A paixão pelo futsal que move o Portimonense

Texto: Rafael Duarte | Fotos: D.R.


O segredo para o sucesso do Portimonense no futsal é o bairrismo, paixão, dedicação e nunca arranjarmos problemas, mas soluções”, começa por explicar à ‘Algarve Vivo’ o técnico Pedro Moreira. São estes os pilares que acredita serem fundamentais para manter o Portimonense no mais alto patamar do futsal e que permitiu o crescimento do clube, nos últimos anos, na modalidade.

O técnico assumiu o cargo de treinador da equipa principal em 2014, mas tem sido muito mais do que isso, afirmando que tudo o que tem feito pelo clube deve-se à forte ligação que tem aos alvinegros e à modalidade.

A equipa continuará junto dos grandes, pois garantiu a permanência na Primeira Liga de futsal e vai partir para o quarto ano consecutivo no campeonato. A exigência já é outra e, mesmo assim, tanto o treinador como os jogadores ainda queriam mais esta época, face à grande temporada de 2020/21, na qual o Portimonense ficou em 8º e apurou-se para o play-off de campeão.

A equipa de futsal do Portimonense militava na Distrital do Algarve, quando Pedro Moreira chegou ao comando técnico, em 2014. Nesse ano, subiram para a Segunda Divisão e por lá ficaram até 2019, quando festejaram a promoção inédita à Primeira Liga. Nos últimos três anos a competir no principal escalão do futsal português ganha destaque a época 2020/21, que promete mesmo ficar para a história dos algarvios.

“O primeiro ano foi de aprendizagem e acabou por ser irregular, mas no segundo como tínhamos mais experiência e conseguimos fazer uma época muito boa. Além do play-off de campeão, conseguimos ser o terceiro melhor ataque da Liga. Dificilmente repetiremos uma temporada assim”, lembra o treinador Pedro Moreira.

Este ano, as contas da permanência só ficaram fechadas na última jornada, onde os alvinegros venceram o FC Azeméis by Noxae por 3-2. “O ano passado tivemos nos play-offs e a planificação da época foi a pensar em repetir o feito. Claro que a permanência é sempre o objetivo base, mas temos sempre mais ambição. E, por isso, entendemos que falhou um bocado a época. Eu como treinador nunca tive uma convocatória por diversos motivos. Tinha apenas dez jogadores de campo e dois guarda-redes, não tendo sido fácil gerir isso. Nem sempre tinha os dez e tinha que utilizar alguns da equipa B. Daí a irregularidade da temporada do Portimonense, a falta de jogadores, de competitividade interna, e acho que isso é derivado do mau início e planificação da época. Este ano, tirámos cinco jogadores e só houve um reforço de verdade. Algo que nos abalou e tem que haver uma estrutura e tranquilidade no plantel”, afirma o técnico.

Os jogadores seguem naturalmente a mesma linha de pensamento do treinador. “O balanço que temos que tirar desta época é negativo, apesar de termos conseguido a manutenção. Quem está cá desde o início, sabe o que passámos. No fundo, o nosso objetivo era ir aos play-offs como fizemos no ano passado ou até fazer melhor que a época anterior. Não foi possível e a manutenção passou a ser o objetivo principal, que, entretanto, conseguimos”, refere o capitão da equipa, Paulinho Rocha.

O caminho para o golo
O percurso em ascensão do Portimonense é notável e Pedro Moreira tem inevitavelmente um papel preponderante por ter pegado na equipa e a ter colocado no topo. “É satisfatório, porque fiz algo em que ninguém acreditava. Quando comecei, ninguém acreditou que podíamos chegar onde chegámos. Nunca aceitei desistir. Não descansei enquanto não chegámos aqui. Foram noites mal dormidas e até perdi amizades, mas mostrei à Câmara Municipal e aos adeptos que era possível. Nunca quis ser treinador de Primeira Liga, mas é um sonho estar a treinar o clube da minha cidade e ter importância neste projeto”, adianta.

E para a simples pergunta ‘Porquê esta dedicação toda?’, há uma rápida resposta. “Paixão e dedicação. É a mística e raça que meto nos meus jogadores. Primeiro o nós, cidade e adeptos que acreditam neste projeto”, esclarece.

Valores que passam do treinador para os jogadores com a ajuda do capitão. “Esta equipa é a imagem do nosso treinador: a raça. As coisas não correram tão bem como na época passada, saiu um ou outro jogador, mas o mister conseguiu arranjar alguém parecido. A equipa é sempre igual, porque tem a raça, a atitude e o querer. A garra de correr os 40 minutos”, vinca Paulinho Rocha.

É esta relação forte entre todas as partes que acaba por proporcionar o regresso de alguns filhos a casa. “Temos jogadores que saíram e voltaram, o que mostra que tratamos bem as pessoas, porque temos esse lado humano. Não deixamos ninguém. As promessas são todas cumpridas e isso faz a diferença, porque quando precisamos deles, eles não desistem, tal como o contrário”, garante Pedro Moreira.

