João Fernandes: “Sinergia entre ATA e RTA coloca turismo do Algarve a falar a uma só voz”

Texto: Ana sofia Varela

Após dez meses na liderança da Região de Turismo do Algarve (RTA), em entrevista à Algarve Vivo, João Fernandes revela quais os desafios do destino e explica os projetos que estão a ser desenvolvidos.

Qual é o balanço destes dez meses a liderar a RTA?

É bastante positivo, sobretudo no reforço das condições para melhorar ainda mais o desempenho turístico da região. Importa realçar a captação de 30 milhões de euros de uma linha de financiamento para a qualificação da oferta, atribuída pela Secretaria de Estado do Turismo, que permite a execução de projetos de diversificação turística do Algarve. Destaco também o compromisso construído com uma rede de parceiros locais, como o Instituto do Emprego e Formação Profissional, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, o Instituto da Segurança Social, a integração da RTA nas reuniões da Comissão Distrital da Proteção Civil, a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve e a Universidade do Algarve, através da materialização do ‘Observatório para o Turismo Sustentável’.

E a nível do setor?

Destaco as parcerias com as associações AIHSA e AHETA, num trabalho conjunto de sinalização de riscos e concertação da atuação e comunicação em momentos-chave, como foi a greve dos motoristas de materiais perigosos. Como um dos momentos relevantes destes meses, sublinho as sinergias criadas entre a RTA e a Associação Turismo do Algarve, cuja presidência assumi em dezembro de 2018. Estas sinergias permitiram colocar o Turismo do Algarve a falar a uma só voz, para conquistar um maior peso, um maior poder negocial e uma maior eficácia para o setor na região.

Qual tem sido o grande desafio para o Algarve?

O setor do turismo é bastante dinâmico, enfrentando, por isso, diversos desafios a vários níveis. O principal está relacionado com as questões da sustentabilidade do destino, porque este tem de ser capaz de executar e operacionalizar uma estratégia integrada. E tem de contar com o contributo dos ‘players’ do setor, desde entidades públicas a operadores privados. No Algarve, essa estratégia tem passado por dois caminhos. Por um lado, a aposta na diversificação da oferta turística, através do desenvolvimento de novas motivações de visita à região, como o turismo de natureza, o turismo náutico, a cultura, a gastronomia e vinhos e os produtos ‘corporate’ integrados no produto MICE (meetings, incentives, conferences and exhibitions), de modo a atenuar a sazonalidade e a diminuir os efeitos da litoralização. Por outro, a aposta na diversificação da procura com foco no alargamento do leque de turistas de mercados emissores com potencial antecipando possíveis impactos da conjuntura externa (Brexit).

E a concorrência é um desafio?

Não nos podemos esquecer da reemergência de destinos internacionais diretamente concorrentes  – Tunísia, Egito ou Turquia – cuja estratégia está assente na redução de preço. O Algarve tem respondido com uma aposta em contraciclo, que tem por objetivo crescer em valor e em qualidade, não estando tão sujeito ao preço como fator de ‘atração’.

Quais os mercados em que estão a apostar?

A estratégia está muito bem definida. Primeiro, apostamos no mercado de proximidade alargado que inclui Portugal e Espanha e que permite equilibrar a procura face a alterações nos mercados externos tradicionais. Segundo, nos mercados europeus em franco crescimento, como França e Itália. Além dos habituais turistas, são relevantes os casos de pessoas que, ao abrigo do estatuto do residente não habitual, se transformam em residentes e embaixadores do destino, originando novos fluxos de familiares e amigos. Em terceiro lugar, apostamos também nos considerados mercados emergentes, como o Brasil, Estados Unidos da América e Canadá. São países emissores que se distinguem pela dimensão e pelo alto poder aquisitivo. Claro que não descuramos os tradicionais, como o Reino Unido, a Alemanha, a Holanda ou a Irlanda, que têm sido alvo de reforços de campanhas com companhias aéreas, operadores e ‘online travel agencies’.

Há quem fale de estagnação. O setor e a RTA estão preparados?

Olhando para os dados podemos verificar uma consolidação de resultados positivos. Devemos recordar-nos que, entre 2010 e 2017, as dormidas em empreendimentos turísticos aumentaram 44 por cento e os proveitos duplicaram. De acordo com o INE, em 2018, o Algarve registou um aumento homólogo dos proveitos totais de 4,7 por cento, para 1081 milhões de euros, e do número de hóspedes de 1,5 por cento, para 4,2 milhões de hóspedes. O Aeroporto Internacional de Faro atingiu em 2018 um volume de passageiros movimentados perto dos 8,7 milhões, com um aumento significativo em mercados de relevo como o italiano, que cresceu acima dos 200 por cento, o francês (+26,0%), o português (+6,0%) e o irlandês (+2,2%). E a comparação é feita em relação a 2017, o melhor ano de sempre do turismo na região. Por isso, é um facto que o crescimento foi mais ténue em 2018, mas consideramos que ainda assim os resultados finais são francamente positivos e demonstram a forte resiliência de toda a estrutura do setor, face a um ano que se antevia muito difícil.

O alojamento local está a perder fulgor?

No Algarve, está a solidificar-se e, em muitos casos, permitiu absorver uma oferta já existente. De ano para ano temos assistido a um crescimento desta tipologia de oferta de alojamento: por um lado, pela forte dinâmica turística do destino, por outro, porque existe já um extenso parque habitacional de segundas residências (cerca de 150 mil, segundo o Censos 2011). O número de estabelecimentos de alojamento local ascende hoje aos 32 mil, sendo que no Algarve representa 38 por cento do número total de registos em Portugal, de acordo com o Registo Nacional de Turismo.

Qual o ponto de situação no Algarve em relação ao Brexit?

Há uma diminuição de 1,6 por cento, em 2017, e 9 pontos percentuais, em 2018, das dormidas dos britânicos no Algarve. Não obstante, o primeiro trimestre de 2019 tem revelado um aumento interessante (+1,9% de dormidas), fruto de um redobrado esforço da ATA, do Turismo de Portugal e dos parceiros privados. Na verdade, temos vindo a construir soluções sustentáveis para mitigar o impacto do Brexit no desempenho turístico do Algarve, envolvendo todos os agentes do setor.

Como pode o Algarve continuar a “reinventar-se”?

O Algarve é um destino em permanente reinvenção, o que se materializa nos diversos projetos da RTA ou de outras entidades que tenham como missão dinamizar e destacar o que temos de melhor e mais atrativo. No caso da RTA, temos apoiado o ‘365 Algarve’, no turismo gastronómico, destacamos o projeto ‘Algarve Cooking Vacations’, no turismo de natureza, as iniciativas são tantas quanto o ‘Algarve Nature Fest’, que se realizará em setembro, em Olhão, e é composto por atividades desportivas e de lazer ao ar livre gratuitas, ou quanto a edição de um novo ‘Guia de Percursos Pedestres’ e de um ‘Guia de Turismo de Natureza Júnior’. No turismo náutico sublinhamos a criação da Estação Náutica do Baixo Guadiana, um projeto transfronteiriço no âmbito de um protocolo entre a RTA, os municípios do Guadiana e a Associação Naval do Guadiana, e as Estações Náuticas de Faro, Vilamoura e Portimão.

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