Casa Carminho é exemplo de comércio tradicional em Portimão

Texto e fotos: José Garrancho
Damásio Carminho era um jovem caixeiro-viajante de Loulé que visitava Portimão, na década de 60 do século passado, quando a pesca e a indústria conserveira estavam no auge, a população das cidades vizinhas fazia as compras na cidade do Arade e os turistas com poder de compra abundavam. A empresa foi fundada há seis décadas e já foi galardoada por dois presidentes do município.
Por que escolheu Portimão para se estabelecer como comerciante?
Eu vendia louças e mercearias e, quando vinha para Portimão, ficava aqui quatro ou cinco dias. Convenci-me de que isto era a melhor terra do Algarve – e é. Mas não foi muito fácil, porque comecei quase do zero. Andava a vender, mas não tinha nada. Contudo, via gente de todo o lado, de Sagres a Albufeira, a vir comprar e percebi que havia lugar para mais uma loja. E abri uma, na Rua do Craveiro, a mirar a Rua do Comércio, mas muito mais em conta. Já havia uma loja de loiças, mais acima, o Jesuíno. Ele era grande e eu era pequenino; mas, com o tempo, fui vencendo, criando conhecimentos aqui e ali, e consegui que a loja desse lucro.
Já era casado, na altura?
E tinha um filho. Mudei a residência para aqui, indo viver na Avenida São João de Deus, na altura só com meia dúzia de prédios. E ali vivi cinco anos, até me aparecer um bom negócio, uma vivenda perto da V6, na altura um descampado, onde ainda moro. E aqui nasceu o meu segundo filho.
Quando todos se queixam de que o comércio tradicional está de rastos e há lojas a fechar, continua a aumentar o negócio e a adquirir espaços. Tem três estabelecimentos com reputação e que parecem trabalhar bem. Como explica isso?
As pessoas vêm com uma grande velocidade, acho eu, pensando que Portimão é uma mina. Não é bem assim. Leva tempo e as que abrem de um momento para o outro estão pouco tempo abertas. Tenho-me aguentado aqui, há 60 anos. Iniciei-me com 25 anos, a minha mulher ajudou-me muito e fui crescendo lentamente, com honestidade. Consegui mudar-me para a Rua do Comércio, já com boa clientela. Os meus filhos trabalham comigo e tenho uma empregada com 40 anos de casa, difícil de encontrar, nos tempos que correm. E que, se calhar, vai cá estar outros 40 (risos).

O seu sucesso deve-se a vender produtos de qualidade, em vez de apostar nos produtos baratos?
Sim. Uma das lojas só vende Vista Alegre e Bordalo Pinheiro. Tudo do bom. Em Portimão, não há melhor. Nem no Algarve! Nas nossas casas, temos as melhores loiças, talheres, panelas, tachos, cataplanas, tudo!
Então chegou a Portimão com produtos que os outros não tinham. E apostou na qualidade. Foi isso que aconteceu?
Exatamente. Havia por aí muita coisa, mas estava tudo misturado. O cliente chegava lá e não sabia o que ia comprar. Aqui, sabe. A Vista Alegre é uma loja, com Bordalo Pinheiro junto. Temos outra, na esquina da Rua do Comércio com a Rua Portas da Serra, que deve ser a melhor do Algarve, em loiças e utensílios domésticos. E temos esta, no meio, que é a mais antiga. Agora temos a quarta loja, na Rua Vicente Vaz das Vacas, a partir da qual um dos meus filhos faz venda de artigos para hotéis, restaurantes e bares. Loiças, talheres, copos e taças, até artigos de cozinha. Facas boas, japonesas, portuguesas da ICEL. Quem quiser montar um estabelecimento e ter coisas de qualidade, tem de vir à Casa Carminho. E vendemos muitas cataplanas, principalmente no verão.
E também vendem bem aos turistas?
Sim. Quando vêm à Rua do Comércio, somos praticamente os únicos a vender-lhes qualquer coisa. Temos meia dúzia de peças boas, antigas, que eles levam: almotolias para pôr azeite e outras peças que não encontram nos supermercados. E é tudo material de fabrico nacional, com qualidade.
