Clube Desportivo Areias São João: Uma equipa que corre atrás dos sonhos

Texto: Rafael Duarte


Esta é uma família que não tem o mesmo sangue, mas partilha a paixão pelo desporto. O Clube Desportivo Areias São João nasceu em 1987 e hoje é já uma referência no Algarve. Há 11 anos consecutivos que são campeões regionais de estrada e corta-mato tanto masculino como feminino.

Apesar dos resultados, querem mais e, por isso, apontam para grandes marcas nos campeonatos nacionais, onde o clube tem ficado sempre entre os dez melhores. Atualmente, a secção de atletismo tem os vários escalões: iniciação, infantis, iniciados, juvenis, juniores, seniores e veteranos, com homens e mulheres a partir dos 35 anos.

Em simultâneo, recuperaram o ciclismo e apostaram na criação de outras modalidades como judo, karaté e andebol. Dizem que o segredo para este sucesso é o espírito de família que reina no grupo e que ajuda cada um a alcançar os seus objetivos.

O início
Tudo começou no dia 27 de maio de 1987. Um grupo de amigos juntou-se e formou os Amigos das Areias. Criaram os estatutos, mas depois mudaram o nome para o que se mantém até aos dias de hoje: Clube Desportivo Areias São João.

“Muita coisa mudou entretanto. Antigamente não tínhamos pistas de tartan e o enquadramento técnico também era outro. Hoje todos os treinadores têm grandes valências porque o atletismo é muito diversificado e vai das barreiras, ao salto em comprimento, meio-fundo e fundo. Um treinador sozinho não consegue dar resposta e só com uma equipa técnica e apoios como fisioterapeutas e psicólogos é que se consegue chegar longe”, explica Felisberto Reigado, presidente do clube.

Chegou ao CD Areias São João em 1988 como atleta e sete anos depois passou a treinador. “Desde aí começámos uma dinâmica de formação e a aproveitar os jovens atletas para os escalões seniores e veteranos. Aproveitar essa juventude para não irem para outros clubes”, recorda.

Em 2010, surgiu a equipa semiprofissional para também servir como uma referência para os mais novos. “O dinheiro para a formação é usado exclusivamente para tal e numa equipa semiprofissional precisamos de outro investimento. Conseguimos junto do município e dos patrocinadores esse apoio financeiro”, explica o dirigente, que agora colhe os frutos desse trabalho, isto porque o CD Areias São João é campeão regional de estrada e corta-mato tanto masculino como feminino há 11 anos consecutivos.

A formação e a família
Um dos grandes talentos de Portugal no atletismo é Isaac Nader, atleta do Benfica que a 20 de março ficou em 10º lugar na final dos 1500 metros do Campeonato do Mundo em Pista Coberta. Um jovem reconhecido pelos amantes da modalidade e que fez parte da formação no CD Areias São João.

“É uma alegria enorme. Cada vez que ele vai competir, o clube une-se e ficamos cheios de nervos a torcer por ele”, relata Felisberto Reigado. O atleta algarvio torna-se por isso num grande exemplo para os que começam agora a carreira no clube albufeirense.

O responsável por guiar os mais novos a seguir os mesmos passos que Isaac Nader é o treinador Nuno Amaral. Cumpre o segundo ano no CD Areias São João e tem a seu cargo a formação do atletismo do clube. “É um novo desafio para mim, porque estou a apanhar muitos escalões que têm preparações e objetivos diferentes, mas tenho feito de tudo para que tenham bons treinos”, assume.

Dos mais novos aos mais velhos, garante, todos têm o mesmo compromisso. No meio dessa juventude estão os irmãos gémeos António e José Silva, que somam vários títulos regionais enquanto velocistas. Foi António que fez os dois não quererem sair das pistas de tartan e recorda como. “Estava em casa e sempre tive aquele bichinho porque corria sozinho. Um dia pedi ao meu pai para me levar à pista em Lagoa para experimentar. O meu irmão veio comigo porque não queria que fosse sozinho, mas a verdade é que também lhe despertou este desejo”.

