Vertical quer tornar a escalada uma aventura ainda mais aliciante

Texto: Hélio Nascimento | Fotos: Pedro Pratas


Os irmãos Nuno e Ricardo Sacramento certamente não imaginavam que a sua paixão pelos desportos radicais e a aposta, consequente, no mundo da escalada, levariam ao sucesso que hoje é visível a quem, por exemplo, se desloque ao Parque Desportivo Municipal de Estômbar, onde está instalada a casa do Vertical Núcleo de Escalada da Associação Desportiva e Recreativa (ADR) da Quinta de São Pedro. Fundado em 2011, o clube não só é uma realidade no concelho de Lagoa como também tem vindo a crescer, de forma sustentada, assente na procura e no entusiasmo de uma comunidade que aprecia este tipo de aventura.

“Começámos a escalar há 16 anos, numa parede da escola do Parchal, eu, um amigo e depois o Ricardo”, conta Nuno, 41 anos, designer gráfico de profissão. “Ficámos com o bichinho, andámos depois pela Rocha da Pena (Loulé) e fomos a Sagres. A escalada tem esta vertente de ser um desporto radical, que tanto apreciamos e que não é fácil, ideal em termos de autossuperação”, prossegue, aludindo “à muita luta e paciência” necessárias para empreender este desafio.

Os lagoenses Sacramento treinavam no Parchal com alguns elementos da Associação de Montanhismo e Escalada do Algarve, sediada em Faro, com quem travaram amizade. “Apareceram mais amigos, o grupo chegou quase às 30 unidades e fazia sentido criar um clube de raiz. Sempre nos demos bem com a ADR da Quinta de São Pedro, da Mexilhoeira, que desde logo aderiram à iniciativa. Ficámos então ligados a esta coletividade do nosso concelho e até há pouco éramos o único grupo desportivo, mas agora também existe walking futebol”.

O ano de 2011 marcou o nascimento do Vertical, pela mão de Nuno e Ricardo, a quem se juntaram Valter e Tiago Guerreiro, cujas profissões – hotelaria e carpintaria – não impedem que façam parte do staff responsável, ao qual se associa Mariana Gomes, uma atleta de eleição que já foi à seleção nacional e é também treinadora. Deste quinteto apenas Tiago não dá aulas, já que os restantes dividem entre si os treinos de iniciação e de competição.

O ‘boulder’, as ‘presas’…
Contados os primeiros passos do clube, é altura de dar a conhecer alguns princípios básicos da escalada, cujo objetivo passa por atingir o cume de uma rocha ou de uma estrutura, também identificada como parede, o que é feito com equipamento próprio, dependendo da dificuldade da subida. É um desporto com exigência física, que combina agilidade e trabalho mental. A escalada é praticada como simples hobby, algo de pura recreação, mas igualmente como desporto competitivo, onde os níveis são naturalmente mais elevados.
Tem diferentes disciplinas, sendo que no Vertical treina-se o ‘boulder’, ou bloco, uma estrutura artificial que, no caso, tem cerca de 4,5 metros de altura e 40 de largura. A segurança é dada por colchões no solo e não há corda, como sucede em outras vertentes. A caraterística do ‘boulder’ é precisamente a não utilização de cordas, sendo feita em muros de pedras ou paredes indoor, o que requer técnica e ‘explosão’ nos movimentos. Além disso, há ainda vários estilos, dependendo da dimensão das ‘presas’ (os pontos de apoio existentes nas rochas ou paredes que são usados para segurar com as mãos e apoiar os pés) e do ‘desenho’ do percurso.

Curioso é o facto de quando em vez ser alterado o figurino da parede, o que, no Vertical, sucede habitualmente às segundas feiras. “Mudamos tudo, numa operação que se chama ‘route setting’, que é a arte e a técnica de ‘desenhar’ rotas de escalada, colocando as ‘presas’ em locais diferentes para criar outros desafios, físicos e técnicos, e definindo o nível de dificuldade. As ‘presas’ são lavadas e montadas de novo, a parede também é limpa e são 14 os graus de dificuldade”, explica Nuno.

Do lazer à competição
O Vertical ‘instalou-se’ no Parque de Estômbar graças ao Orçamento Participativo e à boa parceria com a Câmara de Lagoa, que criou o espaço e construiu o pavilhão. O investimento feito pelos manos Sacramento também é considerável, como se atesta pela qualidade das ‘presas’, iguais às que estão nos Mundiais e Jogos Olímpicos.

As receitas vêm das quotas dos sócios e das aulas. “Temos cerca de 30 atletas, mas os sócios são em maior número. Muitos não competem, é puro lazer e qualquer pessoa pode vir escalar connosco. Tentamos que toda a gente conheça este desporto, que é relativamente novo e está a crescer”.    

A competição marca igualmente pontos no quotidiano do Vertical, com bons resultados, casos recentes de Nuno e Valter Guerreiro, vice-campeões na categoria acima dos 40 anos. A Mariana é craque e, entre os mais novos, Madalena, a filha de Nuno, tem 10 anos e está em primeiro lugar do Regional. E Ricardo, competidor ‘a sério’ e federado, somou alguns títulos universitários e foi a três Europeus. Além de monitor, é produtor e técnico audiovisual.

O Vertical vai passar a abrir num horário de manhã, entre as 10h00 e as 14h00, facultando mais hipóteses de treinos livres, que, à tarde, se prolongam das 17h00 às 22h00. As aulas para os miúdos são às terças e quintas feiras, há aulas também para os ‘graúdos’ e as portas estão abertas aos fins de semana. “O espaço não abunda, mas temos capacidade para receber competições internacionais e somos referência na organização de eventos”, nomeadamente a Taça de Portugal, com os melhores escaladores do país.

