN, isto é, partilhamos a preocupação por fazer renascer o orgulho daquilo que é a cultura algarvia”. Nesse sentido, foram editadas até ao momento mais de 130 obras, em áreas como a poesia, o ensaio histórico, a genealogia, o romance ou a biografia, passando até por teses de doutoramento.

Os três sócios dividem as tarefas, para que tudo funcione da melhor forma. “Obviamente que temos autores habituados a escrever e com vários trabalhos já publicados, mas muitas pessoas julgam que o processo é simples. Na verdade, nós não funcionamos como certas editoras que aceitam tudo, pedem dois ou três mil euros e toca a imprimir coisas que em grande parte das vezes roçam a mediocridade e que, apesar disso, levam bastantes meses até saírem para a rua”, observa Nuno Inácio.

“Ninguém trabalha a tempo inteiro. Andamos nisto apenas por gosto, não nos movem quaisquer propósitos materialistas. Tem sido uma surpresa a constante abordagem por parte de autores de manifesta qualidade, logo desde a hora em que anunciámos o lançamento da editora. No primeiro ano editámos 50 livros, todos eles com um elevado nível literário e temático. Mas nunca vimos a coisa do ponto de vista comercial, o que nos tem trazido certos problemas. Com a dimensão já alcançada, naturalmente que temos de ponderar tudo de outra maneira, o que dá muito trabalho – compor os textos e realizar a maqueta, só por si, faz perder imenso tempo”, salienta, ao mesmo tempo que revela o regresso definitivo ao Algarve de Fernando Lobo, há muitos anos radicado na Holanda: “É uma excelente notícia para todos nós”, garante.

Para além da composição e maquetagem, a empresa providencia a marcação das apresentações públicas, a disponibilidade das salas, a promoção dos lançamentos, etc. “Não temos qualquer contrato com nenhum dos autores que editamos, bastando-nos a palavra, a amizade e a boa-fé… Até hoje, nunca houve o menor problema. Como empresa que é, a Arandis também tem custos, parte dos quais é compreensivelmente suportada pelos principais interessados, seja com capitais próprios, seja pedindo apoios, com a certeza de que nunca perderão esse dinheiro, que será sempre recuperado”, assegura o editor.

ANIMAÇÃO CULTURAL

“Pelo menos em dois terços das apresentações promovidas conseguimos mobilizar apenas um conjunto de pessoas à volta de uma mesa – ou tivemos momentos musicais, ou declamações, ou exposições. Fazemos gosto em enroupar os lançamentos com algo de índole cultural, sempre com um cunho ligado à região algarvia e nunca tendo pago qualquer cêntimo a esses colaboradores”, assinala Nuno Inácio. “Temos corrido o país com estes eventos e, se fôssemos fazer uma contabilidade nua e crua, já teríamos falido. O que nos vai valendo é não ter custos fixos, pois a trabalheira é toda nossa”, reforça o seu sócio.

“Se bem que escasseiem apoios públicos para a edição de mais e melhores autores, ideias é algo que não falta a este projeto regional que tem marcado a diferença em vários níveis, alicerçado na qualidade, diversidade e isenção. Por tudo isso, a Arandis vai ficar na História da cultura algarvia”, vaticina Nuno Campos Inácio.

TÍTULOS NA FORJA

A Arandis está a ultimar uma dezena de livros, de entre os quais ‘O Carvoeiro’, assinado por Nuno Inácio e ilustrado por Luís Peres, a apresentar brevemente. Em torno de um jovem carvoeiro, o conto faz uma recriação lendária das origens do topónimo Praia do Carvoeiro, baseada em duas personalidades reais, sequestradas por piratas. No prelo, a editora tem ainda uma obra relacionada com o Direito internacional público, e que constitui a primeira tese de pós-doutoramento editada pela marca, quatro livros infantis ilustrados, duas novelas, um conto e um ensaio histórico.

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