É o caso do guarda-redes João Silva que esteve no Portimonense na época da subida para a Primeira Liga e representou o clube na estreia no principal escalão do futsal português. Entretanto, saiu para o Viseu 2001 e Torreense, mas voltou em janeiro deste ano. “Para mim, foi fácil a adaptação e aceitar o regresso para Portimão. Encarei como mais um desafio num clube que conheço bem e onde gosto de estar, porque sou acarinhado pelas pessoas e pela cidade”, explica o guardião.

O apelo
Finalizada mais uma época desportiva, há que pensar já no próximo ano, mas antes de qualquer planificação, Pedro Moreira faz um apelo. “O Portimonense fez algo impensável há três anos, que ninguém tinha feito no Algarve. No entanto, acho que ainda não estamos preparados para isto, porque, três anos depois, vejo que o clube continua muito refém dos patrocinadores. Gostávamos que houvesse um maior apoio da Câmara Municipal, porque é fundamental para haver estabilidade num projeto a ajuda de um clube e de uma autarquia”, alerta.

Este é um pedido feito pelo técnico, tendo em conta algumas dificuldades sentidas nos últimos anos. “A Liga exige verbas muito elevadas e o clube nem sempre está à altura. Cada vez mais, a Liga está a ficar profissionalizada e os valores são muito altos. Apesar de termos grandes condições para viver, a cidade está afastada. O jogo mais perto que temos é a 300 quilómetros. Nós fazemos 17 mil quilómetros por ano. Os jogadores recebem bem em qualquer lado e nós temos que ter boas condições para eles virem para cá. Não é só sol e praia”, esclarece.

Independentemente da resposta ao apelo feito, esta equipa vai continuar na sua praia, que é dentro do pavilhão, a jogar e a sonhar com grandes resultados que elevem ainda mais o Portimonense no futsal.

A formação
Sem grandes possibilidades para fazer contratações de elevado custo torna-se vital para uma equipa como o Portimonense a aposta na formação. E, nesse sentido, segundo o treinador da equipa principal Pedro Moreira, “o Portimonense é das formações com mais atletas a nível do Algarve”, tendo atualmente 95 jovens jogadores distribuídos por uma equipa por cada escalão. Ainda assim, o técnico explica que há um longo caminho a percorrer.

“Isto é um trabalho a médio longo prazo. Todos querem ser treinadores seniores, mas é preciso treinadores qualificados na formação. Os miúdos perdem com a falta de informação e conhecimento de futsal, porque, quando chegam à equipa sénior, não estão preparados. O Portimonense pode ter uma equipa de topo, mas depois não há competitividade”, explica o técnico.

Apesar dessas dificuldades, Pedro Moreira espera que a juventude olhe para a equipa principal como um exemplo de que tudo é possível. “Queremos formar homens e jogadores de futsal. Estamos a falar de uma modalidade que é para os miúdos se divertirem e o Portimonense quer ter qualidade e não quantidade. Criar a ambição e responsabilidade do clube e da competição. Passar essa mensagem aos miúdos”, acrescenta.

E a prova de que essa aposta na formação é contínua é tirada ao falar com Lucho Cirpa, recentemente promovido à equipa principal. Os pais vieram da Moldávia, mas nasceu em Portimão e começou a jogar futebol aos seis anos. Quando chegou aos 16 decidiu deixar os relvados e experimentar o futsal, porque tinha amigos no Portimonense.

“Comecei a treinar e vi que gostava mais do futsal do que do futebol”, relembra. Este ano fez a pré-época com o plantel e foi para a equipa B. Entretanto, foi promovido definitivamente há cerca de um mês. “Quando o treinador me chamou fiquei surpreendido e entrei em pânico. Eles têm um ritmo completamente diferente até porque são profissionais. Fiquei com aquele medo e vergonha de fazer algo mal e depois pensar que estão a falar de mim, mas agora estou tranquilo, porque estão sempre dispostos a ajudar. Desde que entrei aqui falam comigo e são amigos que posso dizer que vou levar para a vida”, garante o jovem que já teve oportunidade de representar o Portimonense na Primeira Liga e que recorda o que sentiu quando entrou em ação.

“Ter as bancadas cheias… Fiquei nervoso! O coração a saltitar, não sabia o que fazer, mas já foi a realização de um sonho. A nível competitivo, completamente diferente do que estava habituado. Tinha medo de errar e estava nervoso, mas acabou por correr tudo bem”, conta.

Enquanto jogador da A fala de um sonho concretizado, “porque nem todos têm a oportunidade de treinar e jogar com a equipa principal” e, quanto ao futuro, deixa uma garantia: “O futsal é, neste momento, a minha prioridade. Não continuei os estudos para ver se tenho alguma hipótese aqui. Vou fazer os exames de acesso para a Universidade, entretanto tenho o 12º feito, mas com esta oportunidade na equipa A dediquei-me mais ao futsal do que aos estudos”, afirma.

