André Gomes: “Temos condições para recolocar o Portimonense a um alto nível” 

Texto: Hélio Nascimento | Foto: Portimão Jornal


Nomeado diretor-geral do Portimonense Sporting Clube em março de 2025, André Gomes esteve à conversa com o Portimão Jornal, dando conta, de forma objetiva, dos princípios que norteiam o seu trabalho. Entre o orgulho de ‘vestir alvinegro’ e a responsabilidade de ter sob a sua alçada um total de 40 equipas, assegura que todos os passos são dados olhando em frente, “convictos de que estamos a defender o nosso símbolo da maneira correta”.
 
Quem é o André Gomes e como surge no cargo de diretor-geral no Portimonense Sporting Clube?
Sou natural de Arrentela, tenho 36 anos e vim para Portimão aos 11, com a minha família. Já estive fora por questões profissionais, mas sou mais portimonense do que alguma vez poderia pensar. E estou há mais de 20 anos ligado ao clube e às nossas gentes. Comecei logo a jogar futebol, e, desde então, mantive sempre uma íntima ligação, primeiro como atleta da formação e depois como jogador profissional. Quando deixei de jogar segui o caminho do treino e comecei também aqui a dar os primeiros passos, aprendendo a trabalhar com os miúdos, ensinando-lhes o jogo, a parte pedagógica, a paixão e, depois sim, paulatinamente, lançando um olhar sobre a competição. Treinei todos os escalões, dos benjamins aos juniores, como técnico adjunto e principal, e tive ainda uma experiência no Sporting. No ano passado, já como coordenador-geral do futebol de formação, o presidente fez-me o convite para passar a diretor-geral. Tem sido um desafio enorme! É uma posição que não me leva tanto aos campos e aos pavilhões como gostaria, mas tenho uma ligação forte às três modalidades, que sigo com empenho e prazer. Para ajudar a decidir, temos de estar por dentro.
 
Mais concretamente, que tipo de funções exerce?
O diretor-geral é o responsável – não o máximo, que esse é o presidente da direção – por todas as tomadas de posição, todos os dias, da gestão do clube. Também é o que transmite o que o clube tem pela frente, em termos de futuro, para que toda a gente consiga trabalhar no amanhã. E, ao mesmo tempo, acompanha a gestão financeira, acompanhamento esse feito em todas as modalidades para que os orçamentos sejam cumpridos, sem esquecer a comunicação com os patrocinadores e a Câmara Municipal de Portimão, o nosso maior parceiro a todos os níveis. À exceção do futebol, que tem instalações próprias, o Município cede espaços para o futsal e o basquetebol e facilita os transportes. Neste momento temos mais de dez equipas em fases nacionais, o que implica viagens constantes – ainda há pouco tempo fomos jogar a Barcelos – e, com tanta deslocação pela frente, o apoio do município é fundamental.
 
Quantos atletas tem o clube? E equipas?
Temos 40 equipas e cerca de 900 atletas. Entre todos os departamentos contabilizamos mais 130 pessoas, o staff ligado às modalidades, e isso é uma logística grande. Os responsáveis pelas modalidades têm feito um trabalho inexcedível, alguns são voluntários há anos e outros têm-se juntado à causa. São eles que fazem com que o associativismo continue vivo. Por tudo isto, também por esta associação de pessoas e vontades, tenho um orgulho enorme em estar no clube, reconhecendo, porém, que se não houver o apoio necessário as coisas complicam-se no sentido de continuar a apostar nas qualidades dos atletas e dos seus treinadores. Nesta altura, nas três modalidades que praticamos, somos o clube mais representativo do Algarve, o que é um orgulho, mas, igualmente, uma enorme responsabilidade.
 
Falando das modalidades, o futebol sénior está numa posição ingrata…
São realidades e exigências competitivas diferentes. O futsal e o basquetebol têm lutado pela subida ao escalão máximo, enquanto o futebol está num campeonato bastante competitivo, em que quase todas as equipas acabam por ser profissionais e têm departamentos exclusivos a trabalhar nesse sentido, o que não acontece connosco. A equipa foi criada há quatro anos, para dar continuidade à carreira dos nossos jovens, e, desde então, subimos à I Divisão Distrital, subimos ao Campeonato de Portugal. É um projeto bem pensado, com responsabilidade e ambição, mas sem ser desmedida, para que não haja contratempos nem se falhe no essencial. Esta época, três atletas juniores já se estrearam na equipa principal, no campeonato, e na Taça do Algarve têm alinhado mais. São 14 os jogadores oriundos da formação no plantel, ou seja, a equipa foi criada para isso mesmo e a identidade é fundamental. É uma competição difícil, mas faltam algumas jornadas e acreditamos conseguir alcançar o objetivo da manutenção. Mas, repito, sem abandonar a premissa de olhar sempre primeiro para os jovens da cidade, num sentimento de pertença, de ver e até rever caras conhecidas que queiram voltar.
 
Muitos adeptos não perceberam a troca de treinador, com a saída de Nelson Moutinho e a entrada de Lázaro Oliveira. Quer comentar?
Naquele momento decidimos, com a própria equipa técnica, que já não estavam reunidas as condições para continuar. Como em tudo na vida há mudanças, apenas e só isso, mas sem nunca esquecer que foi sob o comando do treinador Nelson Moutinho que o Portimonense SC subiu ao Campeonato de Portugal.
 
