Jody Lot: “Quero voltar a ser campeão do Mundo”

Texto: Hélio Nascimento | Foto: Ana Sofia Varela, in Portimão Jornal nº34

Por estes dias, Jody Lot prefere a companhia do filho e da mulher. Continua a ir ao mar, naturalmente, à procura de peixe e de marisco, mas a competição pode esperar. Não se pense, porém, que o algarvio, que já foi duas vezes campeão mundial de pesca submarina, desistiu de tentar levar mais uma vez a bandeira portuguesa ao lugar mais alto do pódio.

“Vou à pesca, estou ativo e a trabalhar, mas não tenho participado em provas. Este ano, aliás, houve menos, e menos verbas, sobretudo para as competições internacionais, mas, de resto, foi uma temporada calma, que aproveitei para estar com a família”. O nascimento do filho, que fez agora 10 meses e se chama Ocean, mudou-lhe as rotinas. “Sim, é verdade”, assume Jody, justificando também com o muito tempo que é preciso despender para preparar uma prova de topo.

“Já viu o tempo que se passa fora de casa na preparação de um Mundial ou de um Europeu? Por isso, dediquei-me mais à família. Estes momentos do meu filho bebé passam depressa e há que aproveitar. Para o ano podemos até ir todos juntos, eu para competir e a família para me dar apoio”, argumenta o pescador-mariscador, com um sorriso franco, durante a conversa com a reportagem do Portimão Jornal, que decorreu na zona ribeirinha de Alvor, nas arrecadações dos pescadores, o local por excelência onde traça os planos para novas aventuras no mar.

“Atenção, que ainda quero voltar a ser campeão do Mundo”, atira Jody, de rompante, dissipando quaisquer dúvidas sobre o tema. Este período de maior calma é somente um parêntesis numa carreira de muito e muito sucesso, sempre num ‘combate’ enérgico com o mar.
“Vou voltar a competir, claro. Quero ganhar o título mundial outra vez. Só as festas valeram a pena”, confessa, com uma gargalhada à mistura, aludindo às comemorações de que foi alvo e aos momentos inesquecíveis vividos com os companheiros de seleção e com os amigos.

Três títulos especiais
Jody Lot foi campeão da Europa e da África em 2011 e campeão do Mundo em 2012 e 2018, três títulos muito especiais e os mais significativos. O último Mundial disputou-se recentemente, em Itália, e foi ganho por um italiano, mas o algarvio, que também tem vários títulos nacionais, como se sabe, ficou em casa, por opção, o que não invalida que dê mostras de algum aborrecimento.

“A Seleção foi feita em cima da hora. Sei que não há muito dinheiro para campeonatos internacionais, mas podia ter havido uma outra calendarização, que permitisse, por exemplo, que os atletas tentassem obter ajudas locais ou mesmo municipais. Agora, em cima do joelho, é mais difícil”, explica Jody, sem esquecer que o lado familiar e em especial o nascimento do filho pesaram muito na decisão de não se candidatar a um lugar na seleção. 

“Este Mundial em Itália obrigava a muita prospeção e tempo de adaptação do corpo, porque o mergulho era de 40 metros para baixo e em Portugal não mergulhamos tão fundo”, adianta, quase que a justificar o 17º lugar de André Domingues, que foi o melhor português, e o 12º lugar coletivo. “A pandemia também complicou, mas, repito, os apoios conseguem-se, precisamos é de tempo, não é de um dia para o outro. Ou seja, creio que há outras maneiras de planear estas competições”.

Jody não se arrependeu de ter ficado por cá, prosseguindo a sua atividade de pescador e mariscador. “Onde? Em todo o lado. Temos de nos moldar às condições, ao melhor local e conciliar. Tanto posso ir para Carvoeiro como para Sagres, depende do que contei”, salienta o campeão, pronto a mergulhar em qualquer sítio. E às vezes também pesca à cana.

