Viagem temporal na cadeira do barbeiro

Já se imaginou a cortar o cabelo ou fazendo a barba, ao mesmo tempo que se sente transportado para uma outra época? Na Barbearia de Portimão é essa a proposta.

Texto: FERNANDO MANUEL VIEIRA / Fotos: EDUARDO JACINTO

Nos últimos anos tem-se assistido a um surto de estabelecimentos de cabeleireiro e afins, ao ponto de funcionarem num perímetro reduzido dezenas de estúdios, ateliês, salões e gabinetes onde se propõe todo o tipo de serviços de estética, quer sejam dirigidos à clientela feminina quer à masculina.

“O meu genro trabalhava numa empresa de segurança, mas a certa altura decidiu apostar nesta área e tirou formação específica. Como eu já tinha algum espólio que venho adquirindo em feiras de velharias, sobretudo com um cunho ‘vintage’, arriscámos na montagem de um negócio fora do comum, que trouxesse algo de novo, resgatando ao mesmo tempo o espírito das décadas entre 1920 e 1950”, explica à Algarve Vivo o empresário João Monteiro, mentor da Barbearia de Portimão.

A loja, a funcionar desde julho último na Rua Damião Luís Faria de Castro, em pleno centro histórico da cidade, ganhou desde logo notoriedade, sobretudo devido à decoração. “Como tenho um grande interesse por tudo o que diga respeito ao passado da minha terra natal, pensei criar uma barbearia à moda antiga, para que não fosse apenas mais uma. E assim avançámos com o projeto, aproveitando a atual onda dos estabelecimentos dirigidos ao homem”, refere o empresário, que há cerca de dois anos e meio abriu na mesma artéria a Taberna de Portimão, cuja decoração e ementa se baseiam em elementos tradicionais.

“Junto à Câmara Municipal ainda sobrevive um espaço quase inalterado nas últimas seis décadas, a Barbearia Popular do ‘tio’ Armando, que tem cerca de 80 anos e é um contador de histórias nato. Em conversa, confessou-me já se sentir cansado e com vontade de encerrar o estabelecimento, que funciona desde 1956. Convidei-o a colaborar connosco dentro das suas limitações, para estar entretido sempre que lhe apeteça e, assim, manter a ligação com os seus clientes. Uma vez que, ao fechar a sua barbearia, o alvará se iria perder, combinámos este tipo de cooperação, que tem resultado ‘às mil maravilhas’. Sempre que deseja, vem cá ‘fazer uma perninha’, embora ainda continue com o seu cantinho aberto, sobretudo aos sábados de manhã”, afirma João Monteiro.

“10 MIL EUROS INVESTIDOS”

“As ideias foram amadurecendo e decidimos optar por uma coisa à moda antiga, pura e dura. Temos nos armários espólio que dá para a criação do ‘museu do barbeiro’, desde assentadores e afiadores, até navalhas, borrifadores, lápis para estancar sangue, queimadores de navalhas, ceras para bigode, óleos, escovas, gel de barba, amaciadores, máquinas de barbear das décadas de 1920 e 1930, pomadas e graxas, algum desse material ainda nas caixas de origem, o que aumenta o seu valor”, refere o colecionador. Também o mobiliário e a decoração envolvente obedecem ao mesmo critério, como destaca à nossa reportagem: Fui restaurando algumas peças que tinha em armazém, adquiridas maioritariamente em feiras de velharias, e também exibimos uma caixa com diversos produtos, que era colocada pelos barbeiros ambulantes no suporte das suas bicicletas, assim como uma rampa de lavagem de cabelos, o primeiro modelo de esquentadores da marca ‘Vaillant’, uma cadeira-sanita, máquinas registadoras, e rádios antigos.”

Mas os “maiores tesouros”, como lhes chama, são para João Monteiro as duas cadeiras em que trabalham o genro Hélder Correia, de 30 anos, e Renato Sequeira, jovem barbeiro nas horas vagas, com 24 anos e jogador de futebol no Portimonense. “Aqui têm bom uso as cadeiras do último barbeiro de Montes de Alvor e de um barbeiro de Estômbar, cada qual comprada por cerca de mil euros, sem falar no restauro. Também teremos em breve a cadeira do ‘tio’ Armando, que entretanto nos ofereceu uma série de coisas”, realça.

O investidor defende que “não se pode perder o património memorial destas peças, para o que já investi mais de 10 mil euros, embora não consiga precisar a verba total, pois é impossível atribuir um valor real a cada uma.”

HORÁRIOS E PETISCOS

Dois aspetos que marcam a diferença da Barbearia de Portimão para os estabelecimentos concorrenciais têm a ver com o horário praticado e a possibilidade de os clientes petiscarem, conforme reconhece João Monteiro. “Uma lacuna que verificámos desde logo, e que afeta o chamado comércio tradicional, é que a partir das 19h00 está tudo fechado. Assim, o nosso horário adapta-se a quem deseje cortar o cabelo ou fazer a barba depois de sair do seu trabalho e que, até aqui, apenas tinha como opção os centros comerciais. Viemos preencher esse vazio e, sem sombra de dúvidas, trata-se de uma mais-valia”, diz, antes de sublinhar: “Abrimos das 9h00 às 23h00, só fechando aos domingos, mas não raras foram as noites de Verão em que só encerrámos lá para as duas da madrugada.”

“Por outro lado, quem vier à barbearia pode petiscar na Taberna de Portimão, que fica mesmo em frente. Têm ainda a possibilidade de tomar um gin, uma cerveja artesanal, um copo de vinho ou outra bebida. Os estrangeiros, então, adoram isto… todos entram e pedem para tirar fotos. Deve ser a loja mais fotogénica da cidade, inclusivamente há fregueses que fazem ‘selfies’ quando estão a ser atendidos. Em mais nenhum lado se vê isso”, observa o empresário, para falar da pequena esplanada existente, “na qual os clientes podem confraternizar, entre partidas de dominó, damas ou outro jogo tradicional, enquanto aguardam vez, podendo beber um cafezinho ou uma cervejinha.”

São várias as ideias que João Monteiro acalenta para o futuro, de entre as quais sobressai a colocação de um equipamento de engraxador, que remonta a 1930, à porta do estabelecimento a abertura de um centro de estética para homem. “Será um sítio onde se pode arranjar as unhas ou os sobrolhos, fazer depilação, enfim. Quero contrariar o preconceito e o pudor sexual ainda existentes e introduzir um conceito inexistente no Algarve. O espaço funcionará numa loja situada nas traseiras da Barbearia de Portimão, representando uma espécie de complemento”, adianta.

VISUAL DO PORTIMONENSE

A Barbearia de Portimão estabeleceu um protocolo com o Portimonense, dirigido a todos os atletas, desde as camadas mais jovens. “O objetivo é que o estabelecimento contribua para o ‘look’ do clube. Em troca deste serviço gratuito, temos uma tarja promocional no estádio… e a publicidade de boca em boca que, como sabemos, é extremamente eficaz, pois os familiares dos jogadores poderão tornar-se nossos clientes”, confidencia João Monteiro.

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