Campeã Mariana Jesus é exemplo de empenho e competitividade na natação

As primeiras aulas de natação de Mariana Jesus foram nas Piscinas Municipais de Lagoa, quando, a agora atleta de competição, tinha pouco mais de um ano. “Ela não gostava, porque fazia as aulas todas a chorar”, confidencia a mãe Rute Canarias em conversa com o Lagoa Informa. Os progenitores acharam, porém, que deviam insistir mais um pouco para que a filha tivesse as bases da natação, para sua segurança, mais a mais numa região como o Algarve, com uma extensa costa litoral.
Ainda bem que o fez. Quem a vê hoje, uma década depois, quase não acredita, mas a verdade é que, neste período, Mariana Jesus tem revelado um grande empenho em se tornar numa atleta exemplar e pode bem vir a ser um nome de relevo no futuro. Com isto, ganha também a modalidade.
Com 13 anos celebrados esta quarta-feira, dia 26 de março, Mariana Jesus frequenta o sétimo ano no Agrupamento de Escolas Secundária Padre António Martins de Oliveira (ESPAMOL) e reparte o tempo com os treinos diários, com exceção dos domingos, nas Piscinas Municipais.
É uma atleta de formação do Lagoa Académico Clube (LAC) que gosta de educação física e de matemática e que, dizendo mais ‘baixinho’, gosta de ganhar. Mariana é competitiva por natureza e conta que concilia bem os estudos com os treinos, porque “desde que seja organizada tudo é fácil”. E é com esta naturalidade que assume uma postura perante a vida.
Talvez a firmeza que mostra no facto de adorar ganhar a leve longe e é neste contexto que o treinador Guilherme Sá, que a tem acompanhado nos últimos tempos, explica a evolução de Mariana Jesus.
“Na primeira competição que fizemos no LAC há quatro anos, em 2020, as pessoas não sabiam, mas ela já era a melhor a nível nacional. Não se sabia, porque não tinha que se saber. Entretanto, há que criar as condições necessárias para que esse talento e o empenho” seja exteriorizado e “se traduza em resultado desportivo”, descreve.
Apesar de muito jovem ainda, Mariana é trabalhadora, gosta de ter sucesso e, na escola, também gosta de ser a melhor aluna. “Não gosta de perder, nem a ‘feijões’, e esse é um atributo que é essencial nos atletas”, afirma o treinador, que apesar da importância dessa característica, assegura que o foco, neste momento, é “na formação de uma atleta que tem 13 anos” e não nos resultados desportivos que vai conquistando.
Os títulos são uma “consequência de tudo aquilo que está por detrás, a nível do apoio familiar, do clube, do município, dos técnicos e da equipa”, enumera. Ou seja, todo o esforço que Mariana faz no dia a dia para cumprir objetivos e ser organizada, conciliando treinos com a escola, faz com que os bons resultados desportivos apareçam.
Palmarés já tem alguma dimensão
Apesar dos títulos conquistados não serem o ponto central, estes motivam a nadadora para que continue a investir na sua evolução. Do seu currículo já contam a nível nacional, dois títulos de campeã e um de vice-campeã, a par de uma medalha de bronze.
Mariana Sagrou-se também quatro vezes campeã zonal, uma vez vice-campeã, nove vezes campeã regional e três vice-campeã. A nível de recordes, tem cinco no regional, um no meetting e 29 no clube. Está no Top10 do Nacional Nadador Completo, do Zonal Nadador Completo e no Nacional do Torneio de Fundo.
O já extenso currículo, tendo em conta a idade da jovem, é ótimo, mas o que definirá o “quão longe ela chega é a atitude perante as situações que a vida lhe coloca e o apoio que terá à sua volta”, resume Guilherme Sá.
Mais do que treinos, formação
“A natação não é o nosso meio natural. Dependendo das provas que faz, e isto varia se compararmos com um atleta de outra modalidade da mesma idade, o nadador vai trabalhar muito mais horas”, refere o treinador.
Por agora, Mariana diz treinar de segunda-feira a sábado, à tarde. “Há treinadores que dizem que é muito, há outros que dizem que é pouco. Já vi atletas com esta idade a treinarem nove ou dez vezes por semana e a chegarem longe. Já vi atletas a treinar o mesmo e a não chegarem a lado nenhum. Assim como já vi a treinar seis vezes a chegar longe. Não é por aí. É tudo o que está à volta. O treino é uma parte pequenina da evolução de um atleta a longo prazo”, garante Guilherme Sá.
Como suporte, Mariana Jesus refere que ajuda o facto de estar incluída na Unidade de Apoio ao Alto Rendimento na Escola (UAARE) da ESPAMOL, um projeto que auxilia os desportistas, desde que eles saibam tirar partido.
“Um atleta, a partir do momento que começa a treinar mais assiduamente, cinco ou seis vezes por semana, no mínimo, demora pelo menos oito anos a chegar ao seu melhor. A Mariana está no segundo ano, por isso faltam seis. Há muito caminho a percorrer”, resume o treinador, nunca deixando de elogiar o empenho, o esforço e o trabalho da jovem atleta.
Ambiente familiar é a base do sucesso
A jovem, natural e registada em Lagoa, tem uma família que a acompanha, que suporta e estrutura este percurso de sucesso.
A mãe Rute Canarias já praticou competição em trampolins, quando vivia em Lisboa, e a irmã Diana Jesus, praticou competição na natação artística, por isso sabem a importância do apoio para que Mariana concretize os seus objetivos quer enquanto aluna, quer enquanto atleta. Os pais, Rute Canarias e Joaquim Jesus, vivem há 20 anos no concelho e são ambos de Lisboa.