Começaram a treinar em 2016 na Associação Académica da Bela Vista, em Lagoa, e em março de 2020 decidiram mudar de ares. Fazem um balanço muito positivo da experiência em Albufeira e não escondem a ambição de querer sempre mais. “Já participei em todas as competições nacionais, desde os de escalões mais novos até agora. Conto com alguns títulos regionais, mas quem sabe chegar um dia aos nacionais ou até representar Portugal”, deseja António.

Têm 21 anos e admitem que o atletismo faz parte dos planos de ambos para o futuro, até porque querem seguir este caminho juntos, sem rivalidades à mistura: “Há sempre aquela picardia, mas é sempre muito saudável. Vemos mais como uma entreajuda. Estando os dois aqui, podemo-nos ajudar a evoluir e quando um de nós ganha é sempre uma festa”, garante António e o irmão José concorda. “Acaba até por ser um privilégio porque estamos ao mesmo nível e assim é mais fácil para treinar e competir. Os objetivos são parecidos e é proveitoso estarmos no mesmo patamar”, afirma.

E já que falamos em família também o filho de Felisberto Reigado acabou por seguir as pisadas do pai e hoje está na equipa há 21 anos. Roberto Reigado entrou no clube aos seis anos e admite que o pai teve influência nesta carreira.

“Cresci a ir às provas do meu pai quando ainda competia. Comecei a ganhar essa vontade de participar nas provas para crianças. Experimentei e vi que tinha jeito”, diz. Tem um pai exigente, mas considera que isso é uma mais-valia. “É a pessoa mais crítica, mas ao fim do dia é o que dá mais suporte a toda a gente. Tem muitos anos de experiência e o que tiramos são lições”, diz.

O próximo passo
O segredo para o sucesso é o espírito de união. “Cultivar a cultura do clube e do companheirismo. Foi esse lado mais associativo do que competitivo que permitiu criar amizades e fazer com que quem experimente treinar connosco queira ficar”, explica Roberto Reigado.

O CD Areias São João está no topo do atletismo no Algarve, mas quer mais. “O sonho é um dia ficarmos entre as três primeiras equipas a nível nacional. Temos equipas muito fortes no atletismo como o Benfica, Sporting e Sp. Braga. Mas trabalhamos todos os dias para tentar chegar lá perto um dia”, acredita Felisberto Reigado, que apesar de reconhecer as dificuldades em alcançar esse sonho, traça o que tem que ser feito. “É difícil porque a maior parte dos jovens quando saem da universidade vão trabalhar e não são profissionais a 100%. Mas com força de vontade tudo se consegue”, destaca.

Uma nova escola sobre rodas
O ciclismo foi reerguido no Clube Desportivo Areias São João há três anos “pelo amor por estas crianças e pela modalidade”, explica Fernando Gonçalves, o responsável pela escola de ciclismo. Foi ex-atleta do clube, mas continua a fazer quilómetros sobre rodas. Viu uma modalidade que faz parte da história do CD Areias São João parada e quis reativá-la de uma forma estruturada.

“A modalidade extinguiu-se por falta de praticantes, pois só tínhamos a classe dos cicloturistas. Quis voltar a ver ciclistas com as cores deste clube, mas percebi que tínhamos que fazer as coisas de uma forma diferente”. E assim surgiu a aposta na formação, com o objetivo de “alimentar sempre as futuras equipas”, refere.

“As classes de formação no ciclismo vão dos 5 aos 14 anos. No primeiro ano tivemos 16 miúdos federados. No ano seguinte já tínhamos cadetes e juniores nas classes competitivas”. Três anos depois da criação do projeto, a equipa tem 54 atletas inscritos. Dentro do ciclismo, o clube orienta os jovens nas suas diversas variantes, desde BTT, duatlo e mais recentemente estrada. Essa foi mesmo a grande novidade e surgiu na preocupação de não perderem grandes promessas para outros clubes.

“A partir dos 14 anos querem seguir ciclismo de estrada e temos que criar as condições necessárias para o fazerem, que consigam experimentar tudo sem precisar de mudar para outros clubes”, até porque foi essa falta de resposta que fez alguns jovens saírem no passado.

