Hélder Martins: “A pandemia não afetou o destino Algarve”

Texto: José Manuel Oliveira


Ainda há muita gente que quando escolhe o destino de férias põe em primeiro lugar o preço”, reconhece, à ‘Algarve Vivo, o recém-eleito líder da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve.

O que deixou o seu antecessor, Elidérico Viegas, por fazer e como explica essa situação?
Os mandatos terminam no dia 31 de dezembro do ano previsto. A equipa antecessora, como sabe, estava demissionária desde o início de 2021. Por isso digamos que a associação esteve em gestão corrente desde essa data até ao ato eleitoral.

Conversaram após terem sido conhecidos os resultados destas eleições para a AHETA?
Não conversámos após o ato eleitoral.

O que pretende levar a efeito durante este mandato até 2024? Quais as suas prioridades?
Apresentámos aos associados um programa para o mandato que agora começou. É um trabalho de equipa, num período muito difícil em que as empresas que sobreviveram chegam ao pós-pandemia com graves dificuldades financeiras e estruturais. Uma associação empresarial tem que estar ao lado dos associados na procura de soluções para a resolução dos seus problemas. O que pretendemos e estamos a implementar é um diálogo muito próximo de todos, públicos e privados, no sentido de revitalizar a principal atividade económica do Algarve. Pretendemos dar um maior dinamismo à AHETA, intervindo, por exemplo na área da formação profissional dirigida aos associados e seus colaboradores, levar junto do poder central e regional as nossas principais reivindicações, estar permanentemente disponível para estar onde for necessário e ajudar a preparar as empresas para os desafios que se aproximam. Logo que este terrível período pandémico se vá esbatendo, temos de estar na primeira linha para estar na mente dos turistas no momento da decisão das próximas férias. Assim, temos de ter orçamentos de promoção que permitam essas ações. O Algarve tem de ser visto como uma região específica, o principal destino turístico do país e assim deve ser tratado pelo poder central. Esperemos que os novos membros do Governo sejam nomeados rapidamente para podermos trabalhar em conjunto, com vista à resolução dos principais problemas.

Que debilidades encontra no Algarve e como as resolver?
A região continua a apresentar um conjunto de debilidades, que se mantém há muitos anos a esta parte. O facto de o Governo saído destas eleições ser de maioria absoluta, dá garantias de que as promessas apresentadas possam ser implementadas. Questões de acessibilidades, hospital central, habitação, emprego e muitas outras terão decerto resposta nos próximos programas de Governo.

O que ficou por realizar devido à pandemia da covid-19?
Muito ficou por fazer, pois as limitações e o medo de viajar atrasaram todos os projetos que existiam no setor. Mas o importante a reter é que a pandemia não afetou o destino Algarve. A qualidade das infraestruturas está lá e foi melhorada. A qualidade das nossas praias, campos de golfe, do nosso interior, tal como as nossas marinas, etc., todos esses produtos tiveram oportunidade de melhorar as suas infraestruturas e preparar-se para os tempos que aí vêm e que, na nossa opinião, serão melhores que os mais recentes.

Como é possível solucionar o problema da falta de mão de obra qualificada no setor do turismo? Baixos salários têm afastado trabalhadores portugueses…
O problema não é apenas dos salários. Essa é uma questão importante e decerto os empresários têm vontade de retribuir condignamente os seus colaboradores, desde que a empresa seja sustentável. Mas há outras questões que estão na mesa de trabalho de todos nós. A questão das carreiras profissionais, a garantia da continuidade da manutenção dos postos de trabalho, são temas que devem ser pensados.

Por exemplo, como se tem verificado noutros destinos internacionais, em que no período da baixa ocupação turística, os empregados ficam nas empresas, em formação e trabalhando segundo as necessidades, financiados pelo Governo. Sai decerto mais barato ter os funcionários nas empresas e evoluir do que pagar o subsídio de desemprego.

Como analisa a necessidade de recorrer a mão de obra de outras zonas de Portugal e de outros países?
A questão da mão de obra é um dos problemas de momento, não só no turismo, mas também em várias outras atividades. Este problema tem que ser visto de uma forma mais abrangente, pois não creio que seja apenas uma questão salarial. Uma família que se pretenda instalar no Algarve para trabalhar, depara-se com o preço do custo de vida e especialmente da renda de casa e desiste. Depois, não tem condições para os filhos frequentarem uma creche, o que não facilita. Os Planos Diretores Municipais deveriam prever condições de construção de habitação a custos controlados ou de outra forma que permitisse alojar os trabalhadores que se pretendem instalar no Algarve. Mas com condições rígidas que não permitissem que essas habitações entrassem no mercado imobiliário, de imediato, pois assim o problema persistia.

“Algarve não deveria viver só do turismo”

Como encara a excessiva dependência do Algarve do turismo? De que forma é possível combater a sazonalidade?
A região não deveria ter apenas como atividade predominante o turismo, mas o facto é que é o turismo que nos caracteriza e outras atividades que se vão tentando instalar ainda não conseguirão ter a expressão do turismo. Há várias tentativas de instalar no Algarve outro tipo de atividades, muitas delas complementares ao turismo e isso é um fator muito importante.
A sazonalidade é um dos nossos maiores problemas. Se é verdade que durante alguns anos se conseguiu esbater um pouco a sazonalidade, ela continua a existir. O golfe, o turismo ativo, os turismos de experiências e de congressos vão conseguindo minorar esse problema, mas temos de conseguir outras formas de atrair clientes em época baixa. Para clientes do centro e norte da Europa, por exemplo, passar a época baixa no Algarve é algo fantástico pelas nossas condições climatéricas e acolhimento das populações. A imobiliária turística muito tem contribuído para esbater a sazonalidade.

Quais são os países que mais concorrência colocam ao Algarve?
Todos os países da bacia do Mediterrâneo, na área do sol e praia, com especial enfoque para os que não estão no espaço da União Europeia, pois têm uma política dos Governos muito favorável à atividade. Terrenos para construção de hotéis oferecidos, isenção de taxas e impostos sempre que há alguma crise, grandes orçamentos para a promoção, etc. Noutros setores, por exemplo no golfe, onde há destinos com campos de golfe de excelência, teremos concorrência, mas nestes ou noutros setores, a qualidade do Algarve sobrepõe-se a esses destinos, em termos comparativos. No entanto, ainda há muita gente que quando escolhe o destino de férias põe em primeiro lugar o preço.

Como perspetiva a próxima época turística?
Esperamos que seja um ano de continuação da recuperação económica, especialmente a partir de agora que as restrições de movimento das pessoas começam a ser levantadas.
 
O que espera, a partir de agora, de um Governo resultante de uma maioria absoluta parlamentar em Portugal?
Decerto todos esperamos que os recentes debates e consequentes promessas sejam cumpridas. Com a estabilidade consequente de uma maioria absoluta, há decisões a serem tomadas que permitirão resolver questões estratégicas de desenvolvimento do Algarve, as quais se arrastam há anos. E esperamos que o Governo que vier a ser nomeado tenha consciência do impacto do turismo no plano nacional.

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