Agostinho Custódio: “Defendo uma gestão rigorosa e transparente nas IPSS”

O Centro de Apoio a Idosos de Ferragudo – Lar, Creche e Centro de Dia – vive momentos de dificuldade financeira. Uma nova Direção está em funções há cerca de cinco meses para inverter a situação e o presidente Agostinho Custódio fala ao Lagoa Informa do trabalho que está a ser feito, da possibilidade de ter existido “gestão danosa” por parte do anterior elenco e revela que está em curso uma auditoria financeira para apurar a real situação da instituição.

O que motivou a sua candidatura à presidência do CAIF?
Eu e alguns elementos que formam a minha equipa fomos contactados por várias pessoas para avançar. Não foi por nossa iniciativa. Fomos alertados para uma situação muito complicada que a instituição estava a viver, com muito ‘fumo’ nos últimos anos.

O que é que quer dizer com ‘fumo’?
Falavam-nos em gestão danosa. Não tínhamos indicadores muito seguros, mas a informação que nos chegava dava conta disso. Uma situação em que o passivo cresceu bastante, atingindo mais de 800 mil euros, fazendo com que hoje o serviço da dívida tenha um impacto de dez mil euros/mês nas contas do Centro. Como sócios, eu e os elementos da minha Direção, fomos incitados por pessoas de dentro da instituição a avançar e a apresentar uma candidatura para inverter esta tendência e ‘arejar’ a instituição.

Como assim?
Sentíamos que as pessoas se estavam a instalar e quando isso acontece é como se a instituição fosse delas. Não é assim que deve ser e não é isso que defendemos. Era preciso alterar hábitos e mudar pessoas. Não é por acaso que em democracia se defende que os mandatos são limitados e que a alternância é importante e benéfica.

Qual é o ponto de situação da instituição do ponto de vista financeiro?
Estamos numa situação económica muito difícil, agravada pela pandemia.

Quais são as dificuldades que encaram no dia a dia?
Por enquanto, temos conseguido gerir e fazer os pagamentos. Estamos numa situação limite, mas temos mais ou menos tudo em dia. Como se sabe, vivemos dos apoios da Segurança Social e da Câmara Municipal. Estamos preocupados com o que se fala da inflação e com o impacto que poderá vir a ter nos nossos custos e até já estamos a sentir já o efeito disso. Por exemplo, no que à eletricidade diz respeito.

A fatura subiu muito?
Bastante. Pagávamos cerca de cinco a seis mil euros por mês de luz e em dezembro a conta subiu para onze mil. Ainda estamos à espera da de janeiro. É que além do consumo de Inverno ser superior, o kilowatt também subiu bastante, provocando um forte impacto.

Como é possível contrariar essa tendência de dificuldades financeiras?
Iremos candidatar-nos ao fundo de reequilíbrio financeiro, é uma das ferramentas que temos para ajudar a ultrapassar esta situação. Não é uma coisa que nos vá dar resposta a curto prazo, mas a médio prazo poderá ser importante. Contamos aumentar o protocolo com a Câmara Municipal de Lagoa. Temos as quotas dos sócios que representam muito pouco e os pagamentos dos utentes, valores onde não podemos mexer. O que temos feito também é renegociar contratos e procurar baixar valores em tudo o que está relacionado com seguros e empresas fornecedoras de serviços. A própria Junta de Freguesia deu-nos, há pouco tempo, um apoio que tínhamos pedido para o tratamento do jardim e pequenas manutenções, o que nos poupou alguns custos. O caminho será este, por um lado o apoio das entidades que nos tutelam e por outro baixar custos com fornecedores através de renegociações.

E tem conseguido?
Ao tentarmos a redução de custos, temos procurado também valorizar um melhor relacionamento com entidades e fornecedores e explicamos a nossa situação. Houve empresas que nos compreenderam e tiveram uma atenção para connosco, o que temos a louvar. E vamos ter uma postura de estar sempre a consultar o mercado e outros fornecedores para tentar os melhores preços.

O que pretende alterar no funcionamento da instituição?
Damos especial atenção às relações humanas e ao bem estar dos utentes, crianças e idosos. E o bem-estar destes, tem muito a ver com o bem-estar dos funcionários. Muitos problemas que os funcionários têm devem-se, em parte, à forma como são geridos e como se relacionam. Verificámos que os problemas que colocam é ter tempo para férias e poderem compatibilizar a vida profissional com a familiar. Isto tem muito a ver com o trabalho de equipa que desenvolvem e com o relacionamento pessoal entre eles. Por isso, esta é uma área muito importante e a que estamos a dar bastante atenção, pois entendemos que só funcionários que se sintam bem, poderão levar esse bem-estar aos idosos.

