Adriana renasceu para o fado e continua sempre a (en)cantar

Hélio Nascimento, in Portimão Jornal nº41


Adriana Marques começou a cantar muito cedo, entusiasmada com aquilo que a rodeava, mas, alguns anos volvidos, um trágico acidente de um amigo, com quem partilhava muitas vezes o palco, fê-la interromper o percurso. Até duvidou, então, se valia a pena continuar.

“Não escolhi ser fadista, é verdade, mas a música surge muito cedo na minha vida, talvez pelo facto de os meus pais trabalharem numa rádio local (Rádio Fóia) e eu a ouvir bastante. O certo é que comecei a cantar com o Sérgio Nunes, tinha aí uns oito anos, mas, com a morte dele, fiquei com uma relação de amor-ódio em relação às cantigas”, confessa a fadista ao Portimão Jornal, no início de uma conversa reveladora e aliciante.

Vem a propósito lembrar que Sérgio Nunes, o jovem artista algarvio que ficou célebre com a interpretação de ‘A Lenda da Fonte’, faleceu num acidente de viação em 2001. Na altura, Adriana tinha 14 anos.

“Mais tarde, por brincadeira, aí por volta dos meus 20 anos, incentivaram-me a cantar de novo. Escolhi o tema ‘Chuva’, do Jorge Fernando, e o impacto foi tão grande e positivo que não mais parei”.

Vários concursos de fado, muitos elogios de pessoas do meio e inúmeros convites para espetáculos viraram por completo esta página da história da vida de Adriana Marques. “Em 2006 gravei o primeiro disco, depois fui fadista residente nas revistas do Boa Esperança durante quatro anos, ao mesmo tempo que continuava com as minhas atuações”.

Em 2017, na sequência deste trajeto, surge um momento alto na sua carreira, com o lançamento do álbum ‘Simplesmente’. “Foi o meu álbum de estreia, que ainda hoje é falado com frequência. Expandi o nome, passei a cantar também em Lisboa e fui ao estrangeiro fazer espetáculos, na França, Suíça e Holanda”.

Um álbum que “é a minha cara”
‘Simplesmente’ é um marco quiçá irrepetível na carreira de Adriana. “Sim, esse álbum é a minha cara! Foi um trabalho muito pensado, muito bem definido e gravado em acústico, em Monchique, com a voz e os instrumentos ao vivo”, explica a algarvia, deixando transparecer na voz toda a emoção que ainda sente com esses momentos.

A Câmara Municipal “tem desenvolvido esforços no sentido de promover o fado e os artistas locais e lutamos com a ideia de que é possível haver casas de fado em Portimão”

“É também uma espécie de homenagem a grandes nomes do fado, como Jorge Fernando, Fernanda Maria, Maria Valejo, Amália Rodrigues e Carlos Gonçalves, entre outros, ou seja, aqueles que mais me marcaram. Se alguém me perguntasse, um ano antes, quem era eu… está aí!”.

Adriana Marques cantou em 2016 para Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, durante uma pequena apresentação da Escola das Artes, o que constituiu, igualmente, “uma honra e um orgulho”. De novo a falar do álbum ‘Simplesmente’, evoca o ‘Fado Monchique’, em que foi acompanhada pelo Coro da Confraria do Medronho de Monchique. Por norma, canta com os músicos Vítor do Carmo e José Santana, embora possa haver alterações no elenco, inclusive porque algumas casas em que atua têm contratos com outros artistas.

“Vou cantar onde me querem ouvir”, prossegue Adriana. Por estes dias, podemos vê-la no restaurante Cais, do Clube Naval de Portimão, onde é fadista residente (às sextas-feiras, de 15 em 15 dias), e no ‘Palmeira’, entre o Calvário e Estômbar, aos sábados.

“Por causa da pandemia, estes tempos têm sido mais calmos. Em fevereiro vou levar o fado algarvio até Lisboa, e, claro, as redes sociais fazem-nos chegar a praticamente todo o lado”.

Mulher dos sete ofícios
Adriana vive em Portimão há muitos anos, mas a sua meninice passou também por Lagos e Monchique. “É um enorme privilégio fazer parte deste triângulo algarvio”, frisa, enfatizando as suas raízes. Estudou em Lisboa, onde tirou o curso de esteticista, a profissão em que ainda hoje trabalha. Aliás, não há mãos a medir no dia a dia da artista, ou não fosse ela uma mulher dos sete ofícios.

“Além do fado e da atividade de esteticista, estou num curso de Ciências Sociais. É muita coisa, é verdade, mas tenho bicho-carpinteiro!”, atira, com uma gargalhada à mistura. “Não consigo estar parada. E o curso está a fascinar-me, porque creio que assim posso chegar a mais pessoas, e, de certa forma, ajudar e tentar mudar as coisas que não estão bem. O meu dia é uma loucura e devia ser alargado para 48 horas. Tenho uma filha, de sete anos, mais o canto, a estética, agora a escola, enfim, não sei viver de outra maneira”, admite, transmitindo energia a rodos.