“Foi isso que perdemos ao longo destes três anos. Criámos alguns campeões que são muito bons, mas quando quiseram seguir essa vertente tivemos que os deixar seguir e partiram para clubes que fazem exclusivamente estrada”, revela.

Assim, foi criada a equipa de estrada e o compromisso de integrar os mais novos nesta variante. Fernando Gonçalves admite que é um desporto caro e tem a sua exigência, mas congratula-se ao ver grandes evoluções no CD Areias São João.

“Um dos meninos que entrou no clube não tinha técnica nenhuma e mal se equilibrava. Pensei que ia desistir ao fim de uns dias, mas hoje está quase a fazer 16 anos e fez o terceiro lugar numa prova nacional na Taça de Cadetes. Vai ser um caso sério”.

Para guiar esta juventude a seguir o caminho certo, a equipa conta com cinco técnicos de ciclismo e todos movidos pelo mesmo. “Estamos em regime voluntário e fazemos isto por estas crianças e pela modalidade”.

Ana Dias e Jorge Varela: capitães são referência

Ana Dias e Jorge Varela são os capitães do atletismo do Clube Desportivo Areias São João. A atleta é a portuguesa com mais internacionalizações de provas de corta-mato, tendo participado 21 vezes em Campeonatos do Mundo e da Europa.

Considera que um dos momentos altos da carreira, para além das participações nos Jogos Olímpicos, foi o Campeonato da Europa de 2010 na pista das Açoteias, em Albufeira. Ficou nas dez primeiras e fez parte da equipa portuguesa que foi campeã da Europa pela terceira vez consecutiva.

Atualmente corre por lazer e tem uma loja de corrida. Terminou a carreira em 2012, mas em 2015 juntou-se ao CD Areias São João pela amizade com o presidente Felisberto Reigado.

“Quando terminei a carreira levei o atletismo de uma forma menos profissional, mas ao mesmo tempo queria estar num clube onde me sentisse bem. Como já conhecia o CD Areias São João há muitos anos e o seu presidente decidi juntar-me ao grupo mais numa de amizade do que pela parte competitiva”, conta-nos Ana Dias.

É uma referência para os mais novos e Felisberto Reigado defende que é uma bandeira do clube. A atleta procura corresponder com as dicas que dá às próximas gerações: “Tento sempre tanto no clube como no Algarve passar essa mensagem que todos os sonhos são possíveis. Ainda bem que o clube sente isso por mim porque também tento retribuir da mesma forma ao passar a mensagem aos futuros campeões. Gosto de ajudar estes atletas a seguirem o melhor caminho para chegarem às vitórias”.

Quem também percorreu essa longa jornada e hoje é capitão do CD Areias São João é Jorge Varela. O atleta conheceu o clube através do presidente, com quem mantém uma longa amizade, e faz parte da equipa há cerca de dez anos.

“O crescimento do clube tem sido enorme. Na altura que entrei só tinha quatro ou cinco modalidades e, neste momento, tem imensas. Depois tem a parte da formação que acho muito importante”, salienta.

Conseguiu recentemente uma das melhores marcas na maratona e soma várias conquistas individuais. Nos cerca de 20 anos de carreira esteve perto de ser campeão nacional de corta-mato em sub-23, mas lamenta não ter chegado aos Jogos Olímpicos. Atualmente treina com os veteranos, mas ainda entra nas contas dos seniores.

Ana Dias e Jorge Varela sabem o que é correr atrás dos próprios sonhos e dizem aos mais novos o que fazer. “É preciso ter uma capacidade enorme de trabalho. Eu acho que tinha talento para a corrida, mas o meu principal trunfo foi sempre o trabalho, foco e humildade. Se tiverem essas três coisas os resultados vão surgindo”, explica Ana Dias, e que segue a linha de raciocínio de Jorge Varela. “Acima de tudo ter a humildade de quando chegar ao topo reconhecer a importância do clube de formação. É preciso ter gosto pela modalidade e ter capacidade de ouvir aqueles que estão acima de nós”.

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