Centro Sénior de Lagoa e Carvoeiro é um refúgio para ‘bem envelhecer’ 

Já dizia o antigo dito popular que ‘velhos são os trapos’ e, apesar de uma grande parte da sociedade avançar sem olhar para as dificuldades dos mais idosos, relegando-os, na maioria das vezes, para muito mais do que um segundo plano, há quem ainda resista, faça valer a sua presença e mostre que é útil.

É isso que fazem, todos os dias, os utentes que frequentam o Centro Sénior de Lagoa e Carvoeiro, da responsabilidade da União das Freguesias local, em ambas as localidades. Os grupos são animados, participam em diversas atividades e conversam, muito e sobre tudo.

O Lagoa Informa encontrou-os empenhados em duas iniciativas que serviam para celebrar o São Martinho junto da comunidade escolar. Em Lagoa, recortavam castanhas e faziam cartuchos, enquanto em Carvoeiro ultimavam os acessórios que iam usar numa peça de teatro que criaram para os mais novos. E é assim que passam os dias, entre passeios, lanches, convívios e as diversas atividades alusivas aos dias festivos.

No total, no Centro Sénior de Lagoa estão inscritos 257 idosos, mas só pouco mais de uma dezena se dirige ao local com assiduidade, contabiliza Sara Jacinto, animadora do espaço. Por sua vez, em Carvoeiro, estão inscritas 91 pessoas, com cerca de 20 a frequentarem com regularidade o local, refere Zaida Clemente, coordenadora do equipamento naquela localidade. Quando entrou, em maio, eram apenas “três ou quatro”, mas aos poucos, foi conseguindo atrair mais idosos. Alice Mandara, natural do Brasil, é um dos exemplos.

“Vim para a casa do meu filho, que mora aqui em Carvoeiro, e ele trouxe-me para frequentar este Centro. Por um lado, é muito saudável e, por outro, não conhecia ninguém e já fiz amigos”. A par de Gisela Coelho que afirma, sem rodeios, que adora frequentar o Centro de Carvoeiro. “Conversamos, contamos anedotas engraçadas, trabalhamos, fazemos trabalhos lindos, lanchamos, cantamos. Agora estamos a preparar um teatro para as crianças”, mostra com entusiasmo.

No Centro de Lagoa, Adelaide Portela partilha que também chegou àquele equipamento pelas ‘mãos da filha’, há pouco mais de seis meses. “Não conhecia isto e é, de facto, um escape. Estava em casa sozinha, porque a minha filha trabalha e os meus netos vão para a escola. Jogamos, fazemos desenhos, conversamos. Neste momento, estamos a recortar castanhas para dar aos meninos”, avança, com um sotaque que soa mais lá para um pouco mais a norte do país. Recorda que na sua área, o São Martinho, era festejado com fogueiras, castanhas e água pé.

Na mesma mesa, Dilar Nunes, natural de Portimão, mas a viver em Lagoa há uma vida, aponta que o espaço é positivo porque “se torna uma distração e criam-se amizades”, numa opinião partilhada por Maria Luísa Mimoso. “Chateia estar sozinha em casa e aqui somos todas amigas. Só tenho pena que a pandemia tivesse acabado com os bailinhos”, lamenta.

Obras artísticas com papel
“Vamos muitos pelas datas e pelas épocas do ano. Antes do São Martinho, festejamos o ‘Halloween’ e, portanto, foi tudo relacionado com as bruxas”, mostra Zaida Clemente, que coordena as atividades no espaço de Carvoeiro.

Até à chegada da animadora, em Carvoeiro, as ações eram muito centradas no crochê, no tricô, na costura, mas com uma cara nova a questionar o que as idosas queriam fazer, houve um pedido especial.

“Disseram logo, muito prontamente, qualquer coisa diferente. Trouxe a técnica do papel de revista enrolado. Elas estranharam, ao início, mas o engraçado é que aderiram. Pensaram que eram palhinhas, lápis… Mostrei-lhes que só usávamos papel de revista e cola branca de madeira”, explica. Com estes pequenos rolos, aprenderam a fazer molduras, casas, cadeiras, porta-lápis, e até já se ‘entretinham’ no fim de semana a arranjar ‘stock de rolos para trabalhar durante a semana.

Esta técnica também foi passada às utentes de Lagoa, que se empenharam a criar estes novos objetos. “Aqui faz-se de tudo um pouco e uns colaboram mais que outros. Este ano, tivemos aqui uma nova colaboradora que nos ensinou a fazer estes rolos de papel. Já fiz muitas molduras, aquelas duas cadeirinhas pequenas”, mostra Luiza Santos, orgulhosa, ao Lagoa Informa, no espaço situado na cidade. Há pelo menos cinco anos que frequenta o Centro Sénior e acha “muito bem que exista, para conviver uns com os outros”, pois para estar “isolada mais vale ficar em casa”, argumenta.

‘Dia do Meio’ e conversas sobre tudo
Em Carvoeiro, os temas à mesa passam por tudo o que se passa no mundo ou no ‘mundo’ das utentes. Da religião, à política, não faltando as conversas sobre sexo, com mais ou menos ‘malandrice’. É por isso que nas sextas-feiras, trinta minutos são dedicados a falar sobre sexualidade e alguns problemas mais pessoais.