“Há muito sangue novo a puxar ainda mais pessoas para este meio. Até se pode dizer que é uma forma distinta de cantar, mas com o seu ‘quê’ de interessante”

A curto prazo, no mundo do fado, também há mais planos, mas nada que lhe faça perder a calma. “Tenho objetivos, claro, mas acho que neste momento atingi uma maturidade que me leva a pensar que… o que vier será. Não há pressa em alcançar essas novas metas, tudo acontecerá quando tiver de ser, quando a altura for a mais indicada. Não tenho demasiada sede em relação a isso”, garante Adriana.

Casas de fado em Portimão
Sempre com o fado como ‘pano de fundo’, o futuro continua risonho, logo a começar por aquilo que se vai fazendo na nossa região. “O fado está bem vivo e recomenda-se! Está no coração. Apesar de ter nascido em Lisboa, espalha-se por todo o país, incluindo o Algarve e Portimão em particular. É sempre valorizado e enche-nos de orgulho”, sublinha a artista, destacando que “agora também se canta ‘fora da caixa’, num conceito diferente e talvez mais aberto aos jovens”.

Neste contexto, entende Adriana Marques, a Câmara Municipal de Portimão “tem desenvolvido esforços no sentido de promover o fado e os artistas locais”. Ainda não há o hábito de o ouvir como sucede, por exemplo, em Lisboa, onde as pessoas “vão saborear o que é nosso e genuíno, mas estamos a tentar mudar essa visão”.

Dentro em breve, acredita Adriana, o panorama vai mudar. “Lutamos para isso, com a ideia de que é possível haver casas de fado em Portimão. Por agora, são sobretudo os restaurantes e algumas coletividades a contornarem essa lacuna, arranjando soluções para os clientes ouvirem as nossas interpretações da maneira mais tradicional possível”.

Aos 35 anos, a fadista tem um vasto repertório e canta diversos autores, mas há alguns, naturalmente, que lhe são mais queridos. “Adoro Mário Moniz Pereira. Não o conheci pessoalmente (o ‘senhor atletismo’, como era conhecido, faleceu em 2016), mas tinha uma ligação quase inexplicável, do tipo estar a hesitar numa escolha e ‘bater’ em Moniz Pereira. Gosto igualmente muito da Amália Rodrigues e do Carlos Gonçalves, a dupla maravilha, e também do Jorge Fernando, da Manuela Freitas, enfim, talvez sejam estes os preferidos”.

Há por aí muito “sangue novo”
O mundo fadista, é comum dizer-se, está cheio de novos talentos. João Leote e Edmundo Inácio justificam um lugar à parte nesta reportagem (ver caixa), com o óbvio comentário de Adriana Marques, que, em relação a este tema, considera que os jovens não deixam de surpreender e entusiasmar.

“O facto de o fado ter sido considerado Património Imaterial da Humanidade contribuiu para valorizar ainda mais a canção tipicamente portuguesa”.

Para lá desta distinção, os novos tempos primam por estilos um pouco diferentes, que, todavia, “não desvirtuam o fado tradicional”, opina Adriana. “Há muito sangue novo a puxar ainda mais pessoas para este meio. Até se pode dizer que é uma forma distinta de cantar, mas com o seu ‘quê’ de interessante. Creio que o Jorge Fernando foi o grande responsável por isso, trazendo algo de muito próprio, mas sempre com grande amor”.

O tema ‘Chuva’, interpretado por Marisa e da autoria, precisamente, de Jorge Fernando, “é um bom exemplo”, sustenta a artista. “É uma música que captou a atenção de todos. É puro, é a essência”, exclama Adriana Marques, pronta a destacar, em particular, um dos maiores talentos da apregoada nova geração, no caso, um especialista da guitarra portuguesa.

“Em Portimão? Temos muitos valores! Vi crescer um deles, é quase irmão do coração, é o Rafael Pacheco, uma maravilha! Anda a tocar por Lisboa, nas grandes casas, mas continua muito ligado à cidade. É das pessoas que mais me marcou. O nosso Rafael dá muito que falar”, conclui Adriana, com os olhos a brilhar, ou não estivesse a falar daquilo que tanto adora, na linha perfeita do encanto que coloca nas suas atuações. Ao fim e ao cabo, renasceu para o fado e não mais parou…

“Levar saudade” às comunidades portuguesas

Adriana Marques já cantou por diversas vezes no estrangeiro, em especial junto dos emigrantes portugueses, nomeadamente na Suíça, França e Holanda. “Tenho todas essas atuações no coração. Levar saudade às comunidades portuguesas é qualquer coisa de fantástico, e em França, onde estive por duas vezes, foi mesmo avassalador”, vinca a fadista, revivendo esses momentos. “As pessoas sentem uma saudade tão grande que extravasam uma energia completamente diferente. É inesquecível!”.

Outro espetáculo que não esquece realizou-se na Holanda, nos arredores de Amesterdão, sobretudo por ter sido uma experiência única. “Notei um interesse deveras peculiar, num país culturalmente muito à frente. Cantei fado num auditório, para uma centena de pessoas, e até parecia que ninguém respirava. A maioria não percebia uma palavra de português, mas a atenção e o respeito foram marcantes”.

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