“Eu vim trabalhar para cá, na área da saúde, e vim também atrás do amor”, conta a mãe. Foi em Lagoa que constituíram família, sendo que as duas filhas são naturais do concelho. A irmã mais velha é, hoje, uma das grandes apoiantes de Mariana e é ela que faz claque por ela.
“Até ela querer e até onde ela quiser ir, nós apoiamos”, garante a mãe, que revela ainda que a atleta praticava natação e ballet quando era mais nova, mas teve de optar por apenas um e acabou por escolher a natação.
Este apoio e a disciplina, um valor que ‘vem de casa’, melhora a prestação de Mariana. “Funciona como um triângulo, composto pelos atletas, pelos pais e pelo treinador. Os três têm de estar em sintonia, que é o que acontece neste caso. A Marina tem vindo a ter um desempenho crescente ao longo dos últimos quatro anos, ou seja, desde que começámos este projeto no LAC”, descreve Guilherme Sá.
Os resultados têm sido positivos, crescentes e mais abrangentes nas diferentes distâncias e técnicas. Isso deve-se também à aprendizagem que a adolescente tem feito a nível do conciliar a escola com a natação, do aprender a ganhar, do aprender a perder e a estar em equipa. “Ela tem resultados desportivos muito bons, fruto do trabalho que tem desenvolvido e do apoio familiar. A pouco e pouco, se for o gosto dela, naturalmente, as coisas vão continuar a evoluir”, afirma o treinador.
Por isso, o natural será que o nome de Mariana continue a chegar longe e que ainda seja de relevo para a elevar a modalidade na região, mas também a nível nacional. Ou mundial, quem sabe…

Competições em infantil
Neste momento, compete em infantil A, ainda que dependa das provas. Nos meetings internacionais, qualquer atleta pode entrar desde que tenha tempos de acesso, mas no Campeonato Nacional não lhe é permitido participar em provas com os mais velhos, já nalgumas provas regionais pode. Para já, Mariana Jesus compete, em várias distâncias e estilos, apesar da mariposa e costas serem os que lhe agradam. “São aqueles em que sou melhor. Como sou mais rápida leva-me a gostar mais”, justifica a nadadora. No entanto, nesta fase, a ideia e aquilo que a Federação defende é que sejam nadadores mais completos. “Ou seja, um pouco como na escola em que há várias disciplinas. Na natação, ‘obrigam’, de certa forma, a que compitam nos diferentes estilos, nas diferentes distâncias, nesta idade, para formar o atleta. Mais tarde, eles podem, efetivamente, escolher aquilo que mais gostam de fazer ou aquilo em que têm mais sucesso”, descreve Guilherme Sá.
Talento natural para trabalhar e para o desporto
A atleta lagoense tem apetência para a natação, mas, segundo descreve o treinador, tem também um talento natural para trabalhar e para o desporto. Não é apenas nesta modalidade que se distingue. “Se entrar numa prova de corta-mato, chega à frente. É uma miúda atlética e competitiva. Em acréscimo, tem um fator que nem todos têm, que é talento para trabalhar. Para ouvir e corrigir e isso é a parte mais importante e o que, em princípio, vai diferenciá-la dos restantes desportistas”, caracteriza o responsável. A jovem consegue ter a capacidade de se autocorrigir, de atingir pequenos objetivos e metas, mas todos os praticantes têm fases boas e menos boas e o que marcará a sua evolução, segundo o treinador, não será a quantidade de etapas boas, mas a forma como ultrapassa as menos boas.