O 6º jogador

Na equipa de futsal do Portimonense há uma forte ligação entre o plantel e os adeptos, a quem Pedro Moreira denomina como o 6º jogador. “O clube sempre teve pessoas que gostam disto à nossa volta e não é por dinheiro, mas pela paixão pelo futsal. Foi isso que nos diferenciou dentro e fora de campo e que nos levou à Primeira Liga”.

E desde o Distrital à Primeira Liga uma das coisas que não mudou mesmo foi o apoio constante vindo das bancadas. “Uma equipa com muito apoio dentro e fora de portas. Uma equipa que leva os adeptos no autocarro e há quem diga que faz mal, mas, para mim, foi assim que subimos e, enquanto cá estiver, vamos continuar a fazê-lo, porque não temos que mudar aquilo que nos deu sucesso. Tenho que lembrar como cheguei ao topo e foi assim. Os adeptos foram parte desse sucesso. No ano passado, na nossa melhor época, com a pandemia, estavam sempre fora dos pavilhões a apoiar. É uma cidade que respira muito futsal”, diz o técnico.

Um apoio mútuo até porque, por exemplo, na pandemia, o Portimonense fez uma recolha e entrega de alimentos a famílias carenciadas de Portimão. “Somos um clube solidário que estamos sempre cá para ajudar, porque mostramos que também somos humanos. Abrimos as portas pela primeira vez sem cobrar bilhete e agora temos feito sempre assim. Portimonense é Portimonense e para mim os adeptos são os melhores”.

A importância que vem de fora também é reconhecida por quem está sob os olhares atentos dos adeptos. “É um clube histórico, o único algarvio na Primeira Divisão. É muito importante para a Liga ter o Portimonense lá. É um clube que ajuda muito no desenvolvimento da modalidade. Somos muito acarinhados. É muito importante para nós, para a cidade e para o clube continuarmos na Primeira Liga”, refere o guarda-redes João Silva.


Nuno Miranda, internacional por Portugal

O trabalho feito pelo Portimonense, nos últimos anos, tem tido resultados não só para o clube, mas também para os jogadores que o representam. Nuno Miranda que o diga, pois tornou-se no primeiro jogador de sempre de uma equipa algarvia convocado para a Seleção Nacional de futsal.

O ala, de 24 anos, foi chamado pelo selecionador nacional Jorge Braz para o duplo confronto com a Bélgica, nos dias 7 e 9 de abril deste ano. “Foi uma experiência muito positiva. Aprendi muito e estive com pessoas que são ídolos para mim. Portugal tem dado imensos frutos no futsal e, quando cheguei lá percebi logo porque é que o país tem conquistado tantos títulos na modalidade. Agora quero ajudar a conquistar mais”, diz o jogador do Portimonense ainda com um brilho nos olhos.

Admite que estava muito nervoso, quando se juntou à comitiva, mas os restantes convocados ajudaram para que a adaptação fosse rápida. “Receberam-me todos muito bem. Parecia que já estava com eles há anos. Foi uma receção incrível e senti que todos me queriam ajudar. O selecionador Jorge Braz também me estava sempre a incentivar, fizesse algo de bem ou mal”, recorda.

Garante que esta vai ser uma história para contar aos netos, até porque, no jogo de estreia pela equipa das ‘quinas’ teve oportunidade de dividir o campo com Ricardinho, que fez a despedida da Seleção. “Foi único jogar com o Ricardinho, porque foi a minha primeira vez e a última dele. Tive o privilégio de conhecer a pessoa, trocar impressões e ele é muito humilde, trabalhador e genuíno. Tive uma experiência muito boa com ele”, recorda Nuno Miranda, que conta ainda as dicas que recebeu do ‘Mágico’. “Deu-me bons conselhos, disse-me para não ficar nervoso, porque, se fui chamado, é porque tenho valor e, por isso, pediu-me para ficar tranquilo e fazer o que sei melhor”, revela o jogador alvinegro.

Em casa e no clube foi uma festa aquando da chamada de Nuno Miranda à Seleção Nacional. “Estava com alguns colegas do Portimonense e, quando saiu a notícia, ficaram muito contentes. Não estava 100% à espera, mas como já tinha sido pré-convocado para o Europeu senti que estava a trabalhar bem e que a minha hora iria chegar”.

Um orgulho também sentido por parte do treinador do Portimonense, Pedro Moreira, que impulsionou o jogador. “Fui buscá-lo com um ano de futsal no Fabril. Poucos o queriam, porque era daqueles jogadores de futsal de rua. Ao primeiro ano não se adaptou, porque veio logo para a Primeira Liga. Eu vi algo nele, mas não basta ter pés. Também é preciso ter conhecimento técnico-tático. Ainda assim acreditei nele e ele conseguiu. Esta chamada à Seleção surge graças ao trabalho dele, mas também é meritório para nós, porque, passados três anos de irmos buscar um jogador, vê-lo já na Seleção é sinal que estamos a trabalhar bem”.

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