Os cães-pescadores algarvios

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De raça em vias de extinção a mundialmente famoso, o Cão d´Água Português pode já não ajudar os pescadores, mas veio para ficar.

Ricardo Tello

O Cão d´Água Português tornou-se mundialmente conhecido depois do presidente dos EUA, Barack Obama, o ter escolhido para sua companhia na Casa Branca em 2009. No entanto, poucos saberão que esta raça tão ligada ao Algarve esteve praticamente extinta, tendo inclusivamente sido inscrita em 1981 no livro Guiness dos recordes como a raça de cães mais rara do mundo.

Por ser um excelente nadador, o Cão d’Água foi originalmente utilizado pelos pescadores como ajudante na pesca, guiando cardumes de peixes às redes, recuperando objetos caídos à água, levando mensagens entre barcos e entre a terra e o mar e outras atividades variadas. O escritor Raul Brandão, no seu livro de 1932 ‘Os Pescadores’, descreve assim a atividade de um barco de pescadores de Olhão: “Tripulavam-no 25 homens e dois cães, que ganhavam tanto como os homens. Era uma raça de bichos peludos, atentos um a cada bordo ao lado dos pescadores. Fugia o peixe ao alar da linha, saltava o cão ao mar e ia agarrá-lo ao meio da água, trazendo-o na boca para bordo”.

Contudo, esta prática foi sendo progressivamente abandonada com a introdução de novos métodos e tecnologias de pesca e dos barcos mais modernos. Assim, a partir de 1930 estes cães praticamente desapareceram, tendo o Algarve sido o seu ultimo bastião no país, especialmente nas comunidades piscatórias de Tavira, Olhão, Faro, Albufeira, Portimão, Ferragudo e Lagos, onde a pesca junto à costa continuou a ser praticada. Por essa razão, a raça também ficou conhecida como Cão d´Água Algarvio.

Foi graças a estes últimos cães algarvios e ao trabalho de alguns criadores entusiastas, como Vasco Bensaúde e António Cabral, que esta raça não desapareceu e foi preservada até hoje.

De pescador a cão de companhia
Em Portugal existem atualmente cães de muita qualidade e assiste-se a um interesse renovado pela raça, sobretudo como cão de companhia, pois o facto de praticamente não largarem pêlo e cheiro torna-os excelentes para apartamentos. No entanto, as suas aptidões para o trabalho não estão esquecidas, realizando-se durante todo o ano um conjunto de provas práticas de aptidão (natação, mergulho, recuperação de objetos flutuantes e submersos, etc) organizadas sob supervisão do Clube Português de Canicultura, sobretudo no Algarve.

Características únicas
O Cão d’Água Português é uma raça de tamanho médio, tendo os machos cerca de 54 cm e as fêmeas 46 cm. Os pesos variam entre 19 a 25 kg nos machos e 16 e 22 kg nas fêmeas.

Há dois tipos de pelagem: longa e ondulada, com pêlo mais brilhante; curta e encarapinhada, de pêlo mais opaco. A pelagem pode ser totalmente negra, branca ou castanha, ou negra ou castanha com manchas brancas. Este pêlo não provoca reações alérgicas, pelo que é recomendado para pessoas com problemas respiratórios.

O Cão de Água Português tem uma membrana entre os dedos (interdigital), o que lhe permite nadar muito mais rápido que a maioria das outras raças e mergulhar a vários metros de profundidade. No entanto, a sua característica mais extraordinária é a capacidade de travar a respiração (apneia), continuando sempre que necessário a expelir o ar, descomprimindo as narinas que se fecham quando mergulha.

‘O leão algarvio’
A tosquia tradicional do Cão d´Água Português é conhecida por ‘corte à leão’, porque o pêlo do animal é cortado nos quartos traseiros mas deixado ao natural na zona dianteira, como se se tratasse de uma juba. Ao contrário do que se possa pensar, esta forma original de tosquia não se deve à estética, mas segue padrões funcionais. Este corte era inicialmente feito pelos pescadores com o objetivo de libertar as patas traseiras para que conseguisse nadar melhor, mas mantendo quentes os órgãos vitais no tronco. Os pêlos na ponta da cauda são também deixados ao natural para que a cauda possa flutuar.

Canis algarvios
No Algarve existem diversos criadores desta raça que são reconhecidos pelo Clube Português de Canicultura: Ilhafarus (Faro); Águas Algarvias (Olhão); Casa da Buba (Lagos); Luz do Mar (Lagos); Estrela do Mar (Lagos).

NÚMEROS
1930

A partir desta data estes cães praticamente desapareceram, tendo o Algarve sido o seu último bastião no país, devido às comunidades piscatórias.

1981
O Cão de Água Português surgiu no livro Guiness dos recordes como a raça de cães mais rara do mundo.

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