Fernando Rocha: “Quero fazer no Campo David Neto o centro de todo o Portimonense” 

Texto: Hélio Nascimento | Foto: Eduardo Jacinto


Fernando Rocha vai no sexto mandato (termina em 2024) a liderar o Portimonense e em entrevista ao Portimão Jornal passa em revista um período de muito trabalho e rigor, repleto, todavia, de sucessos no futebol, futsal, basquetebol e com o andebol na mesma rota. Entre a responsabilidade de cidadania e a ‘cidade desportiva’ que quer edificar no palco de excelência da formação, deixa alertas e faz elogios. 

Desde 2006 que está na presidência do Portimonense. Consegue escolher o melhor momento destes 16 anos? 
O melhor momento foi a primeira subida de divisão, em Oliveira de Azeméis, em 2010/11. Tratou-se de um momento histórico…e porque há coisas incríveis! A equipa foi feita para não descer, porque, é bom não esquecer, quando tomei posse o clube estava desfeito. Vim para resolver problemas, é verdade, mas um passivo de 2,5 milhões de euros, mais os juros, enfim, o clube atravessava enormes dificuldades e a equipa foi feita para se manter no escalão secundário, mas, fruto do trabalho e da união, acabámos por subir à I Divisão. Não o posso esquecer. 

Mudou, entretanto, muita coisa. O que mais destaca? 
O mundo do futebol também mudou, os clubes tinham de criar SAD’s e eu consegui convencer um investidor para acreditar no Portimonense. Na altura ninguém queria SAD’s, hoje é fácil, mas na altura não era assim. Foi um tremendo desafio, mas o senhor Theodoro Fonseca acreditou e também arriscou. E em bom tempo o fez, porque o futebol é hoje um exemplo, está profissionalizado ao máximo e os bons resultados estão à vista de todos. Está fora de hipótese gerir um clube como antigamente. 

Como conseguiu conciliar a gestão financeira e a componente desportiva nesses tempos mais complicados? 
Foi dificílimo porque o clube não tem receitas. As quotas dos sócios não dão para o dia a dia, e, mais grave, tínhamos de pagar o atrasado. Poucos meses após tomar posse fui logo confrontado com o pagamento de dívidas, à Segurança Social, ao Fisco, principalmente estas. Se não o fizesse, não podia inscrever a equipa. Assumi, com a minha direção, mas o responsável pelo pagamento de alguns milhares de euros era eu. A subida de divisão, felizmente, ajudou a equilibrar, mas a partir daí foi sempre a correr atrás do prejuízo, com dívidas, e as pessoas que deixaram essas dívidas ainda hoje criam problemas. Fiz um PER, que proporcionou um maior equilíbrio e nos deixou mais tranquilos. 

Fruto, quiçá, desses melhores tempos, o futsal vai na terceira época entre a elite… 
Foi uma enorme aposta do Pedro Moreira, o grande responsável. Na altura disse-lhe que não tínhamos condições e só podíamos ajudar com as camisolas, mas a carolice dele era forte, arriscou e conseguiu. O clube, depois, também ajudou. Hoje, o futsal está super profissionalizado, é uma loucura, envolve muitas despesas e os valores que os jogadores querem receber são altíssimos. Ao mesmo tempo, a Federação Portuguesa de Futebol exige o mesmo – em termos de pagamentos – que no futebol profissional, e o Portimonense, sinceramente, não sei, mesmo com a ajuda da Câmara, não sei, teremos de repensar o futuro, pois não podemos cometer loucuras. 