O fascínio do azul do mar e… a cozinha
Natural de Lagos, mas praticamente desde sempre a viver em Alvor, filho de pai indonésio e mãe holandesa – daí o nome –, Jody Lot chegou a tirar o curso de cozinheiro. “Trabalhava num restaurante, depois tirei o curso, e tudo isto é muito bonito, mas… ou fazes uma coisa ou fazes outra”, assegura, aludindo às contínuas e desgastantes horas de atividade numa cozinha.

“Não dá para conciliar, não dá para trabalhar numa cozinha e ao fim de semana ires para o mar, sobretudo se te dedicares à competição”, repete, falando de um horário “que se estende de manhã à noite e que ainda implica, às vezes, teres de ir fazer as compras”.

“Estes momentos do meu filho bebé passam depressa e há que aproveitar. Para o ano podemos até ir todos juntos, eu para competir
e a família para me dar apoio” 

O mergulho, esse, vem de tenra idade. Começou aos 7 anos, incentivado pelo pai e pelo irmão, e, desde então, não mais deixou de experimentar esta sensação única de nadar entre os peixes. “Estava habituado ao mar e às rochas, apanhava caranguejos e gostava de ver os peixes, mas aquele primeiro contacto, mais a sério, debaixo de água, marcou-me o futuro. Mal vi o azul do mar, os peixinhos ali ao pé de mim, o silêncio à minha volta, enfim, fiquei fascinado!”.

Quer na pesca, que acaba por ser o seu sustento, quer na via desportiva, Jody Lot é uma referência na vila onde vive. “Alvor é a minha base”, exclama, radiante pelos contactos diários com tantos amigos e pescadores que também fazem do mar o seu quotidiano. “Tenho imensa empatia com os pescadores, que me conhecem bem e fazem muitas perguntas. Quais? Querem saber o que vejo debaixo de água e como apanho os peixes”, adianta, de novo com um brilho nos olhos.

A componente física 
A atividade profissional de pescador e mariscador encaixa às mil maravilhas com o treino inerente a quem pretende ser campeão na pesca submarina. “Quanto mais água, melhor”, atira Jody, abordando a capacidade física que é preciso manter. Por isso, natação, corrida, ginásio e até a bicicleta completam o ritual da preparação, várias vezes com a prática de surf pelo meio.

O algarvio chegou a aguentar três minutos debaixo de água, sem respirar, visto que a pesca submarina é feita em apneia, sem recurso a botija. “Com treino, consigo essa marca, mas agora é mais difícil. Antes, sentia-me mais à vontade. Cada vez tenho ‘menos apneia’, ao que não é estranho o aumento do peso – tenho aí mais uns dez quilos – e as diferenças no corpo. É como os lutadores, que se cansam mais quando ficam pesados”, opina Jody, hoje com 40 anos.

“Nós ‘falamos’ com eles, tipo contacto entre o homem e o peixe, o olhar, o sentir… Num cardume de sargos, por exemplo, se tens
um referenciado e queres atacar um maior, este pode vir a fugir…”

“Em Portugal, somos bons nos mergulhos baixos, à volta dos cinco metros, mas, em certos campeonatos, a distância pode quintuplicar”. Por outras palavras, “durante uma hora somos capazes de ir aos 25 metros cerca de vinte vezes, mas, se a profundidade andar pelos cinco, podemos quase triplicar os mergulhos”.

Jody Lot representa atualmente o Clube Naval de Portimão, depois de ter vestido as cores do Portisub e do Estoril. “Estou há quase três anos no Clube Naval e o clube tem sido impecável. Não falha com nada e o apoio até é maior do que aquilo que esperava”.

Por falar em apoio, o mergulhador tem sempre ajuda no barco. “Nas provas nacionais há um parceiro, o que já não é mau, mas o ideal é dispormos de três, em especial nas competições internacionais. Fica um no barco e vão dois à água, que se vão revezando. Joga-se a fateixa, procura-se o peixe, sobe-se ao barco e mais à frente volta-se a lançar a fateixa”, conta, elucidando o vaivém típico da faina, que inclui ainda a precisão de sondas e sonares para localizar os cardumes.

