Grupo de Cirurgia Colorretal de Portimão: Primeiras consultas e cirurgias não apresentam lista de espera

Texto: Hélio Nascimento | Fotos: Kátia Viola, in Portimão Jornal nº 45


Edgar Amorim, coordenador e responsável pelo tratamento da doença colorretal da Unidade de Portimão do Centro Hospitalar Universitário do Algarve (CHUA), em entrevista ao Portimão Jornal, falou sobre um tema de enorme importância e complexidade para toda a população, no mês que assinala a doença

O que é o Grupo de Cirurgia Colorretal?
O Grupo de Cirurgia Colorretal, apesar da sua forte ligação e dependência ao serviço de cirurgia geral de Portimão, é formado por uma equipa multidisciplinar (constituída por várias especialidades) e multiprofissional envolvendo médicos, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas e assistentes técnicos. Está orientado para o tratamento cirúrgico da patologia colorretal benigna e maligna.

Como surge e quando foi criado? 
Acompanhando a tendência internacional, este grupo nasceu em 2014 da necessidade de restringir a determinadas equipas, patologias que pela sua especificidade ou raridade necessitam de um volume (quantidade de procedimentos) que permitam garantir os melhores resultados. Atualmente, na área da cirurgia colorretal já não existe a necessidade de recorrer a outras instituições nacionais para realizarmos os tratamentos cirúrgicos. Temos capacidade e reconhecimento para abordarmos todos os tipos de patologias independente da sua complexidade.

Quantos elementos tem a equipa e quais as funções?
A nossa equipa é constituída por três cirurgiões dedicados a 100% a esta patologia e apoiada por cerca de 15 elementos em tempo parcial. É uma equipa com várias áreas de formação (enfermagem, estomoterapeutas, nutricionistas, fisioterapeutas, imuno-hemoterapia, secretariado) que se complementam e permitem abordar a família e o ‘doente como um todo’.

Como são referenciados os doentes e de onde chegam?
Chegam até nós doentes de todo o Algarve e do Baixo Alentejo, mas, compreensivelmente, a maior percentagem é proveniente da região do Barlavento algarvio. A grande maioria tem neoplasia do cólon e do reto, o que é compreensível, uma vez que fazemos também parte do Centro de Referência do Cancro do Reto. Mas a nossa equipa não aborda só doentes com patologia oncológica.  Asseguramos também o tratamento cirúrgico da doença inflamatória intestinal, da incontinência anal e da doença perianal complexa.

Falou do Centro de Referência…
Os Centros de Referência são unidades reconhecidas pelo Ministério da Saúde após terem sido submetidas a um processo de acreditação externo. Asseguram uma avaliação multidisciplinar e diferenciada no tratamento de determinadas patologias, que pela sua especificidade ou complexidade exigem a concentração de recursos nas diferentes fases da prestação dos cuidados de saúde: diagnóstico, tratamento e posteriormente no seu seguimento. O Centro de Referência do Cancro do Reto do CHUA foi reconhecido pelo Ministério da Saúde através do despacho nº 3653/2016 de 11 de março de 2016. Em 2017 iniciou o processo de acreditação que culminou em 2018 com a certificação que mantem até hoje por parte da Direção-Geral da Saúde.

Há poucos centros de referência a sul do Tejo? Isso aumenta a responsabilidade?
O Centro de Referência do tratamento do Cancro do Reto do CHUA é o único reconhecido pelo Ministério da Saúde no Algarve e Baixo Alentejo. A título de curiosidade, a sul do Tejo só existem mais dois Centros de Referência (Garcia de Orta, em Almada, e Hospital Espírito Santo, em Évora). A responsabilidade deve ser a mesma, independente de fazermos parte de um centro de referência ou não, até porque existem outras patologias que só não são centros de referência porque ainda não foram criados esses centros. A grande vantagem para os doentes é a garantia adicional de que os seus resultados são auditados por fontes externas de forma periódica. A nossa responsabilidade é transpor este rigor e cultura de avaliação de resultados para toda a nossa atividade.