O Portimonense SC ‘sofre na pele’ com as sanções da FIFA à SAD?
As sanções da FIFA à Portimonense SAD afetam também o clube, que está impedido de inscrever jogadores desde os 15 anos. É uma situação que nos toca e uma dificuldade acrescida. Não podendo inscrever novos atletas resta-nos revalidar as inscrições, o que, face às nossas exigências competitivas no Campeonato de Portugal, é uma situação complicada. Os jogadores são amadores, trabalham e têm vida profissional, e, havendo castigos e lesões, não temos mais atletas. Mas havemos de dar a volta à situação. As sanções desaparecem à medida que os litígios são resolvidos e estamos a acompanhar de perto o assunto, desejando esclarecimento, visto que somos parte interessada nessa resolução.
 
Como são as relações com a SAD?
Como até aqui, normais e institucionais. Sabendo que a equipa profissional está na II Liga, o importante é que trabalhe, defendendo o símbolo, tal como nós, inclusive para que os acordos da SAD com o clube sejam cumpridos e que se resolvam os problemas que nos têm afetado. De resto, estamos sempre em comunicação.
 
Voltando às modalidades, o futsal e o basquetebol lutam pela subida aos respetivos escalões principais.
Tal como aconteceu o ano passado, este ano não é diferente. Estamos na fase de promoção, de campeão, e, se vencermos muitas vezes e mais do que os adversários, vamos subir de divisão. Quantas mais vitórias, mais hipóteses de subir teremos. Vamos fazer sempre o nosso trabalho, sabedores da capacidade que temos e a pensar que poderemos, dentro em breve, dar os parabéns aos intervenientes. Para já, contudo, está tudo tranquilo, não há passos atrás, só à frente, convictos de que estamos a defender o nosso símbolo da maneira correta. Ficaremos muito felizes se subirmos, senão… continuaremos a trabalhar para lutar sempre pelas subidas de divisão.
 
Os resultados obtidos pelos escalões de formação são deveras agradáveis…
O nosso maior objetivo, sempre, é o de formar homens e mulheres e ser um clube de referência a nível local e nacional. Cada vez é mais difícil que os jovens tenham bons princípios e estamos, também, atentos à saúde mental, apoiando as famílias e passando os corretos valores. A parte competitiva é outro objetivo grande e consiste em estarmos entre os melhores. O nosso desígnio é jogar os Nacionais e neste momento temos equipas de todas as modalidades nessas fases. Vamos continuar a fomentar este espírito de olhar para cima, com exigência e respeito, mas sempre no nível mais alto.
 
Há espaços para tantos treinos e tantas equipas?
Não é fácil, mas já foi mais complicado. São muitos treinos e jogos e muitas equipas, movimentando quatro centenas de atletas nos pavilhões, ou não tivesse o alto rendimento estas dores de crescimento. O município é sensível, como já disse, cedendo espaços, incluindo os das escolas, a quem também agradecemos. Muitos dias começamos os treinos às seis da tarde e acabamos quase à meia-noite.
 
Seja como for, não faz falta o Portimonense disputar uma divisão maior? Há pouquíssimo tempo estavam as três modalidades nesse patamar.
Somos um clube grande, de alto nível a todas as modalidades, e toda a gente trabalha nesta casa para isso, para alcançar o mais alto ponto competitivo. Para nós, claro, é fundamental. Quanto melhor for o nível, mais a cidade se aproxima do clube. Jogar numa I Divisão é muito mais aliciante, são os melhores que cá vêm e aos recintos dos quais nos deslocamos. Implica grande responsabilidade e enorme gestão financeira e logística, mas hoje acreditamos que temos condições para conseguir recolocar o Portimonense ao mais alto nível em Portugal, sem colocar em causa a estrutura e o trabalho do dia a dia. Temos as pessoas certas para fazer isso.
 
Gostava de prometer alguma coisa?
O objetivo é que o clube estabilize a todos os níveis. Assumimos os nossos compromissos desde a formação aos seniores, sendo fundamental que toda a gente tenha direito a um espaço para treinar, com as devidas condições. Depois disto, se pudermos chegar mais acima será o ideal, mas sempre de modo estruturado. O orgulho maior é que defendam da melhor forma o Portimonense, porque o ganhar e o perder dependem de muitas variáveis, mas temos tido excelentes resultados e acredito que venha aí muito trabalho nos próximos meses.

Quando os jogadores ‘trocam’ de modalidade

No sentido de estreitar relações e aproximar os jogadores das diferentes modalidades, André Gomes falou ao Portimão Jornal sobre os animados jogos entre as equipas, por exemplo, de basquetebol sénior e futsal. “Já aconteceu de forma informal, numa interação em que se privilegia o ambiente familiar e se criam novos relacionamentos, o que é fundamental. É, também, o tal sentimento de pertença, em que, crescendo num clube, constatamos que toda a gente fomenta a mesma maneira de estar”. Para o diretor-geral dos alvinegros, torna-se essencial que esta “plasticidade motora” cative, sobretudo, os miúdos, que “cada vez brincam menos nas ruas e já não podem levar bolas para a escola”. E se essa plasticidade é fácil de verificar, por exemplo, entre os jogadores de futsal e futebol, o que dizer quando surge um ‘gigante’ do basquetebol? A mobilidade é a mesma? André Gomes sorri e diz que para “o nosso Bamba, que tem 2.16 metros, não deve ser fácil jogar futsal”. Foram então os futsalistas que jogaram basquetebol, mas as ‘trocas’ têm sido comuns a todas as modalidades do clube. “Ano após ano o ambiente é fantástico, o que nos motiva mais. Queremos garantir aos miúdos que têm corredores abertos e que as equipas seniores estão à espera deles. Se não forem para a alta competição, outros rumos os esperam, de responsabilidade, em todas as esferas da sociedade. O Portimonense não acaba numa baliza de futebol ou numa tabela de basquetebol”.

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