Sérgio Brito: “O dialeto algarvio é um património que não se pode perder”

 

Escritor dinamiza página no Facebook com mais de dez mil seguidores.

Texto e foto: FERNANDO MANUEL VIEIRA

Nascido e criado na zona de Albufeira, onde sempre viveu, Sérgio Brito habituou-se desde tenra idade a escutar expressões únicas, num sotaque peculiar, inexistentes nas regiões do país por onde passou. A dada altura aventurou-se a escrever dois pequenos contos cujos personagens comunicavam nesse linguajar tão rico e original.

Assim nasceu em 2012 o livro ‘Duas históiras no Algarve’, primeiro lançamento da Arandis e, até ao momento, o seu maior sucesso comercial, entre os mais de 130 títulos já editados, com cerca de 10 mil exemplares vendidos e oito reedições.

Sérgio Brito explica à Algarve Vivo o que o levou a arriscar nesse pioneirismo, pois não há registo de outras criações literárias com aquelas características, falando também sobre a recetividade obtida.

“Acima de tudo, pretendi preencher uma lacuna e mais não fiz do que passar para o papel as falas que ouvi em toda a minha vida. As duas histórias do livro são ficcionadas, mas têm muito de realidade, porque as personagens são figuras com quem convivi na minha infância. Um dos cuidados que tive quando as estava a escrever foi ouvir as pessoas a falar. Quando a obra foi lançada, já imaginava que iria ser um sucesso (relativo, claro), mas havia o tal risco de determinado público ter dificuldade em seguir as tramas e ainda hoje isso sucede, o que é natural e compreensível.”

‘GUERRAS DESGRAÇADAS’

Na verdade, o autor sentiu desde a primeira hora um misto de impressões, como confessa: “O facto é que o livro, após ser avalizado por quem conhece bem o que caracteriza o dialeto algarvio, foi reconhecido como estando praticamente todo bem escrito, dentro daquilo que são as regras. Houve quem me acusasse de estar a destruir a língua portuguesa, mas eu sempre comparei isso ao controverso Acordo Ortográfico. Numa primeira fase não foi nada fácil e enfrentei algumas ‘guerras desgraçadas’. Recebi até e-mails de professoras de Português e de ‘doutorados em alta linguística’, a criticarem-me. Acabei por lhes explicar quais os objetivos e hoje em dia já entendem e aceitam aquilo que está por detrás da minha opção e aposta. Houve até casos em que, posteriormente, me convidaram para fazer apresentações nas suas escolas…”

Com efeito, ao longo deste período, Sérgio Brito tem investido na promoção do dialeto algarvio junto da comunidade educativa. “Gastei cerca de um ano em apresentações nas escolas, onde explicava aos miúdos que no Algarve também se falava deste modo, ou melhor, se deverá falar desta maneira. Na minha opinião, em vez de se estar a corrigir as crianças, procurando normalizá-las, digamos assim, é preferível não as aculturar, demonstrando-lhes as diferenças e que na sua terra de origem se pode falar de uma forma muito própria”, sustenta o autor.

REDES SOCIAIS

Na sequência desse processo, criou nas redes sociais a página Fássebuque Algarvie (https://www.facebook.com/groups/134265566728525/), que reúne expressões e termos algarvios, bem como formas de os dizer, conjugados com ilustrações para que os leitores associem pela imagem as frases e conceitos que Sérgio Brito publica. Apesar de ser um grupo fechado, conta atualmente com mais de 10.500 membros e é regular os seguidores colocarem questões ou esclarecerem dúvidas.

“Do meu ponto de vista, o dialeto algarvio é mais um dos patrimónios imateriais que a região tem vindo a perder, mas o facto é que nos últimos cinco anos vêm surgindo casas comerciais a fazer menus em ‘algarviês’, empresas com nomes algarvios e outros exemplos não faltam para demonstrar como se está a resgatar esse legado… Nota-se uma outra sensibilização”, sublinha com agrado. “Também se assiste ao fenómeno dos que pretendem escrever, embora não bem, porque há regras específicas a cumprir. Eu próprio falho às vezes, porque não é fácil”, reconhece.

Segundo Sérgio Brito, “isto tornou-se já algo mais sério, ou seja, as pessoas deixaram de ter aquela vergonha de falarem em algarvio, começando inclusivamente a ser uma matéria académica”. A propósito, destaca o trabalho da professora Maria do Carmo, da Universidade do Algarve, que nas últimas décadas se tem dedicado a esta vertente, assim como o papel do humorista Dário Guerreiro, conhecido como ‘Moce dum Cabreste’, na promoção deste património junto de uma audiência de amplitude nacional.

A editora Arandis, de que é cofundador, “continuará a investir nesta causa e em outubro próximo deverá sair um livro para crianças, com textos meus e gravuras de Isabel Avó”, revela o escritor e editor à Algarve Vivo, garantindo: “Gostaria ainda de experimentar outros géneros e ideias não faltam.”

 

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