Alvorense de alma e coração prefere o futebol à política

Texto: Hélio Nascimento | Fotos: Kátia Viola


Estudou “o essencial” e começou a trabalhar cedo, no ramo da hotelaria, numa altura em que “não imaginava que ia chegar ao Portimonense”. O seu caminho também já se cruzou com o da política, mas Vera Lúcia Pereira é, acima de tudo, uma cidadã ativa.
Natural de Alvor, onde continua a viver, tem 40 anos e não perde a oportunidade de navegar pela Ria, onde se sente como “peixe na água”. Quem quiser encontrá-la, nos seus dias de folga, o melhor é procurar na zona ribeirinha e de certeza que a vai descobrir à conversa com amigos e pescadores. 

Tempo livre, porém, não há muito. Vera é funcionária da SAD do Portimonense e o mundo do futebol profissional, bem se sabe, é deveras exigente. E preenchido. Quanto à política, bem… pode esperar. Mas já lá vamos.

“Estive sempre ligada à hotelaria, até que, em 2005, fiquei desempregada e comecei a procurar trabalho. No site do Portimonense reparei que havia uma vaga, para o departamento de publicidade, e fui à entrevista. Acabei por ser a escolhida e cá estou”.

Vera nem passou muito tempo a lidar com a publicidade, tendo transitado pouco depois para a secretaria, onde “era preciso alguém para ajudar o Jorge Dias”. Fazia o que era necessário, tipo ir às Finanças, à Segurança Social e tratar de outros assuntos do dia a dia do clube, numa altura em que o presidente dos alvinegros era João Cintra. 

Em 2018, a convite da administração, deixou o clube e passou para os quadros da SAD, que foi então constituída, estreitando ainda mais a sua ligação ao futebol, começando por dar apoio aos jogadores, função agora mais exigente, até porque tem a seu cargo o Gabinete de Apoio às Famílias.

“Acompanho o jogador desde que chega à cidade, cuidando da sua adaptação e de tudo o que é preciso fazer. Depois, quando vêm as famílias, oriento quem as vai buscar e trato da respetiva instalação, até escolherem sítio para viver, bem como da legalização no país. Ajudo também na procura de colégios, para os que têm crianças, embora prefira que sejam os próprios pais a proceder a essa escolha. Mas os jogadores também se ajudam uns aos outros, sobretudo aqueles que já se conhecem e têm laços de amizade”.


Candidata independente no Servir Portimão 
Cidadã ativa e preocupada com as necessidades do concelho, sobretudo da sua vila, Vera Pereira foi candidata nas eleições autárquicas e acabou por ser eleita para a Assembleia da Junta de Freguesia de Alvor em 2013 e 2017.

“A política não era o meu forte, embora cumprisse sempre o dever cívico em tempo eleitoral. Ser de esquerda ou de direita pouco me dizia, desde que houvesse respeito pelos cidadãos e pelos seus direitos e deveres. Fui convidada pelo José Pedro Caçorino, como independente, para integrar a coligação Servir Portimão, e, em meia hora, depois de falar com os meus pais e a minha filha, resolvi aceitar”, conta Vera, explicando a razão da conversa, porque, como diz, “isto da política tem um lado bom e um lado mau e tinha de proteger a minha filha, que na altura tinha dez anos”.

Logo em 2013, os resultados foram animadores e cumpriu o seu mandato na Assembleia da Freguesia. Quatro anos volvidos, em 2017, “as coisas já não correram tão bem, embora o desfecho tivesse sido o mesmo”. A coligação chamou-se então Servir Mais Portimão e Vera voltou a tomar posse, mas, desta feita, suspendeu o mandato. “Porquê? A política é complicada, pelo menos aqui em Portimão, e acredito que também é difícil nos outros lados. A menos que integres uma lista que vai ganhar… se não lá vêm as críticas e há pessoas que se fartam das pressões e argumentam que o cargo lhes prejudica o trabalho, para, depois, abandonarem. No meu caso, tive dificuldades em lidar com pessoas da minha lista que da primeira vez defendiam uma opinião e da outra apresentavam uma opinião diferente. E eu tenho um problema, que é dizer o que sinto, prontamente. Na circunstância, percebi que o melhor era afastar-me”. 

Vera adianta que em plena campanha foi alvo de uma cirurgia, devido a um problema inesperado, mas não foi isso que a impediu de fazer o seu trabalho, que levava a cabo, sobretudo, nos dias de folga. “As pessoas é que me desiludiram”, incluindo as da sua lista, como já referiu.

“Há problemas que me tocam de perto, principalmente os de Alvor. Não percebo como alguém pode ser marginalizado por não pertencer a certo núcleo”, queixa-se, apontando algumas coisas que deviam ser rapidamente feitas na freguesia.

“No primeiro mandato andámos quatro anos ‘a bater’ no parque ilegal de caravanas, na falta de apoio às instituições”, e, para cúmulo, até havia “velórios que chegaram a ser feitos quase no meio de uma esplanada de café, coisas que podem parecer pequenas, mas que não o são para quem lá vive”.  

Cadelas em casa e gatos no quintal
A participação de Vera na sociedade estende-se aos animais, sendo uma acérrima defensora dos direitos dos mesmos. Fá-lo por conta própria, sem qualquer ligação a associações. “Os gatos do bairro são alimentados por mim e pela minha mãe. Trato também da esterilização e pago do meu bolso as despesas com o veterinário. Quantos tenho? Todos os que andam na rua e que vivem no meu quintal”, exclama, com um sorriso, perante a surpresa causada ao jornalista.