O clube disputa os Campeonatos Regionais, que comportam duas etapas e é recente (a zona dita sul estende-se do Algarve a Torres Vedras), para além da presença nos Nacionais.

‘VertiKids’ e ‘VertiGirls’
Entre os projetos mais recentes do Vertical, destaque para o ‘VertiKids’, as aulas de iniciação para crianças. “A adesão foi boa, ficou no nosso programa e está a crescer”, salienta Ricardo, referindo que mais de 50 por cento das crianças – num total de 15 – dessas aulas já fazem competição. As sessões têm lugar duas vezes por semana e são dadas pelo próprio Ricardo e por Mariana. Existe, ainda, o ‘VertiGirls’, que surgiu da ideia de equilibrar a disparidade entre mulheres e homens (30 e 70 por cento de praticantes, respetivamente), através da candidatura ao programa ‘Desporto para Todos’, do IPDJ.

“Era suposto o projeto ser maior, com cordas e no exterior, e workshops, mas o valor dado foi baixo e estamos a fazer, desde março e até junho, uma sessão por mês, com 20 raparigas. As duas já efetuadas esgotaram num ápice. A Mariana é a monitora principal e temos mais, adeptas de outras vertentes, como a Helene Blesbois, que escala mais em rocha, e a Sallie Harmsen, uma atriz que faz filmes e séries para a Netflix e que há sete anos se radicou por aqui e vem cá escalar”, revela Ricardo.
O ‘VertGirls’ é dedicado em exclusivo a mulheres e raparigas, visando também o empoderamento da mulher, que é levada a desafiar-se a si própria e ganhar mais confiança. “Qualquer pessoa o pode fazer, com mais ou menos propensão para o desporto, seja atriz, escriturária ou médica. A escalada é um ótimo hobby e a ideia, obviamente, é tentar trazer mais mulheres”, acrescenta.

Dinamizar a atividade
A ideia de crescimento encabeça os objetivos do Vertical, assente na boa relação com o município e no propósito de manter a equipa. “Queremos melhorar, captar atletas, ter mais competição e apostar em outras vertentes da escalada, outdoor e em rocha, por exemplo. Nota-se o nosso crescimento, é verdade, mas desejamos ser mais do que um ginásio de escalada. Aqui fazemos a gestão, mas a ideia é dinamizar a modalidade, tanto no concelho, como no Algarve”, assegura Ricardo.

A prioridade vai para a Carta de Desporto para o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, um cenário de falésias fantásticas ideais para escalada. “Existe no Parque Natural da Arrábida, no da Peneda Gerês, na Serra da Estrela, tudo o que é parque tem carta, só falta aqui”, lamenta o monitor, argumentando que “as limpezas costeiras efetuadas na zona de Sagres pela comunidade escaladora provam que o objetivo é preservar a natureza e não danificar o património”.

Prosseguindo, Ricardo fala das “toneladas de lixo que recolhemos junto de zonas onde existem pesca, que é permitida, ao contrário da escalada”. Estas operações de limpeza são efetuadas com associações de cariz ambiental e até de Lisboa vêm ajudar.

“A escalada acaba por ser benéfica para os parques naturais. Isto para dizer que o queremos é dinamizá-la, dando melhores condições, inclusive porque temos praticantes profissionais que chegam do estrangeiro, como uma checa, que foi campeã europeia e esteve aqui connosco. Se tivermos uma Carta Desportiva para a região de Sagres de certeza que se atrai muitas pessoas. E, se vivemos tanto do turismo, é aproveitar, pois não se trata do uso e abuso dos espaços, mas sim da sua conservação”.

Vem aí uma parede topo de gama

Num espaço anexo ao ginásio onde decorre toda a atividade do Vertical, está a nascer uma nova sala de treino, equipada com uma parede topo de gama, denominada ‘Kilter Board’, a mais indicada para quem aposta na competição. “Somos o quinto ginásio a ter esta parede em Portugal, o que diz bem da sua relevância. É uma ferramenta ótima, obriga a mais força e técnica pela inclinação e pelo tipo de ‘presa’, e, sendo da marca ‘Lemur’, não há outra totalmente igual no nosso país”, vincam os responsáveis. A ‘Kilter Board’ é interativa e ajustável, com luzes LED e ‘presas’ ergonómicas, contemplando um sem número de problemas para os escaladores e permitindo alterar a inclinação até 70 por cento. A abertura está para breve.

Entusiasmo ao rubro entre a pequenada

Assistir a uma aula dos mais miúdos transporta-nos para um mundo quase de fantasia, tal não é a agitação e entusiasmo que colocam nas suas ações, seja nas brincadeiras iniciais ou, depois, nas primeiras escaladas. E há também quem, embora de tenra idade, seja já um ‘adulto’ na matéria, como a Rita Marques, de 12 anos, aluna do 6º ano, que praticou BTT e natação e está rendida à escalada. “Gosto muito, nem sei bem explicar porquê. Talvez pela aventura. E sim, foi muito fixe ser campeã regional”, diz a Rita, que pratica a modalidade há dois anos e meio. “Se subi depressa? Mais ou menos”, atira, com um sorriso, rejeitando medo, embora já tenha partido um braço… A Maria do Mar, por sua vez, pratica há apenas um ano, garantindo que “é divertido e descontrai, fico mesmo liberta”. Antes, fazia equitação e judo, modalidades que agora trocou pela escalada. “O que mais me cativa é chegar ao final dos desafios, superar tudo. Ainda não entrei em campeonatos, é um objetivo que tenho”, adianta Maria, que frequenta 4º ano e tem 10 anos.

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