Livro conta história do autismo de Flor pelos olhos da mãe

Os textos escritos em rascunho no telemóvel, na maioria das vezes à noite, eram apenas pensamentos soltos, até que Natacha Inocêncio resolveu compilá-los e colocá-los em livro para o oferecer à sua filha Flor, diagnosticada com autismo, no seu quarto aniversário, a 4 de setembro.

São pensamentos de junho de 2021 a maio de 2022. Retratam uma fase menos ‘sombria’, em que a revolta já se começava a atenuar. A outra etapa anterior, admite, é algo para a qual ainda não está preparada para partilhar com o mundo, até porque a intenção não é que seja um livro ‘amargo’, mas que exponha o amor dos pais pela filha. “Neste livro, revelo uma altura em que me começo a equilibrar, pois o objetivo é contar à Flor a sua história, eternizando o amor mais infinito que ela me faz sentir enquanto mãe”, revela a portimonense.

O caminho não foi fácil, mas é de esperança e o importante para a autora é dar todas as condições para que a filha tenha conquistas e evolua. Com o título ‘Flor é o teu nome / Natureza a tua essência / Autismo o nosso mundo’, está disponível para compra no facebook (www.facebook.com/floreoteunome) ou instagram (www.instagram.com/flor_natureza_autismo/), por 17 euros, acrescido de três euros para portes de envio.

A obra, financiada por Natacha Inocêncio e pelo marido, tem ilustrações feitas a partir de fotografias do casal com a filha. Contou com a colaboração de Joe Santos, cofundador das fundações ‘Vencer autismo’ e ‘Querida Caui Ferreira’, uma menina autista que aceitou partilhar a sua experiência com Natacha, assim como a colaboração de algumas mães, com filhos autistas.

Primeiros sinais
“O desenvolvimento da Flor ocorreu sempre de forma normal. Era uma bebé de sorriso fácil, muito feliz e comunicativa, fazia adeus, batia palminhas, apenas não gostava de colo de outras pessoas. Por volta dos 18 meses começámos a notar movimentos específicos que ela fazia com a mão quando estava feliz, aos 23 meses começou a andar de bicos de pés e a fala continuava atrasada. Estes foram os primeiros sinais”, recorda Natacha Inocêncio em entrevista ao Portimão Jornal. O diagnóstico de autismo foi confirmado, quando Flor tinha dois anos e nove meses, ainda que os pais, no íntimo já tivessem a certeza. “Ouvir a palavra vinda do médico torna tudo muito real, muito intenso. No início, senti que queria apagar a realidade e seguir, mas sabia que ia ter de encarar a verdade”, confidencia a autora.

Os primeiros sentimentos foram dolorosos e parecia que não havia como seguir em frente, mas foi a escrita, em junho de 2021, que serviu de refúgio e ajudou a ultrapassar as etapas.

No entanto, além desse propósito pessoal, a autora afirma que a história que vivem com Flor “é um processo, um caminho” que tem sido traçado, ao mesmo tempo que relata a experiência, por isso, “sem qualquer dúvida pode e vai ajudar outras famílias a dar conforto, a não se sentirem sozinhas, a encher-lhes o coração de amor e a acreditar que tudo é possível”, bastando “existir muito amor”, defende.

Limitações e soluções
O autismo é uma condição com características específicas e intensas. É o caso de dificuldades na socialização, seletividade alimentar, crises e atrasos na fala. “Estas são das principais limitações do autismo e são as que caracterizam a Flor”, refere Natacha Inocêncio, acrescentando que a filha é bastante inteligente, tem muito boa memória e, apesar de não falar, explica o que quer à sua maneira e entende o que lhe é pedido ou dito.

Claro que as crises da Flor, que vive o que gosta com muita intensidade são uma dificuldade, porque geram conflito no seu cérebro. “Neste momento, estamos a tentar encontrar forma de equilibrar essa situação. Procuramos alguma estratégia que nos ajude. Como pais, estamos a tentar ‘desligar’ dos locais ou brinquedos que ela mais gosta e parece estar a funcionar, mas, em breve, vamos ter acompanhamento. A socialização é uma questão de tempo. A Flor precisa sentir respeito e que não vai acontecer nada que ela não queira”, afirma Natacha Inocêncio.

Falta informação
Outro dos objetivos do livro será sensibilizar e consciencializar para esta realidade. “Infelizmente, ainda existe muita falta de informação. O autismo não é nenhuma doença. É apenas uma condição que tem limitações, porque um menino ou menina autista vê o mundo com outros olhos. Para eles, tudo é intenso, importante, especial, enquanto para nós é vulgar ou insignificante. O impacto de um som, de uma luz acesa, de um toque” tem um impacto diferente neles e é “isso que precisa ser explicado à sociedade”, conclui. Esta mãe esclarece que a limitação existe, mas também há evolução e que é necessária muita compreensão e respeito. Uma das suas grandes preocupações é, por esta razão, que a Flor sinta “a diferença”. “Como mãe, o que mais desejo é que a minha filha cresça e possa saber quem é, com orgulho de si própria. Lutarei bastante por isso”, acrescenta.
Natacha, por fim, promete continuar a registar o que sente, as vivências da Flor, até porque o caminho não acaba aqui.

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