“Já não é apelativo aos médicos virem trabalhar para o Algarve”

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Muitas vagas por preencher em diversas especialidades nos hospitais públicos desta região deve-se ao facto de tal não ser compensador em termos económicos para muitos médicos provenientes de outras zonas do país. Vários clínicos explicaram ao ‘site’ da revista Algarve Vivo o que era atrativo e deixou de ser e os riscos na classe.

 

José Manuel Oliveira

“Já não é apelativo aos médicos de outras zonas do país virem trabalhar para o Algarve e por isso existem muitas vagas por preencher em diversas especialidades.” Quem o afirma, em declarações ao ‘site’ da revista Algarve Vivo, são vários clínicos do Serviço Nacional de Saúde (SNS) nesta região do sul do País, numa altura em que as unidades de Faro, Portimão e Lagos, pertencentes ao Centro Hospitalar do Algarve (CHA) continuam a debater-se com falta de especialistas, nomeadamente nas áreas da ortopedia e pneumologia.


Turistas pagavam 20 contos a um médico há 15 anos
“Há 15 anos, ou mais, um médico de família que viesse trabalhar para o Algarve, algumas vezes até ao abrigo do Plano de Assistência Médica de Verão no Algarve (PAMVA), podia aproveitar umas chamadas aos hotéis de luxo, como o Sheraton, e cobrar 20 contos por uma dessas consultas, que ingleses, holandeses e alemães pagavam sem qualquer problema” – lembrou um dos profissionais de saúde, garantindo que a situação atual é bastante diferente.

“Hoje, já não compensa a muitos clínicos deslocarem-se das suas zonas de residência, designadamente de Lisboa, onde têm as famílias, despesas mais controladas e os seus contactos, e virem para o Algarve, com o custo de vida mais elevado, além de estarem sozinhos e verem-se obrigados a se adaptarem a uma nova realidade”, observou.


Honorários mais reduzidos desmotivam
Já um outro médico referiu que os honorários têm vindo a baixar cada vez mais: “O preço por hora nos serviços de urgência pagos pelas empresas de prestação de serviços contratadas pelo governo para poder manter as urgências a funcionar baixou de 35 euros/hora para 17/19 euros.

Em relação aos médicos da carreira de Medicina Familiar que fazem parte do quadro dos centros de saúde, o anterior ministro Paulo Macedo cortou o valor da hora extraordinária para 50 por cento. Ou seja, um médico que pelo seu índice remuneratório tenha um preço de 25 euros vai fazer urgência por metade desse valor.”


Consultórios fecharam
Nos hospitais privados, acrescentou, “o preço baixou para cerca de 22 euros por hora, acompanhando a tendência no Serviço Nacional de Saúde, como não podia deixar de ser. Mas as consultas privadas também são mal pagas, pois devido ao facto de a ADSE constituir a maior fatia de receita dos hospitais particulares, funcionando assim como uma espécie de ‘bengalinha’ do setor, muitas e muitas das consultas são através da ADSE que paga cerca de oito euros por consulta.

Assim, os médicos que trabalham nos seus consultórios ou em pequenas clínicas veem o número de clientes a diminuir drasticamente, pois não conseguem aguentar a concorrência dos hospitais privados que jogam com a oferta de multiserviços e acordos com várias seguradoras. Por isso, são muitos os casos de consultórios que encerraram.”

 

Mais turistas e menos médicos em Albufeira
“Não há, pois, motivação económica para vir trabalhar para o Algarve”, insistiu outro clínico, lembrando que a esse aspeto junta-se ainda o facto de “nos meses de Verão o trabalho nas urgências aumentar muitíssimo devido ao turismo.”

“Como se isso não bastasse”, sublinhou, “este ano com um número de turistas na região algarvia muito superior ao dos anos anteriores, o governo não reforçou, como habitualmente, as equipas de urgência nos meses mais críticos, o que impôs uma sobrecarga brutal aos médicos que ali trabalham. Em vez de estarem três médicos de urgência diurna na Sub de Albufeira, por exemplo, como era costume todos os anos atendendo ao facto de se tratar da capital do turismo do Algarve, manteve apenas dois, como sucede ao longo do ano.”

 

 

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