Quantos doentes tratam por ano?
Em média a nossa equipa avalia em consulta cerca de 150 novos doentes oncológicos por ano. A estes novos doentes temos que acrescentar um histórico acumulado, uma vez que os doentes têm um seguimento durante cinco anos até terem alta para os cuidados de saúde primários. Se juntarmos os novos doentes com doença inflamatória intestinal, incontinência e doença perianal complexa estamos a falar de cerca de 200 novos doentes por ano.

O número tem aumentado?
No ano de 2021, apesar de atravessarmos um período pandémico, fomos responsáveis pela realização na unidade de Portimão do CHUA por 1700 consultas e 190 cirurgias. Algumas destas, pela sua complexidade, podem demorar cerca de cinco horas de procedimento cirúrgico. No entanto, é com grande orgulho que podemos afirmar que no nosso grupo não temos lista de espera para primeiras consultas ou para a realização de cirurgias.

Quais os sintomas do cancro do reto?
Apesar de não existir uma sintomatologia que seja exclusiva do cancro colorretal, existem alguns sinais de alarme que devemos ter em conta: a existência de alteração do trânsito intestinal e das suas caraterísticas, a existência de sangue nas fezes, emagrecimento sem motivo aparente, anemia.

Em que idade se deteta a patologia?
Principalmente, em pessoas com mais de 50 anos, uma vez que 90% dos novos casos acontece acima dessa idade.

A importância de um diagnóstico feito atempadamente muda tudo, inclusive a possibilidade de cura?
A redução da mortalidade e o aumento da sobrevivência está diretamente relacionada com a fase da doença (estadio) em que se apresenta. Contudo, é complicado falar em verdadeira cura na doença oncológica uma vez que existe sempre a possibilidade de uma recidiva. Naturalmente que uma doença oncológica detetada inicialmente melhora radicalmente o prognóstico e a probabilidade de sobrevivência quando comparada com um doente em que é detetada quando já está espalhada para outros órgãos (metastização). É por isso que devemos apostar no rastreio. Mas é importante também termos a noção que após os cinco anos a probabilidade de recidiva é bastante baixa e é este o motivo que consideramos que o doente possa estar ‘curado’.

E qual a importância do rastreio? Com que idade deve ser feito?
Em Portugal e de acordo com o plano nacional de prevenção e controlo das doenças oncológicas, o rastreio do cancro do cólon e do reto nos indivíduos assintomáticos, ou seja, sem qualquer sintomatologia, deve ser realizado entre os 50 e os 75 anos. O método preconizado consiste na pesquisa de sangue oculto nas fezes. Caso seja positivo é orientado posteriormente para a realização de uma colonoscopia. O rastreio regular pode prevenir a doença uma vez que o cancro do cólon e do reto têm um crescimento lento desde o aparecimento da lesão precursora até à sua transformação em cancro.

As pessoas têm medo do rastreio por causa da colonoscopia?
Como em todos os exames invasivos, existem complicações, mas quando feito por equipas treinadas estas complicações são residuais. A colonoscopia tem a grande vantagem de poder realizar o diagnóstico ao mesmo tempo que consegue remover pequenos pólipos ou tumores, evitando tratamentos mais agressivos como as cirurgias. A minha sugestão é que se informem corretamente com os seus médicos assistentes acerca das indicações e vantagens da utilização destas técnicas. O rastreio salva vidas.

Em caso de resultado positivo, que tipo de tratamento deve ser feito?
Na suspeita de um cancro que foi confirmada pela existência de uma biópsia, os doentes devem ser referenciados para equipas multidisciplinares com experiência na abordagem e tratamento destas doenças. É importante a complementar o estudo por meios de imagem (TAC ou RM). Em conjunto, estes exames irão permitir à equipa estadiar a doença de acordo com a sua localização. Só depois desta avaliação, podemos propor abordagens terapêuticas. As opções de tratamento podem ter um intuito curativo ou paliativo (melhorar a sintomatologia) e podem passar pela intervenção cirúrgica isolada ou por opções que combinam o tratamento da quimioterapia da radioterapia e da cirurgia. O recurso à quimioterapia e à radioterapia como abordagem inicial (neoadjuvante) mais usado no tratamento do cancro do reto tem como objetivo principal reduzir o tamanho dos tumores, de modo a possibilitar a realização de cirurgias mais conservadoras e menos invasivas, podendo até em última análise (em casos altamente selecionados) evitar mesmo a cirurgia.

