OPINIÃO | A trágica epopeia de Francisco Maneta

Pedro Manuel Pereira | Historiador


Antes de vos passar a relatar em jeito introdutório, o infausto ocorrido com o Francisco Maneta, homem probo e de bons costumes, convém que o leitor saiba que Maneta é um falso apelido com o qual o nosso personagem foi, infelizmente, a nosso ver, apodado pelos amigos e correligionários, que carinhosamente lho ofertaram após ter ficado sem o braço esquerdo, num confronto entre um grupo de manifestantes da esquerdopatas onde ele estava inserido, e uma chusma de manifestantes a que chamavam de fascistas com quem trocaram insultos, murros, garrafadas, caneladas e outros mimos proferidos e portados por eles e pelos fascistas, acrescidos de indescritíveis objectos contundentes, como avantajados falos de loiça das Caldas com que os fascistas tentaram sodomizar (metaforicamente) os pobres dos esquerdopatas.

Acresce que o grupo do Francisco Maneta possuía como principais armas de arremesso e de destruição massiva, palavras de ordem que consistiam essencialmente em projéteis de alta precisão como: ”Fascismo nunca mais!”, “Abaixo a reacção!”, e outros quejandos slogans, proferidos em altos berros, reproduzidos a vermelho numas faixas de panos brancos, alçadas nas pontas por varapaus que os manifestantes agarravam, os quais, com a eficiência prática que se lhes reconhece, passaram num instante de meros suportes de pano a argumentos de peso para distribuir no lombo dos adversários.

Acontece que os fascistas eram muitos mais e, no enfrentamento, o grupo do Francisco Maneta foi literalmente trucidado, acabando o nosso personagem por cair e ser espezinhado por uma chusma de opositores, tendo resultado no esmagamento do braço esquerdo do pobre homem, que ficou sem recuperação possível, pelo que teve de ser amputado.
Em boa verdade, o que moveu o Francisco Maneta a integrar por expresso convite a manifestação da esquerdopatia, foi o ódio de que eram portadores intrínsecos esses manifestantes.

Ora o Francisco, tinha em comum com os membros dessa agremiação o ódio que passou a alimentar a sua existência, depois da sua – até então – extremosa esposa o ter trocado por um fascista, dono de um talho na rua onde viviam, um tipo prático, de faca em riste e avental ensanguentado, perfeitamente instalado no comércio local.

Desse fatídico dia em diante, a geopolítica do bairro alterou-se irreversivelmente para o Francisco. O odor da carne fresca da montra do rival passou a ser o perfume da sua humilhação diária. A figura do vizinho talhante tornou-se o arquétipo de tudo o que ele precisava de combater em Portugal.

Aproveitando o convite para a manifestação da esquerdopatia, Francisco entendeu que afinal é incomparavelmente mais nobre gritar palavras de ordem contra os fascistas, do que admitir que foi trocado por um vendedor de chouriços e de bifes de vaca do traseiro.

Logo, o combate que o moveu contra a manifestação dos fascistas, teve por motor de alta cilindrada, o ódio.

Certo e consabido é que a génese dos combates ideológicos não reside nas manifestações partidárias, mas nas dores mais íntimas da alma humana.

Claro que, do sentimento aos desabafos de ódio de estimação que proferia em público e privado contra os fascistas, onde quer que tivesse oportunidade, tornou-o uma persona grata no seio do agrupamento de mal-amados que passou a integrar. Afinal quem é que não ama um bom devoto do rancor com palco ao dispor, esse nobre desporto mental que não exige qualquer tipo de esforço físico, equipamento ou uso do cérebro.

Aliás, toda a rotina quotidiana matinal de Francisco Maneta, é um monumento à mesquinhez. Começa o dia lendo as notícias locais com o único fito de encontrar defeitos na vida de pessoas que conhece e não conhece, mas de quem ouve falar, bebe café sem açúcar para manter a amargura presente na mente e na boca e arrasta as cadeiras da cozinha com uma precisão matemática no exacto segundo em que o despertador do vizinho toca. A sua motivação espiritual para começar o dia é garantir que o seu vizinho do andar de baixo, o Gonçalves, tenha uma manhã bem pior que a dele.

Na realidade, o combustível que passou a alimentar cada passo no quotidiano de Francisco, não foi um genuíno fervor doutrinário, mas sim um ódio visceral, denso e inescapável que tinha passado a reger a sua própria existência.

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