O saber ‘falar’ com os peixes
“Falo com os peixes, cada vez mais”, argumenta Jody. A frase já não causa muita admiração ao jornalista, devido a anteriores conversas com o pescador, mas não deixa de ser enigmática. Na verdade, a pesca tem, para além da componente técnica, uma outra psíquica.

“Uma pessoa pode estar muito bem fisicamente, mas, se não souber porque é que os peixes estão aqui e não ali, porque vão para acolá quando há vento, porque comem isto em vez daquilo, enfim, sem perceber estas coisas é difícil conseguir uma boa pescaria”, garante o algarvio.

Ventos, marés, correntes, temperaturas da água e a tal “psicologia dos peixes” são alvo de estudo pormenorizado em vésperas de uma grande competição. “A prática e o instinto levam-nos a compreender o comportamento dos peixes e depois disso é mais fácil apanhá-los”, adianta, revelando que tudo isto acaba por ser um segredo.

“Perguntam como se faz, eu explico como, mas a grande pergunta é o porquê. Às vezes faço assim, mas porque fiz assim? Correntes, altura do ano, tudo influencia o peixe. Nós ‘falamos’ com eles, tipo contacto entre o homem e o peixe, o olhar para ele, ver se ele já te sentiu. Num cardume de sargos, por exemplo, se tens um referenciado e queres atacar um maior, este pode vir a fugir… importa é fixares um, é como com um leão numa savana”, ironiza Jody. 

Uma corvina de 49 quilos num registo inesquecível 

Jody Lot tem mil e uma aventuras e outras tantas proezas que guarda com orgulho. Para além dos títulos nacionais e internacionais, nunca esquece a captura de uma corvina de 49 quilos, pescada em Sagres, num mergulho à volta dos 12 metros. “Ainda é o maior troféu! É inesquecível e é difícil bater um recorde assim, mas até pode ser que venha a conseguir. A corvina de grande porte é um peixe difícil de encontrar, é necessário estar no sítio e na altura certas, enfim, é uma raridade, e, quando as capturamos, é excelente”. As douradas e os pargos também dão muita luta, para lá “dos mais pequenos, como os sargos, que cada vez me dão mais ‘pica’, porque são difíceis de apanhar, parecem mais espertos”, brinca o algarvio. E se for marisco? A variedade também existe, e, “daqui até à Costa Vicentina, há sempre navalheiras, lingueirão, bruxinhas, percebes e mexilhão para apanhar”.

As regras da competição e o café com o filho 

A pesca submarina é altamente seletiva, no que concerne à competição, logo a começar por ser feita em apneia e depois por variadas regras que definem o que o atleta pode e deve fazer. “Cada campeonato traça as espécies que podemos apanhar e cada peça tem de ter um peso mínimo para ser válida. Se um determinado peixe tiver menos peso do que o mínimo exigido, é certa a penalização”. Depois, as várias espécies têm pontuações distintas. A título de curiosidade, Jody Lot foi campeão do mundo em 2018 com 57 peças válidas, 32 capturadas no primeiro dia e 25 no segundo. Mas a tarefa é complicada, “porque os peixes fogem muito e não se deixam apanhar com facilidade”. Na calmaria de uma tarde junto à Ria de Alvor, a conversa flui com calma e naturalidade. Jody sabe que há tempo para tudo, mas, agora, quer estar mais presente em casa, com o filho e a mulher. “Antes de ir para o mar vou tomar um café e levo o meu filho, cujo nascimento mudou tudo por completo. Se pudesse, tinha já mais um ou dois. Mas ela disse-me que para isso era melhor arranjar outra mulher”, brinca o campeão, acrescentando, de pronto, que “está tudo bem assim”.

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