Estão a tentar apostar nas relações humanas?
Sim, esse tem de ser o caminho. O grande objetivo é que isto seja uma segunda família, que as pessoas se sintam em casa. Podemos ter tudo o que é técnico, mas se não criarmos este ambiente familiar, as pessoas nunca irão sentir-se acarinhadas. Essa vertente é muito importante. Mesmo aos enfermeiros que contratámos, que vêm de fora em regime de ‘part-time’, pretendemos que formem uma verdadeira equipa, que conheçam bem os idosos e passem a informação uns aos outros sobre cada um deles e que desenvolvam uma relação de carinho e confiança com os utentes.

As atuais instalações correspondem às necessidades?
Por enquanto, o que precisam é de manutenção. Temos uma despesa incrível, nomeadamente com ar condicionado que não funciona bem, alguns equipamentos que temos de arranjar e isso tudo somado representa muitos milhares de euros por mês a mais. Os equipamentos de cozinha e de lavandaria representam grandes consumos. Temos cá as condições, agora colocá-las em funcionamento e mantê-las é o problema.

Além do abordado, que outras ideias ou projetos tem para o futuro?
Um deles será candidatar-nos a um apoio para instalar painéis fotovoltaicos. É uma forma de reduzir a nossa dependência energética e o nosso consumo. Com os painéis, podemos reduzir o consumo durante o dia e isso já será uma grande ajuda. Estamos a preparar a candidatura e há a possibilidade de contarmos com um apoio de quase cem por cento.

No final do mandato o que espera ter alcançado?
Uma das coisas que temos em curso é uma auditoria. Estamos virados para o futuro e interessa-nos olhar para a frente, mas para isso também temos de analisar este passado. Queremos pôr isto a tudo a limpo de modo a que quem vier depois tenha a casa arrumada e com as contas certas. É isso que espero conseguir até ao dia em que deixar a instituição.

Vai fazer apenas um mandato?
Não sei, nem estou preocupado com isso. Vim para cá com um objetivo, uma missão e chegando ao fim, vou analisar. Sou da opinião de que as pessoas não devem ficar muito tempo nos cargos. E se aparecer uma equipa que venha para fazer melhor e se veja que tem créditos, porque não?

O que se pretende com a auditoria que está a decorrer?
Será muito importante para esclarecer inúmeras questões. A Segurança Social fez uma auditoria que apurou muitos factos e fez-nos chegar várias multas, a última das quais de cinco mil euros. A anterior direção já tinha sido notificada e nem se deu ao trabalho de responder. A multa teve a ver com formas de funcionamento e a comunicação de certos atos que têm prazos. Há muita documentação dos últimos anos que não existe e estamos a tentar reuni-la. Quanto à auditoria que está a decorrer é de uma entidade externa e irá trazer esclarecimentos na parte que não foi auditada pela Segurança Social.

Com esta curta experiência no CAIF, sente que há falta de apoios às IPSS?
Sinto que estão a viver no limite. Estas instituições não se fizeram para dar lucro, mas também, por vezes, quanto mais dinheiro se tem, mais se gasta em coisas que não são assim tão necessárias. O que defendo é que não haja uma gestão danosa, que seja cuidada e negoceie permanentemente com fornecedores. Defendo que nas IPSS tem de haver uma gestão rigorosa e transparente. São dois valores decisivos para o futuro destas instituições.

A DIREÇÃO

Presidente: Agostinho Custódio | Vice-presidente: Marina Sanches
Secretária: Ana Cortes | Tesoureiro: Sílvia Marques | Vogal: Anastácia Simão


NÚMEROS

Lar
45 Utentes
42 Funcionários

Creche
46 Crianças
10 Funcionários

Centro Dia
14 Utentes
7 Funcionários


PERFIL

Agostinho Custódio é natural de Ferragudo, onde nasceu a 22 de outubro de 1957. Filho da terra é professor e tem fortes ligações ao associativismo. Como estudante em Lisboa, pertenceu à Juventude Escolar Católica. Já em Ferragudo contou com um percurso nos escuteiros, onde foi chefe de agrupamento. Fez parte de direções da ACD Ferragudo e é sócio de diversas coletividades. É associado, desde a sua fundação, do Centro de Apoio a Idosos, que agora lidera.

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