Se os gatos andam na rua, as cadelas – e são quatro – passam mais tempo em casa. E todas têm histórias engraçadas e curiosas. A Sandy, por exemplo, estava abandonada em Santarém. “Tive conhecimento através do Facebook e fiquei encantada com a cadela, mas uns dias depois li que ia ser adotada. Afinal não foi, e, quando dei por mim, já tinha enviado a mensagem a dizer que ficava com ela”, recorda a alvorense, dando ainda conta das boleias que a Sandy apanhou até chegar a Alvor, com paragens e ‘mudança de transporte’ em Lisboa e Lagoa. “Depois ofereceram-me a Minnie, ainda bebé, e a seguir nasceu, por ‘acidente’, a filha da Sandy, que se chama Kyara”. A última dá pelo nome de Belinha e foi encontrada nas imediações do estádio do Portimonense.

Delegada aos jogos e pertinho do relvado 
As funções de Vera no futebol estendem-se às quatro linhas, literalmente falando. Já foi delegada aos jogos da equipa de sub-23, o que implica sentar-se no banco, ao lado dos técnicos e dos suplentes. “Fui substituir uma pessoa e não tive quaisquer problemas, até porque já tinha feito o mesmo no Alvorense, nos campeonatos distritais”, acrescentando assim mais um item para juntar ao currículo. É verdade: entre 2008 e 2012 deu uma mãozinha no clube da sua vila, integrando uma direção composta maioritariamente por mulheres, e, como tinha mais conhecimento do mundo do futebol, coube-lhe sentir as emoções do jogo ali bem pertinho do relvado.

O futebol, está visto, é um mundo cada vez menos exclusivo dos homens, concorda Vera, embora, em sua opinião, prefira ver e ouvir os protagonistas masculinos a comentarem os jogos. E haverá algum tipo de discriminação? “No Alvorense, para ser sincera, senti que em certas ocasiões temos de nos ‘aguentar à bronca’, mas aqui, no Portimonense, nada disso, é tudo mais pacífico. Treinadora? Nunca serei”, garante, com total convicção.

No banco, ou na bancada, será que Vera também é sofredora no decorrer dos jogos? “Sofro, mas agora já um bocadinho menos. Fui-me vacinando, mas ainda sofro com as derrotas e fico muito feliz com as vitórias. Acho que já me consigo distrair um pouco”, opina, acrescentando que “sem público a sensação é outra e às vezes até parece que estou num jogo de treino”. Seja como for, reconhece, o futebol “mexe com o sentimento das pessoas”.

De barco, na Ria, ao lingueirão…
Além do apoio aos jogadores e às suas famílias, Vera Pereira dá assistência à administração da SAD “no que for preciso”, fazendo a ponte entre os dirigentes e os funcionários. Ao mesmo tempo, é a responsável pelas compras de quase tudo, desde material de escritório ao que a equipa possa precisar, sem esquecer o supermercado e a lavandaria.

“Creio que vou continuar no futebol enquanto me quiserem. E enquanto, é claro, me sentir bem e com capacidade para desenvolver o meu trabalho e fazer o que me é solicitado. Gosto muito do que faço”, sustenta a mulher que nos tempos livres, quando está de folga, adora passar os dias na Ria de Alvor.

“Gosto de me juntar com os amigos. Quando não estou a trabalhar, em especial ao fim de semana, vou para a zona ribeirinha conversar com os pescadores. Pesca? Não tenho jeito nem paciência, mas vou ao lingueirão, de barco, com os tais amigos. Levamos comida e bebida e se o vento nos deixar passamos lá horas e horas”, confessa, dando mais uma prova genuína de que é uma alvorense de alma e coração.

Três ‘filhos’ no plantel

“Um dia escrevo um livro, embora alguns episódios não sejam para contar”, atira Vera Pereira, quando confrontada com algumas histórias divertidas desta sua vivência no mundo do futebol. A escolha recai na “relação especial” que acaba por ter com os jogadores, “às vezes quase de mãe e filho, em especial para com os que vêm de fora, porque se eu fosse para uma terra estranha também gostava que alguém cuidasse de mim”. E depois, é normal, “ganhas mais carinho com alguns”. No atual plantel do Portimonense “costumo dizer que tenho três filhos”, passa a contar. São eles o Lucas Fernandes, o Aylton e o Beto, este o último a ser adotado. “Todos têm uma humildade que dá gosto, mas o Beto é diferente, todos os dias agradece, está sempre recetivo. Apesar de estar agora a atravessar um momento bom na carreira, não lhe chega à cabeça este relativo sucesso. Espero que assim continue e que tenha muito sucesso!”, sublinha Vera, rendida ao ponta de lança. “Gosto de todos eles, note-se. Uma coisa que a pandemia nos tirou e que sinto muito a falta é agora não poder abraçá-los e beijá-los, como fazia antes”, acrescenta ainda. 

A política pode esperar

“Voltar à política? Acho que não, até porque fiquei dececionada com a última experiência”, sustenta Vera, de pronto, sem precisar de pensar. Há poucos dias, porém, recebeu um convite para integrar nova lista nas próximas autárquicas. “Já recusei, até porque tenho muito trabalho e responsabilidade. Além disso, é disto que gosto”, aludindo ao futebol e ao Portimonense. “Os dias nunca são iguais, dedico-me ao trabalho e tenho prazer no que faço. Depois, estou rodeada de pessoas espetaculares, que me tratam lindamente e não faltam com nada. Só tenho de elogiar o trabalho e o esforço desta administração”, vinca, deixando transparecer a satisfação que lhe vai na alma. Voltando à política, que mudanças preconizaria para a freguesia de Alvor? Desta feita, Vera reflete um bocado, antes da resposta. “Mudava, sobretudo, essa mania de criar grupos ou fações dentro da minha vila. E aproveitava mais as qualidades de cada um, de modo que todos pudéssemos ser mais úteis para o benefício comum”.

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