A passagem das cataplanas de cobre para aço inox
A Casa Carminho, que era a maior vendedora de cataplanas de cobre, começou a pressionar o fornecedor de tachos e panelas para que fizesse cataplanas em aço inoxidável. Houve alguma resistência, pois era necessário criar um molde, num processo que se apresentava caro, sem que houvesse uma garantia de retorno financeiro, porque aquele utensílio só era vendido no Algarve, à época. Mas eles insistiram e, depois de algumas peripécias e longo tempo, a fábrica arriscou, embora fazendo apenas um tamanho. “A primeira parecia um OVNI, pois foi feita com um molde redondo que lá tinham. Parecia um tacho. Mas, finalmente, acabaram por fazer e ainda hoje são iguais”, relatam os filhos do empresário, entre risadas. “Hoje, há outro fabricante, muito conhecido, que as faz, mas só começou muito mais tarde, quando começou a haver um grande crescimento de vendas a nível nacional”.
Empresa mantém referência para a restauração e hotelaria
O filho Luís Carminho também está, de momento, virado para a indústria, vendendo a restaurantes, bares e hotéis. Uma etapa que também merece destaque neste percurso da Casa Carminho. “Começámos aos poucos, há cerca de 10 anos, a visitar clientes, um a um, a mostrar os produtos. Colocava os utensílios na traseira do carro e, chegado aos clientes, tirava tudo para fora. Muitos deles eram conhecidos e amigos e começaram a fazer pequenas compras. Foram aumentando e agora tenho um bom leque de clientes”, revela.
Vendas online foi aposta em 2005
A inovação tem estado sempre presente e tem ajudado à evolução da Casa Carminho, com o forte contributo de Carlos e Luís Carminho, filhos do empresário. O primeiro viu uns sites de venda de livros, na internet, e pensou que talvez fosse uma boa ideia para vender os seus artigos. “Falei com um rapaz meu amigo que mexia em informática e pedi-lhe para me criar um site. E ele fez, uma coisa simples, dentro das suas aptidões. O envio era efetuado através dos correios, mas o problema era o pagamento, que tinha de ser feito através de transferência bancária e levava tempo. Mas lá fomos e, passado algum tempo, descobrimos uma empresa de referências multibanco e ficámos muito mais eficazes. Amigos e fornecedores riam, perguntando quem é que ia comprar um faqueiro pela internet, sem ver o produto”, recorda Carlos Carminho. Contudo, passado um mês, venderam o primeiro faqueiro. E, hoje, com a evolução da internet e das transportadoras, continuam, embora invistam sobretudo nas vendas presenciais, nas suas lojas. Aliás, a proximidade, o espírito do comércio local, a amizade com os clientes e o tratamento personalizado continuam a ser marcas distintivas desta família de lojistas e empreendedores que, esteve sempre atenta às mudanças do setor e à necessidade de se adaptarem às evoluções dos novos tempos.
Cataplanas chegam ao Médio e Extremo Oriente
Graças ao site em que poucos acreditavam, há cerca de 20 anos, receberam uma chamada da África do Sul, para compra de cataplanas. Pediram duas, para análise, com a promessa de uma encomenda grande, se fossem aprovadas. Passado algum tempo, contactaram com uma encomenda enorme, milhares de cataplanas, mas para serem enviadas para quase duas dezenas de países do Médio e Extremo Oriente, duzentos para um, trezentos para outro… Tinham procurado no país todo e a Casa Carminho tinha apresentado o melhor preço. A empresa em questão era a sul-africana Nando’s, que tem base na África do Sul e tinha, na altura, um sócio português. A sua especialidade é frango piri-piri e, neste momento, tem franchisadas em 20 países, incluindo Grã-Bretanha, Estados Unidos e Canadá, apostando em refeições simples, entre o tradicional e o fast food. Um facto curioso é que o sócio português era fã do Futebol Clube do Porto e desejava uma camisola assinada por todos os jogadores. Através de um fornecedor, os empresários portimonenses conseguiram a camisola, que ofereceram ao cliente.





