Jovens algarvios fotografaram pedintes de Lisboa

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Por vezes, uma ideia despretensiosa ganha contornos inimagináveis e protagonismos imprevistos: é o que está a suceder com o projeto fotográfico ‘Sempre quis ser’, dos jovens algarvios João Porfírio e Catarina Fernandes, que em março pôde ser visto no Centro Comercial Aqua Portimão.

Miguel Santos

Tudo começou há pouco mais de um ano, de forma quase impercetível, quando a vida de ambos deu uma grande volta, já que fizeram a bagagem rumo a Lisboa, para onde foram estudar na demanda dos seus sonhos. Naturais de Portimão, onde nasceram há 20 anos, João e Catarina desde logo se depararam com o deprimente fenómeno social dos muitos e muitos desfavorecidos da vida que polvilham os becos e as ruas da grande cidade.

Com base na simples pergunta “o que sempre quis ser?”, a mostra nasceu da vontade e empenho de quererem dar voz a alguns dos sonhos e expectativas que ficaram perdidos, algures, no percurso de vida de quem atualmente se vê na condição de pedinte e com quem trocaram palavras de conforto em longas conversas.

Como recorda João Porfírio, não tardou muito a ganhar forma uma ideia: “A nossa intenção inicial foi alertar para este problema social, fotografando os sem-abrigo de Lisboa, mas que poderiam ser de qualquer outra parte do país, a quem pedimos que nos contassem os seus sonhos profissionais ou pessoais, os quais escrevemos num quadro de ardósia”.

“Em pouco tempo conseguimos vinte e tal testemunhos fotográficos, qual deles o mais forte, embora depois fosse necessário procedermos a uma seleção de dez que nos permitisse expor de forma funcional num espaço público emblemático e que acabou por ser a Estação de Metro do Cais do Sodré”, complementa o jovem algarvio, cujo objetivo é vir a ser fotojornalista.

Sobre a recetividade dos visados, confidencia: “Depois de uma primeira resistência perfeitamente natural, mostrámos-lhes as fotografias e houve mesmo quem nos sugerisse um enquadramento diferente, em que o respetivo perfil até poderia ficar mais favorecido”.

“Ainda pensámos levar estas pessoas a ver a exposição, mas depois preferimos salvaguardar ao máximo as suas identidades, pelo que desconhecemos se algum deles teve a curiosidade de se rever”, diz.

Catarina Fernandes reforça: “Desde o início percebemos que o projeto tinha pernas para andar e o mesmo começou imediatamente a ganhar asas e a voar por si próprio, com inúmeras solicitações, quer para entrevistas quer para expormos as imagens em diversos locais, inclusive no estrangeiro”.

“Quando começámos, nem imaginávamos onde nos estávamos a meter [risos], já que temos de conciliar estudos e trabalho, pelo que o tempo não abunda e fica-nos um pouco complicado conjugar tudo”, revela a jovem, que deseja enveredar por uma carreira artística ligada à expressão teatral.

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Vítimas de vandalismo
Contudo, a dado momento ambos estiveram “quase a deitar a toalha ao chão”, como lembra João Porfírio: “Todo este processo tem-nos dado uma grande força interior, pois quando inicialmente a mostra esteve patente no Cais do Sodré, em novembro passado, fomos alvo de vandalismo e do roubo de vários exemplares, o que na altura bastante nos afetou”.

“Nunca percebemos quem fez isso ou quais os motivos que levaram a esses atos de pura destruição… Foi um choque logo atrás de outro, ainda pensámos seriamente em desistir, até porque isto resultou de investimento nosso e algumas impressões foram mesmo conseguidas em troca de trabalho, só que contámos com uma onda de solidariedade bastante forte e conseguimos rapidamente reagir, repondo os originais vandalizados”, recorda.

Internacionalização à vista
“A seguir ao Aqua de Portimão, onde expusemos ao abrigo da iniciativa camarária Março Jovem, vamos parar, mas daqui a alguns meses estaremos em Braga, havendo a possibilidade de em breve este conjunto de fotos ser visto na Holanda e no Brasil, por exemplo”, divulga Catarina Fernandes, que assume: “Temos outros projetos delineados, sempre com uma importante componente social… Ideias não nos faltam, mas optámos por fazer uma pausa e só lá mais para a frente é que nos meteremos noutra, tanto mais que este projeto se revelou um bocado exigente a nível pessoal”.

Sobre os sentimentos que gostariam de transmitir a quem vê esta série de fotografias, são unânimes: “Desejamos que as pessoas que convivem com a exposição fiquem marcadas pelas imagens e as levem na memória, para à noite, quando estiverem quase a dormir, se lembrarem dos seus próprios sonhos por concretizar, imaginando que nunca é tarde de mais para lutarem por eles”.

QUEM SÃO?

João Porfírio
Nascido em Portimão há precisamente 20 anos, João Porfírio vive em Lisboa, onde frequenta na Etic o 2º ano do High National Diploma de Fotografia e Design. Desde muito cedo assumiu o gosto pela fotografia, tendo colaborado de forma graciosa com a delegação de Portimão do ‘Jornal do Algarve’, antes de passar pela revista ‘Caras’ ou pelo ‘Correio da Manhã’, de que é fotógrafo colaborador. Em 2013, realizou a sua primeira exposição fotográfica individual na cidade de origem, tendo sido orador em diversas conferências de fotografia e integrado o júri de alguns concursos.

Catarina Fernandes
Também com 20 anos e natural de Portimão, Catarina Fernandes cresceu em torno do fascinante universo da expressão artística, onde descobriu as suas paixões, como as artes visuais/plásticas, o teatro e a poesia. Além disso, sempre participou em projetos de voluntariado e de ação social. No presente, reside em Lisboa e é aluna de ‘Cenografia, Figurinos e Adereços’ no Chapitô, ao mesmo tempo que frequenta o curso de Expressão Dramática, ministrado por Bruno Schiappa.

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