A história do alvorense que andou na pesca do bacalhau

Texto e fotos: Jorge Eusébio, in Portimão Jornal nº29


Sabino Pereira é um ‘filho’ de Alvor que sabe praticamente tudo o que há para conhecer sobre a arte de apanhar peixe, quer seja ao anzol, com alcatruzes, com cofres ou à rede.

Foi logo aos 15 anos que tirou a cédula marítima e começou a ir ao mar, seguindo, assim, os passos do pai.

Um dos períodos mais marcantes da sua vida foi aquele em que andou na pesca do bacalhau, nos mares da Gronelândia, a bordo do navio português ‘Novos Mares’.

Lembra que “cada temporada durava cerca de seis meses e desenvolvia-se entre maio e outubro”. O barco arrancava de Aveiro e navegava cerca de duas semanas até chegar ao seu destino.

O dia de trabalho tinha início logo pelas quatro horas da madrugada, que era a altura em que todos se levantavam dos beliches. Pouco depois, o cozinheiro tocava o sino, o que indicava que o pequeno-almoço estava pronto.

Para além da tripulação, dos pescadores, dos mantimentos e das artes necessárias para a pesca do bacalhau, a grande embarcação transportava, empilhados no convés, pequenos barcos, os ‘dórias’, que eram largados no mar através de ganchos.

Cada um dos 46 pescadores metia-se num deles e, através do sistema de pesca à linha, tentava, ao longo das horas seguintes, apanhar o máximo possível de exemplares do tão apreciado peixe.

Nessas alturas, diz Sabino Pereira, “o maior medo que tínhamos é que viesse uma baleia na nossa direção”. Quando havia sinais de que uma se aproximava “fazíamos barulho, batendo muitas vezes com um pau no barco, para que se assustassem e mergulhassem para o fundo do mar”, evitando assim que embatessem contra a embarcação.

No final do turno, voltavam ao ‘Novos Mares’ e depois de descarregado, era apontado o bacalhau que cada um apanhava.

Quando a pescaria era muito boa, “o capitão punha uma cassete de música do Norte a tocar e o moço da copa distribuía bagaço e um cigarrinho a cada um”. Mas isso era só quando as coisas tinham corrido mesmo muito bem porque “nos outros dias não havia nada para ninguém”.

Depois de cumprida a temporada, o barco voltava a Portugal com um carregamento que podia chegar às 13 mil toneladas de bacalhau.

“A coisa mais linda que já vi”
As jornadas de trabalho eram longas e cansativas. Às horas que passavam nos pequenos barcos, à pesca de bacalhau, somavam-se as que eram consumidas a ‘iscar’, ou seja, a preparar os anzóis para a pescaria seguinte e a amanhar e salgar o peixe capturado.

Havia fases em que o mar e as condições meteorológicas não ‘colaboravam’, o que impedia a faina e, consequentemente, diminuía o rendimento de todos, uma vez que o que recebiam dependiam do que pescavam. Às vezes, ainda arriscavam, faziam várias tentativas para colocar os barcos na água, mas logo tinham que os içar de volta.

O que, de alguma forma, ainda compensava todo aquele esforço e sacrifício era o espetáculo proporcionado pela natureza, sobretudo o céu, que “tomava todas as cores, era a coisa mais linda que já vi”.

E, se não fosse o intenso trabalho que tinham, podiam apreciar esse panorama tranquilamente, ao longo de muitas horas, pois, durante uma parte substancial do período que ali passavam, “era sempre dia, não havia noite”.

A vida de Sabino Pereira na pesca do bacalhau começou quando tinha 20 anos e desenvolveu-se ao longo de quatro temporadas. Apesar de dura, aquela era uma atividade bem mais rentável do que a que teria se ficasse em Alvor.

Em cada ano, antes de arrancar para terras distantes, ia fazer a necessária matrícula à Fuzeta, o que lhe garantia um rendimento de sete contos, a que iria somar as verbas que conseguisse em função do que pescava.

Para ganhar esse dinheiro, tinha, no entanto, de fazer grandes sacrifícios, não só em termos de trabalho, mas também familiares. Um deles foi não ter visto nascer a sua filha, por estar numa temporada da pesca do bacalhau. Quando voltou a casa “já ela tinha uns três meses”.