As taxas de êxito são agora muito mais altas?
Sim. São incomparáveis os resultados que obtemos hoje. Por exemplo no cancro do reto até meados dos anos 80 os doentes apresentavam uma sobrevivência após os cinco anos de diagnóstico de cerca de 27 a 42%, e, atualmente, conseguimos taxas de sobrevivência de 70 a 80%. A taxa de recorrência (regresso do tumor) passou igualmente no mesmo período de 30% para 8%. Mais concretamente na nossa realidade, no Algarve, os dados oficiais de 2018 quando comparados com 2015 revelaram uma diminuição de óbitos por cancro do cólon de cerca de 34% e de cerca de 10% no cancro do reto.

Há números recentes sobre novos casos?
Os últimos dados oficiais conhecidos reportam a 2020 e revelavam que em Portugal o cancro colorretal ocupa a primeira posição do ranking de novos casos por ano, quando avaliado em conjunto os dois sexos. Estamos a falar de 10 500 novos casos de cancro colorretal por ano, correspondendo a cerca de 17% de todos os novos cancros diagnosticados.

Como classifica a evolução tecnológica no tratamento da doença?
É interessante esta pergunta. Naturalmente que a cirurgia minimamente invasiva (laparoscopia ou ‘cirurgia dos furinhos’ ou erradamente designada cirurgia por laser) permite realizar cirurgias menos invasivas, com taxas de recuperação bastante mais rápidas e com menos dor. Cada vez temos meios de diagnóstico mais precisos e quimioterapias com menos efeitos colaterais. Mas, paradoxalmente, na minha opinião o maior avanço foi a perspetiva menos tecnológica e que se baseia no diálogo entre as várias especialidades e inclusão da perspetiva do doente na equação terapêutica. Atualmente, temos que aceitar que existem grupos de doentes que se preocupam mais com a qualidade de vida que vão ter do que propriamente com a sua sobrevivência (número de anos que irão viver após o diagnóstico da doença).

O centro dispõe de todas as condições e meios? Ou há mais passos a serem dados a curto e médio prazo?
Nós já provamos que um centro periférico como o nosso pode ser uma referência nacional no tratamento de determinadas patologias. O maior desafio que temos para o futuro é reunir as condições necessárias para que nenhum doente oncológico, independentemente do tipo de cancro, tenha que sair do Algarve para realizar os seus tratamentos. Penso que a este nível têm sido dados passos importantes e a recente proposta da criação de um Centro Oncológico no Algarve pode ser o caminho correto.

Cuidados de saúde de qualidade fora dos grandes centros

Edgar Amorim fez toda a formação cirúrgica na unidade de Portimão do CHUA. “Sou um médico que sempre acreditou e lutou para que fora dos ditos grandes centros cirúrgicos de Lisboa, Porto e Coimbra também fosse possível assegurar às nossas populações, cuidados de saúde altamente diferenciados e de qualidade”, diz o cirurgião, que, curiosamente, é um amante do futsal. “Atualmente, desempenho funções de coordenador do Grupo de Cirurgia Colorretal de Portimão e do Centro de Referência do Cancro do Reto do CHUA. Paralelamente, encontro-me a realizar o Doutoramento na Faculdade de Economia do Algarve”.


NÚMEROS & FACTOS

⇨ Em média a nossa equipa avalia em consulta cerca de 150 novos doentes oncológicos por ano.

⇨ Em 2021, apesar de atravessarmos um período pandémico, fomos responsáveis pela realização, na unidade de Portimão do CHUA, de 1 700 consultas e 190 cirurgias.

⇨ Nos indivíduos assintomáticos, ou seja, sem qualquer sintomatologia, o rastreio deve ser realizado entre os 50 e os 75 anos.

⇨ No Algarve, os dados oficiais de 2018, quando comparados com 2015, revelaram uma diminuição de óbitos por cancro do cólon de cerca de 34% e de cerca de 10% no cancro do reto.

⇨ Dados oficiais de 2020 revelam que em Portugal o cancro colorretal ocupa a primeira posição do ranking de novos casos anuais, quando avaliado em conjunto os dois sexos: 10 500 por ano.

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