Quando diz “teremos de repensar”, onde quer chegar? 
Como responsável, tenho de pensar sempre com a cabeça e menos com o coração. Sinto que hoje o futsal tem custos enormes e já nem falo na estadia dos jogadores em Portimão, sou eu que as assumo e nunca debitei as dormidas dos jogadores, que ficam nos meus hotéis. Mas é uma loucura o que se gasta e as receitas são pouquíssimas. Daí que seja obrigatório repensar e apostar fortemente na formação. O futuro é esse, investindo em bons técnicos, como funciona a nossa formação do futebol. O responsável máximo, o professor José Augusto, que todos conhecem, e o professor Arroja, que o acompanha, têm uma série de técnicos a trabalhar com eles e a nossa formação é já uma referência internacional, com muitos emblemas estrangeiros a quererem visitar-nos e estagiar por cá. O torneio internacional de sub-14, recentemente levado a cabo, é dos melhores da Europa e para o ano terá ainda mais equipas e será certamente melhor. É este exemplo que quero transportar para as outras modalidades. 

O basquetebol, por sua vez, subiu à Proliga e continua a entusiasmar… 
É outro bom exemplo da formação de miúdos. Há dois anos apostámos mais, também com uma equipa para não descer, mas depois, com mais um ou dois reforços, subimos à Proliga. Excelente trabalho do departamento e do professor Carlos Almeida, a quem se deve este sucesso, sem esquecer, claro, os que em tempos anteriores criaram a secção de basquetebol e de outras modalidades. 

E o andebol? Está na mesma rota? 
Está a dar os primeiros passos. Mas o Portimonense tem um problema de crescimento e o maior é a falta de instalações. As nossas modalidades evoluem nas instalações camarárias, não há mais espaço, não há pavilhões suficientes. O andebol acabou por tirar tempo de treino ao futsal e ao basquetebol, mas, dentro de um ou dois anos, vai estabilizar e dar mais passos na formação. Será, com certeza, outra modalidade a crescer. 

Voltando ao futebol: convidar Theodoro Fonseca para ficar com a SAD foi a opção certa? 
Para se competir nas ligas profissionais tinha de ser assim, ou se criava uma SAD ou uma SDUQ. Convenci Theodoro Fonseca, mostrei-lhe o projeto, onde podia chegar o Portimonense, ele acreditou e a prova está à vista de todos. Foi a escolha certa, nossa e dele, porque tem um bom clube de futebol profissional.
 
O futebol do clube, mesmo sendo amador, também o entusiasma?  
O futebol da formação entusiasma, claro, até porque temos perto de 600 atletas a praticar e é incrível ver os miúdos e os seus pais, todos os fins de tarde, no David Neto. Houve a necessidade de criar uma equipa sénior, para dar continuidade à formação. Jogam os miúdos que vêm dos juniores e ainda há poucos dias ganhámos 6-0. Nem todos vão ser profissionais, mas pelo menos têm oportunidade. E agora criámos uma equipa feminina, porque temos melhores condições e mais relvados. 

Os novos relvados do Campo Major David Neto são fundamentais para ter mais e melhor formação? 
O novo relvado era um sonho. Este está pronto e para o ano teremos o outro, fruto do acordo com a SAD: nós cedemos o Campo Dois Irmãos para os sub-23 e equipa principal e em contrapartida o David Neto ficou como zona da formação, num acordo que obrigava a SAD a fazer dois campos, um de 11 e outro de 7. No fundo, é assim, salvaguardámos os interesses do clube e acho que é bom para todos. Aliás, a SAD também é do clube, no sentido de que não é um corpo estranho, e todos os sócios e adeptos do Portimonense têm de ficar contentes com os resultados do futebol profissional da SAD. Todos somos portimonenses. 

O protocolo com a SAD pode levar a mais obras? 
O protocolo era este, mas na vida, quando há boas intenções, quando é para fortalecer, pode ser que no futuro venha outro acordo. O meu sonho e de quem vier a ser presidente é ter um pavilhão. 

Em termos de estruturas, é isso que gostaria mais de fazer? 
Ainda agora, quando se procedeu à colocação dos relvados novos, mantive a mesma opinião: temos espaço para fazer um pavilhão. Temos condições para isso, para edificar ali uma obra que junte futebol e demais modalidades, é um sonho para levar a cabo. Quero fazer do Campo David Neto o centro de todo o Portimonense. Não serei eu a acabar a obra, estou há tempo de mais na presidência, embora também creia que é o tempo necessário para deixar o clube livre de problemas e com condições para andar para a frente. Agora é olhar para o futuro. É o desafio que vou deixar. 