Acidente fatal
Num ambiente agreste como o que enfrentavam, os acidentes aconteciam com alguma frequência, felizmente, na maior parte dos casos, sem consequências fatais.

No seu caso, o mais complicado teve a ver com “um anzol que saltou e furou-me a mão quando estava a pescar”. Sem poder remar, teve de esperar que uma baleeira o viesse buscar. Foi assistido pelo enfermeiro do navio, “que me tirou o anzol da mão, deu-me uma injeção e medicação, mas devido a isso acabei por ter de ficar 15 dias sem poder pescar”.

Um outro navio da empresa para a qual trabalhava “apanhou um ‘rabo’ de ciclone e ficou praticamente destruído, mas, por sorte, não morreu ninguém”.

Mas o episódio mais dramático, em termos humanos, aconteceu no último ano em que prestou serviço no ‘Terra Nova’. Devido ao mau tempo que se fazia sentir “dois colegas perderam o equilíbrio e caíram, um ainda se salvou, mas não conseguimos socorrer o outro e lá ficou”.

Quando a pescaria era muito boa, “o capitão punha uma cassete de música do Norte a tocar e o moço da copa distribuía bagaço e um cigarrinho a cada um”

A triste notícia foi comunicada para Portugal e ao voltarem ao porto de Aveiro tinham a aguardá-los uma multidão de pessoas, todas vestidas de preto, em sinal de luto pelo pescador falecido.

Este episódio afetou Sabino Pereira de tal maneira que acabou por não querer voltar à pesca do bacalhau, encerrando, assim, esse capítulo da sua vida, aos 24 anos.

Venda de água em carros de besta
Mas, agora no Algarve, manteve-se ligado ao mar, até se reformar, “a pescar polvo, sargo, dourada, besugo, sardo e safia”. Durante uns anos andou em traineiras até que resolveu adquirir um pequeno barco e trabalhar por conta própria.

A atividade continuava a não ser fácil, mas garante que “se conseguia poupar dinheiro, até porque o custo de vida era muito mais baixo do que é hoje. Com o fim do escudo e a entrada do euro ficou tudo mais caro”.

O pescador lembra que Alvor era uma terra muito diferente da que hoje conhecemos, “eram poucas casas existentes e à sua volta só havia terrenos e fazendas”. As casas de banho eram um luxo praticamente inexistente e não havia redes de esgoto nem de água.
A população local tinha que ir abastecer-se do precioso líquido a chafarizes, cisternas e poços que existiam nas imediações ou, em alternativa, esperar pela passagem de vendedores que se deslocavam em carros de besta com cântaros cheios de água.

“Têm mais dó dos peixes do que dos pescadores”
A estrada que ligava a povoação a Portimão “era em terra batida e durante muito tempo as deslocações eram feitas também em carros puxados por cavalos, só mais tarde é que começaram a surgir as camionetas da Castelo & Caçorino, que transportava as pessoas e o peixe”.
Também se lembra de uma situação que hoje em dia parece surreal, que era a da obrigatoriedade de tirar uma licença para se ter um isqueiro. Sabino Pereira diz nunca ter sido multado por não possuir essa autorização legal, mas viu várias situações dessas.

A partir da época de 1960, os turistas descobriram a sério o Algarve e, aos poucos, tal como uma parte considerável da região, Alvor foi-se transformando e adaptando à nova indústria do lazer.

No seu caso, essa evolução assegurou-lhe uma adicional fonte de rendimentos, pois, ao longo de cerca de uma década, a par do trabalho de pescador, passou também a levar turistas a visitar as grutas, o que lhe permite que hoje garanta que “conheço os ‘buracos’ todos da costa desde Benagil à Ponta da Piedade”.

Muita coisa mudou, mas no que diz respeito aos homens do mar não foi para melhor”, em parte porque, no ‘seu’ tempo “podia-se pescar em qualquer lugar e agora não”. Para além disso, “cobram aí entre 150 a 200 euros por mês a um pescador para usar um pequeno espaço onde possam colocar as suas artes”.

A isto há a somar o forte aumento do gasóleo para os barcos e as mil e uma restrições e custos que existem, “é preciso pagar para tudo e mais alguma coisa”, o que o leva a desabafar que “não deixam as pessoas trabalhar, têm mais dó dos peixes do que dos pescadores”.

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