Nada na Portinado, representa Angola e tem o sonho dos Jogos

Texto: Hélio Nascimento | Fotos: D.R.


Carlota Silva tem 17 anos, é natural de Portimão e pratica natação desde bebé. Deu nas vistas muito cedo, pela sua rapidez e disciplina, começando a alcançar boas marcas e a projetar-se como possível candidata a lugares de destaque no panorama nacional. E não só – em 2023 a Federação de Angola ‘entra na jogada’, atenta ao facto de Carlota ter ascendência angolana (por parte da avó materna) e dupla nacionalidade e poder assim representar este país africano.

“Comecei a nadar desde muito pequena, porque os meus pais sempre tiveram o objetivo de me ensinar a nadar, por motivos de segurança, já que assim ficavam menos preocupados quando eu me encontrava perto de uma piscina ou do mar. A verdade é que sempre tive compatibilidade com a água e gosto muito do meio. Comecei aos seis meses num ginásio da Prainha, estive lá até aos três anos, e depois, aos cinco, ingressei na Portinado”, conta ao Portimão Jornal a jovem atleta, no final de mais uma sessão de treino, nas instalações da Portinado – Associação de Natação de Portimão, o seu clube de sempre.

Carlota começou a praticar a modalidade com o professor Amaral e passou ainda ‘pelas mãos’ de Paulo Costa, mas a maior ligação tem sido com Rui Mendonça, principal responsável pela entrada da atleta na competição. “São muitos anos, mas tenho o mesmo entusiasmo, claro que sim. É um desporto que gosto muito, tipo quem corre por gosto não cansa, apesar de a natação ser às vezes ingrata. Temos mesmo de gostar, de trabalhar bastante e dedicar de corpo e alma. Às vezes não vimos resultados e então importa acreditar no processo, ter paciência e confiar que vai dar certo”, confessa.

Curioso é o facto de Carlota, inicialmente, estar inclinada a seguir a prática da natação sincronizada. É aí que o professor Rui Mendonça a convence a apostar na competição. “Sempre fui rápida a nadar e no nível 5, o último da escola de preparação, tomei mais o gosto”. Tinha entre nove e dez anos e estava prestes a abrir uma página dourada na sua vida desportiva.
 
Disciplinada, rigorosa e muito rápida
“O que vi nela? A Carlota sempre foi uma menina muito competitiva, com gosto em aprender, em nadar rápido, alinhada, disciplinada e regular, sempre pronta a ouvir os professores, e esses são os indicadores que apreciamos. O processo na escola é natural e ela destacava-se, queria um bocadinho mais, assimilando tudo, rigorosa e com muita disciplina no trabalho. De certo modo, o sucesso não me surpreendeu”, assinala Rui Mendonça, objetivo a enumerar os principais atributos da sua aluna.

De resto, prossegue, não se trata de uma fórmula secreta. “Nós temos um processo, e, quando os jovens o percorrem com êxito, mês após mês e ano após ano, a probabilidade de sucesso no futuro é maior. Não se resume só a marcar presença nos treinos e ouvir, há toda uma envolvência, por exemplo com os pais e a escola”. O bom suporte de casa, mais a devida orientação e a disciplina no treino, ajudam a criar bases suscetíveis de sucesso.

Rui Mendonça está desde 2003 na Portinado, ligado à competição e com responsabilidade coordenativa e pedagógica. A natação é o seu mundo e dá também aulas no Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes (ISMAT), na tal relação a cem por cento com a natação e o treino desportivo. Tem 45 anos, é de Portimão e licenciado em Ciências do Desporto. Foi também ele que aconselhou Carlota a aceitar o convite que a Federação Angolana de Natação lhe fez, no sentido de representar o país africano em provas internacionais.

Para tanto, refira-se que a jovem, por vontade do pai, dispunha já de nacionalidade angolana, desde os seus quatro ou cinco anos, na sequência de laços familiares, como já se explicou. E surgiu, então, um encontro muito especial. “Um belo dia, na piscina de Loulé, conheci o Pedro Pinotes, um grande exemplo e hoje um verdadeiro amigo. Ele estava a nadar e vi que nas suas costas estavam tatuados os anéis olímpicos. Falei com o meu treinador, que me disse que o Pinotes tinha representado Angola nos Jogos Olímpicos…”.  
 
Escolher entre Portugal e Angola…
A conversa foi pronta e esclarecedora. Mendonça, ao saber que Carlota tinha também nacionalidade angolana, incentivou-a a experimentar “outras realidades e evoluir”. O pai da nadadora falou então com Pedro Pinotes, uma referência da modalidade, avançando de imediato com todas as burocracias inerentes ao processo. E não tardou que a Federação Angolana convocasse a portimonense.

“A primeira vez foi em junho de 2023, no campeonato absoluto angolano, seguindo-se o Mundial de juniores”, recorda Carlota, que nas provas africanas nada como individual. Para o treinador, a explicação pela opção Angola é simples, uma vez que “para entrar no alto rendimento, face ao nível desportivo da nossa seleção, temos de percorrer um longo caminho, e, considerando o nível de Portugal e o de Angola, sem querer fazer juízos de valores, vi que a possibilidade de a Carlota representar Angola, embora não diga que facilitada, estava mais ao seu alcance nesta fase precoce da carreira”.

