Incêndios: entre a tragédia e a oportunidade

João Lourenço Monteiro | Biólogo . Cantinho da Ciência


No momento em que escrevo este texto, Portugal atravessa uma nova vaga de calor que colocou o país em alerta devido ao risco de incêndio. A situação trouxe-me à memória o dramático incêndio de Monchique do ano passado e, de seguida, a inevitável reflexão sobre a gestão do território e das florestas. Nada neste tema pode ser analisado de um modo simplista, pois todo o fenómeno – com as suas causas e consequências – é demasiado complexo para ser abordado num curto texto. Vejamos um breve exemplo: O fogo controlado, como no caso das queimas e das queimadas, quando reunidas as condições legais de segurança, é útil para a eliminação de sobrantes de exploração agrícola ou para a renovação de pastos; os incêndios na natureza tanto podem destruir habitats e afetar a biodiversidade local, como podem contribuir para a germinação de sementes de certas espécies da flora mediterrânica; os incêndios perto de aglomerados urbanos podem ter um desfecho dramático para as pessoas e para os seus bens materiais. Ou seja, os fogos não podem ser catalogados de bons ou maus, devendo a análise depender do contexto e consequências.

Sem querer demonizar os eucaliptais, cuja plantação tem vantagens e desvantagens tanto para o produtor como para o ambiente, a verdade é que a produção florestal em monocultura – que tem vindo a substituir uma floresta diversa alterando parte da paisagem algarvia – tem contribuído de diversas formas para uma propagação rápida e descontrolada de incêndios. E agora o que fazer? As soluções passam tanto por decisões a nível individual, cooperativo e político.  

Quanto aos usos do solo, a agricultura, a floresta e a conservação da natureza são aspetos que, bem geridos, podem (e devem) criar valor acrescentado continuado. A produção florestal de monoculturas de exóticas e a agricultura intensiva deveriam ser minoritárias face a uma agricultura de precisão ecologicamente integrada e a uma produção florestal adequada às condições mediterrânicas. Estas trazem inúmeras vantagens como o fornecimento de recursos, habitats diversos, reabilitação de solo e água, produção de oxigénio e sequestro de dióxido de carbono, assim como o impedimento do avanço descontrolado de incêndios. Assim, a nível político poderiam desenvolver-se Planos de Desenvolvimento Rural (como alguns partidos defendem), a reativação de Laboratórios do Estado para investigação e inovação na área, ou incentivar a valorização de resíduos orgânicos e biomassa. 

A nível individual, poder-se-ia consciencializar os agricultores para as mais-valias económicas de privilegiar a plantação de espécies autóctones, recuperando espécies características do Algarve como os carvalhos, oliveiras, alfarrobeiras, amendoeiras, figueiras, ou medronheiros, assim como muitas plantas aromáticas. 

A nível cooperativo, o Zoomarine e a Algar, duas empresas algarvias, juntaram-se para desenvolver um projeto em que irão plantar mais de 40 mil árvores em vários Concelhos da região Algarvia, incluindo Monchique, com vista a sensibilizar a população para a proteção das florestas. É um exemplo de esperança e de como da tragédia podem surgir oportunidades de corrigir erros de gestão florestal.

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