Negócio cozinhado durante a pandemia abre portas à inovaçã

Texto: Rafael Duarte | Fotos: Kátia Viola, in Portimão Jornal nº34


São bolachas de origem americana com um toque francês. É uma mistura invulgar, mas promete fazer parte do dia a dia dos portimonenses. A ‘Le French Cookie’ chegou à Rua João Anes, uma das transversais à Rua Direita, em julho e já angariou muitos fãs.
A receita chega através de um casal estrangeiro que se apaixonou pela região e que agora quer conquistar os algarvios com esta novidade. “Reparámos que a maioria das pastelarias são tipicamente portuguesas e não há tanta variedade. Então trouxemos um conceito diferente. O elemento inovador é a massa comestível, que é preparada para se poder comer crua. Tiramos os ovos e tratamos a farinha antes”, explica ao Portimão Jornal Camille, que, embora não seja a autora destas bolachas, é quem está na origem desta pastelaria.

“O meu namorado Jonty fez estas bolachas, pela primeira vez, como surpresa para o meu melhor amigo. Nós gostámos muito e estávamos sempre a pedir-lhe para as confecionar. Cada vez saía melhor e então decidimos abrir um negócio”, conta a empresária.

Quando Jonty partilhou a sua arte com o público foi um sucesso. No entanto, recorda que, no início, não foi bem assim. “A primeira vez que fiz bolachas foi através de uma receita que li na Internet. Não correu bem. Sabia que podia fazer melhor e, por isso, não gostei. Fiz um pequeno curso online de pastelaria para saber como ligar estes ingredientes. Agora temos a receita final”, descreve.

Receita que se multiplicou para bolachas que podem ser comidas em copo ou numa sandes com gelado e tudo pode ser acompanhado por um batido. “A bolacha de chocolate preto com flor de sal do Algarve é a última novidade e tem saído muito bem, mas vamos experimentar outras. O dobro do chocolate com cacau na massa e chocolate branco em vez de chocolate de leite ou preto”, revela Jonty.

APAICONADOS PELO ALGARVEA pastelaria abriu portas em julho deste ano, mas o casal vive em Alvor desde janeiro de 2020. Camille é francesa e Jonty é inglês, mas mudou-se para França quando tinha 12 anos. Os dois viviam em Chamonix, uma zona montanhosa naquele país.

Ficaram ligados ao Algarve e quem fez a ponte entre os dois países foi Chris, o irmão de Jonty. Isto porque o autor das receitas, “queria aproximar-se do irmão, que vivia em Portimão e era instrutor de saltos de paraquedas. Então, fizemos muitas férias no Algarve e, quando acabei o curso de arquitetura, decidimos ir para Alvor, porque conhecíamos bem” aquela vila, diz Camille.

E não foi preciso muito tempo para se adaptarem. Jonty já surpreende os amigos com o seu nível de português, enquanto Camille está ainda mais avançada depois de ter trocado as aulas de francês por outras de português com uma explicadora.

Passaram do frio para o calor algarvio e essa é mesmo a grande diferença que assinalam. “O clima é totalmente diferente, mas também há semelhanças, porque são dois locais turísticos e, por isso, estamos habituados a esta sazonalidade”, afirma.

É por conhecerem esta realidade que procuraram criar um espaço destinado a quem vive em Portimão. “Os residentes estão a viver tudo no Verão e depois tudo pára para eles. Eu já conheço esse ritmo da sazonalidade e quero combatê-lo”, afirma Camille, que, tendo esse objetivo, decidiu abrir a pastelaria no centro da cidade.

Reconhece que estar num local mais resguardado traz as suas desvantagens, mas explica que as redes sociais ajudam a atrair portimonenses e turistas. Por estarem numa rua apertada por onde passam carros, os clientes habituais até aproveitam para fazer os pedidos sem sair da viatura.

E, por vezes, quando o objetivo é comprar muitas bolachas, nem sequer é preciso sair de casa, porque a ‘Le French Cookie’ aceita e até aconselha a que esses pedidos sejam feitos através das redes sociais.

“O mais difícil para nós, nesta fase, é o facto de nunca sabermos quantos clientes vamos ter durante o dia. Por essa razão, estamos a tentar fazer um número modesto de bolachas e, se for preciso, fazemos mais. Porque são frescas todos os dias”, explicou Camille.

ABRIR UM NEGÓCIO QUANDO MUITOS FECHAMA grande pergunta que se colocou a Camille e Jonty antes de abrirem a pastelaria foi apenas uma: é seguro fazê-lo em altura de pandemia? Mas rapidamente Camille encontrou uma resposta.

“Nós passámos um grande período de tempo sem fazer nada. Tinha acabado o curso de arquitetura e ainda não tinha trabalhado. Entretanto, a minha avó faleceu e recebi algum dinheiro. Então, decidimos abrir um negócio, porque também era um sonho nosso. Sabíamos que estávamos numa pandemia, mas a vida continua. A bolacha é algo do quotidiano e, mesmo em pandemia, as pessoas vão querer sempre algo guloso para comer ou partilhar com os amigos”, argumenta a empreendedora.

Arriscaram e não se arrependem da decisão tomada. “Não sabia como ia ser a reação das pessoas, mas foi uma boa surpresa. O feedback tem sido muito positivo e gosto muito desta relação com os clientes”, reforçou, por sua vez, Jonty.


CAMILLE

Tirou o curso de arquitetura em França, mas não trocou as bolachas pelas maquetas. Além de ajudar Jonty, trabalha com uma associação que pretende fazer projetos em espaços públicos em Portimão. “É muito cansativo, porque trabalho de manhã na arquitetura e depois ajudo-o. No entanto, vale muito a pena e é incrível ter contacto com os clientes”.

JONTY

Revela-se um especialista em bolachas, mas por detrás do avental está um músico. Em França e mesmo no Algarve dava concertos e acabou por deixar os palcos, apesar de continuar com os ensaios. “Quero que este negócio aumente. Esse é o meu objetivo no futuro, mas, antes disso, quero fazer bolachas novas e outras variedades”, declara.

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