Rui Mendonça sublinha que nada disto invalida que a pupila chegue à seleção portuguesa, até porque dois nadadores da Portinado já o conseguiram. “A experiência é enriquecedora, é uma boa vivência e algo deveras positivo para o clube e para cidade. Em Angola também teve de cumprir critérios e requisitos, inclusive a nível de resultados, mas tudo correu bem nas provas que lá fomos fazer e agora, até aos 18 anos, tem a hipótese de optar por uma das seleções”.

O treinador não consegue dizer se é preferível continuar a representar Angola ou vir a defender as cores de Portugal. “É muito subjetivo. Em África, tem viagens a meio de um percurso fora da nossa preparação, não é bem o nosso calendário, ajustado às provas internacionais, e, às vezes, não bate certo, mas não lhe sei dizer qual a melhor escolha”, atira Mendonça, que acompanhou Carlota na primeira prova. “A partir do momento em que foi convocada, são os técnicos angolanos que a orientam”.
 
“Singapura parecia um outro mundo”
Carlota ‘dá cartas’ na mariposa e no crawl, nos 50 e 100 metros, mas mais nos 50 metros, onde tem obtido os melhores resultados, sobretudo na mariposa. Os recordes e os títulos são inúmeros, incluindo diversos pódios em competições de primeira linha. Por Angola, além do Mundial de juniores, participou há três meses no Mundial absoluto, em Singapura, naquilo que considera ter sido o ponto mais alto da carreira.

“Esta época foi muito positiva, tanto nas provas nacionais como nas africanas. Em Singapura parecia um outro mundo, um ambiente completamente diferente, ao pé de nadadores que vimos na televisão e que são nossos ídolos. Foi uma enorme honra, até porque se tratava de um objetivo mais para o futuro e não especificamente para esta época. Fiquei muito feliz, claro”.

A jovem salienta que foi fácil adaptar-se à realidade angolana, com o único senão de ter de ajustar a preparação em virtude do calendário. “As competições mais importantes em África podem ficar fora do meu pico de forma, que tenho então de estender, mas mesmo assim consegui sempre melhorar os resultados”.

Rui Mendonça fala igualmente de uma “realidade diferente” em termos genéricos. “Nós temos mais praticantes, mais técnicos com acesso à formação, a natação é mais praticada e desenvolvida por cá e a competitividade é mais alta. Até onde a Carlota pode ir? É uma boa pergunta, mas é difícil projetar o futuro, em virtude de muitos fatores e opções de vida. A modalidade faz valer neste momento nadadores acima dos 25 anos, é mesmo uma opção de vida, apostando em ingressar nesse nível e abdicando dos estudos académicos ou ir mais devagarinho”.
 
A recompensa máxima
Nadar e estudar, de facto, é complexo. Para quem escolhe a alta competição a prioridade é nadar e os cursos podem demorar mais a ser concluídos, até porque há bastantes estágios fora de Portugal. “A Carlota está no 12º ano e terá de decidir o passo a dar. Mas, atenção, não é impossível frequentar a universidade e competir – é fazer com calma os estudos e colocar noutro patamar o desporto”, sintetiza o professor.

Carlota, firme e resoluta também fora da piscina, já pensou no assunto e quer continuar a nadar, mesmo que isso implique colocar os estudos em segundo plano. E pretende seguir medicina.

“Os meus objetivos, para já, passam por obter melhores classificações nos nossos Nacionais de juniores, em dezembro e depois abril e julho, e ter a melhor classificação possível nos Africanos, para o ano”, vinca Carlota, que treina cerca de duas horas por dia e descansa ao domingo. Tudo em prol do grande sonho. “Tenho um objetivo a longo prazo, um sonho desde criança: ir aos Jogos Olímpicos. Tudo o que tenha de fazer e de abdicar vou fazer. A percentagem de pessoas que alcança isto no mundo é muito pouca. Não vale dinheiro, mas vale valores e é a recompensa máxima pelos muitos anos de trabalho”.

Rui Mendonça sorri, plenamente satisfeito com a ambição da atleta, que, de resto, conhece muito bem. “Esta dupla vai continuar o processo, com olhos no futuro, preparada para momentos felizes e outros menos, com altos e baixos, mas as fases menos boas fazem-nos refletir. Há que parar e ver o que pode correr melhor. Quero crescer como treinador, ela como atleta e confiar no processo é a mensagem que deixo”.

Lista de espera em todas as atividades

Aproveitando a ocasião, e tendo por cenário a Piscina Municipal sempre a rebentar pelas costuras, o Portimão Jornal quis saber junto de Rui Mendonça como vão a natação e a Portinado. “As coisas correm bem, com a Escola de Atividades Aquáticas a trabalhar em pleno e em todos os níveis, desde os bebés à pré-competição. Temos depois os adultos, terapia, hidroginástica, a população em geral, e, claro, a competição. A ocupação está nos limites, mas é seguir para procurar dar a melhor resposta possível. Temos listas de espera em todas as atividades e estamos estrangulados pelo pouco espaço disponível, mas vamos fazendo”, explica o treinador. Os utentes, no contexto geral, são cerca de 1000, e, entre eles, 30 cadetes, 25 infantis e 44 na competição, ou seja, à volta de 100 nestes patamares da natação. Há ainda espaço para os masters e para a natação artística – em franco destaque nos últimos tempos – cada qual com perto de 35 atletas. O polo aquático, outrora uma grande bandeira do clube, que foi tricampeão nacional entre 2010 e 2012, aguarda agora por melhores dias. “A ocupação é total e o espaço é o que se sabe”, remata Rui Mendonça. 

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