Este será o seu último mandato? Porquê? 
Na vida é preciso ter noção das coisas, do tempo, e, como tal, têm de vir novas pessoas. Continuarei a ajudar e há uma coisa à qual vou estar sempre atento: não venha mais alguém para deixar o clube endividado! O engenheiro Alberto Estevão deixou o clube limpo – falo dele porque foi o último presidente a fazê-lo, mas muitos outros deram igualmente a vida por este emblema – e depois, de um momento para o outro, aparecem dois milhões e meio de dívidas! É preciso gente com bom senso e experiência, também de gestão, porque é inadmissível estar estes anos todos a trabalhar e depois surgir alguém para estragar o que tanto custou a consolidar. 

Os portimonenses gostam do Portimonense Sporting Clube? 
Sabe, os portimonenses gostam, mas temos de ver várias coisas. E eu tenho a vantagem de conhecer o país inteiro, o norte, o centro e o sul. Não sou de cá – estou há 33 anos –, mas os meus filhos e netas nasceram cá. Das 50 e tal mil pessoas de Portimão, as naturais do concelho já não são assim tantas. Há muita gente de fora. A região norte é mais bairrista, dizem e é verdade, porque as pessoas são mesmo de lá. Aqui é diferente. Quando andava com o futebol profissional, de região em região, constatei que as pessoas eram do clube da terra, do Benfica, Sporting ou Porto, e, depois, gostavam do Belenenses, da Académica e do Portimonense. Ou seja, todos gostam de nós. E acredito, plenamente, que os nossos sócios vão gostar cada vez mais. 

A Câmara devia apoiar mais?    
Tenho noção que a Câmara dá os apoios que pode. Há quem me diga para chatear mais o município, mas reconheço que tem de apoiar também outros clubes, mais os bombeiros, as pessoas com dificuldades. O que acho é que um dia é preciso decidir qual o projeto da cidade em termos desportivos, e, se calhar, não faz grande sentido termos três ou quatro clubes a praticarem a mesma modalidade. Às vezes criam-se clubes sem grande razão. Apoiar, sim, mas os clubes têm de possuir bases e fazer um trabalho sério, como nós, a Portinado, o Clube Naval e outros, mas principalmente estes, que investem muito nos seus atletas. Não se pode ter uma modalidade só por ter. 

Responsabilidade de cidadania 

“Vamos apostar num departamento clínico, para receber os miúdos que praticam desporto e termos a certeza que estão bem. Todos os jovens atletas devem ser vistos pelos nossos clínicos, com um acompanhamento contínuo”, vincou Fernando Rocha, a propósito de uma iniciativa cujo alcance se estende também a uma “responsabilidade de cidadania”. Neste contexto, o presidente vai criar condições no Campo Major David Neto e aumentar o espaço físico para que seja instalado um departamento médico e um ginásio de recuperação destinado aos miúdos. “É este o futuro, assente numa responsabilidade de cidadania e acompanhamento. Depois, os jovens podem demorar dois, quatro ou cinco anos a subir de patamar, mas é esta forma de trabalhar que permitirá que subam. Mais importante do que ganhar – e sei que todos queremos ganhar – é formar e ter um papel ativo na tal responsabilidade de cidadania”. 

AS IDEIAS MAIS FORTES 

⇨ “É uma loucura o que se gasta no futsal e as receitas são pouquíssimas, pelo que é obrigatório repensar e apostar fortemente na formação”

⇨ “O nosso futebol de formação é já uma referência internacional, com muitos emblemas estrangeiros a quererem visitar-nos e estagiar por cá” 

⇨ “A SAD não é um corpo estranho e os sócios e adeptos têm de ficar contentes com os resultados do futebol profissional. Todos somos portimonenses” 

⇨ “Não serei eu a acabar a obra, estou há tempo de mais na presidência. Agora é olhar para o futuro. É o desafio que vou deixar, mas continuando atento…” 

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