“Não sou uma perita, mas há sempre uma dúvida, uma pergunta, que elas têm e que podem colocar aqui. Às vezes podem não se sentir confortáveis por falar com outros familiares, mas acredito que se sentem à vontade comigo aqui, neste ambiente. Também é importante que, na idade delas, entre os 65 e os 90, possam abrir horizontes e partilhar algumas coisas com naturalidade”, diz.

O ‘Dia do Meio’, por sua vez, é aquele dia que ‘não é carne, nem peixe’, no que toca a uma dieta mais restrita a nível de açúcar e sal. “É salgado e doce”, começa por explicar Zaida Clemente. Ou seja, à quarta-feira, os idosos podem cometer uma ‘pequenina’ extravagância e comer algo ao lanche que seja doce ou salgado. O lanche é feito por todas no espaço e pode ser uma quiche, ‘panadinhos’ no forno, ‘bolinhos’.

“Não é nada de compra. É também o nosso dia da culinária. Uma traz a farinha, outra o açúcar, enquanto outra traz ovos e confecionamos o lanche em conjunto. Na sexta-feira anterior discutimos o que vamos fazer na semana seguinte”, afirma a coordenadora do Centro Sénior em Carvoeiro.

Mais do que uma família no combate à solidão
“Às vezes, vem uma ou outra idosa diferente, mas um pequeno grupo, que vem sempre para cá. E quando uma delas não vem, fico logo preocupada”, confidencia Sara Jacinto ao Lagoa Informa. Isto é porque, ao fim ao cabo, o convívio diário já extrapola para a esfera da amizade. Sara é funcionária no Centro Sénior desde 2017, e é vista como a ‘amiga’, ou, na verdade, o porto seguro de quem precisa de ser ouvido. “Na altura da pandemia fiz apoio à solidão. Levava o dia todo ao telefone com eles!”, recorda.

“A maior parte está sozinho, já nem tem marido ou esposa e, como os filhos têm a sua vida, vêm para aqui, e, estando fechado, ficam tristes”, conta. Para frequentar o Centro têm de ser autónomos, mas há alguns a quem a memória já vai falhando ou as mãos tremem. Isso não impede que participem nas atividades, pois, Sara Jacinto tenta adaptar ao que cada um sabe e pode fazer. Também nem sempre há utentes suficientes para determinadas atividades, mesmo que haja vontade.

No entanto, fazem de tudo um pouco. “Elas fazem doces comigo, cortam, pintam e, ao mesmo tempo, estimulamos a motricidade, a memória, a concentração, e nem se apercebem”, assegura Sara, enquanto acrescenta “é um trabalho muito giro e adoro o que faço”.

Zaida Clemente concorda que o Centro Sénior é bom para o combate à solidão, mas também porque se sentem úteis. “Elas fazem coisas lindíssimas e, depois, ficam pasmadas, porque nunca pensaram que conseguiam fazer algo tão bonito”, elogia.

A verdade é que a maioria dos utentes que se desloca com frequência aos dois espaços são mulheres, sendo muitas delas já viúvas. Tiveram uma vida difícil, mas preenchida.

Muitas trabalharam no campo e na indústria conserveira, quando eram mais jovens, outras na costura, nas limpezas, quer na hotelaria, quer em casas particulares de estrangeiros, entre outras áreas. Hoje, têm algo que passa despercebido, mas que é importante. “Temos alguma sabedoria”, que foi adquirida pela “experiência de vida”, conclui Gisela Coelho.

BREVES

A que é o Centro Sénior?
É um projeto dinamizado pela União das Freguesias de Lagoa e Carvoeiro, com dois polos em cada uma das localidades, que permite uma aprendizagem dinâmica e não formal. Nestes espaços, os utentes partilham vivências e adquirem novas habilidades em ambiente convívio. O objetivo é promover o envelhecimento ativo e com qualidade, a autonomia e independência, a valorização pessoal e social, a cidadania ativa.

A quem se destina?
Destina-se a todos os recenseados na freguesia a partir dos 65 anos, ou com idade inferior, desde que comprove a situação de isolamento social, carências pessoais e sociais, referenciados pelos serviços competentes, sendo que cada participante pode ser acompanhado por um familiar. A frequência do espaço é gratuita, sendo os custos suportados pela União das Freguesias.

Quais os Serviços Sociais assegurados?
São organizadas atividades de animação sociocultural, ocupacionais e lúdico-recreativas, de motricidade e estimulação cognitiva, disponibilizados lanches nutritivos, higiene e conforto, e prestado acompanhamento para várias respostas sociais.

TESTEMUNHOS

“Preparamos o Carnaval, os Banhos de São Miguel… Temos feito muitas coisas, como passeios. Já houve bailes, mas com a pandemia acabaram e, depois, umas gostam de dançar e outras não. Já está tudo ‘mal da perna’”
Lurdes Bentes, utente do Centro Sénior em Carvoeiro


“Já vinha para cá antes da pandemia, mas depois fechou e deixei de vir. Precisava de não estar fechada em casa, por isso, quando abriu, voltei. Tenho dores de morrer e umas vezes estou bem, outras não. Tive de deixar a minha casa e ir para a da minha filha. Estou contente por vir para aqui. A Sara é boa para mim e, julgo, que sou boa para elas. Venho pelo convívio”.
Altina Henrique, utente do Centro Sénior em Lagoa

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