Nelson Pacheco: Afinal, o homem pode voar

Texto: Hélio Nascimento, in Portimão Jornal nº31


Subir do solo para alturas incríveis, aproveitar os ventos, as ascendências térmicas e até voar ao lado de águias, abutres e falcões. O Homem sempre desafiou os seus limites e a própria História e continua a fazê-lo e a surpreender, como sucede no caso do parapente, uma atividade de lazer ou de competição que ganha cada vez mais adeptos pelo mundo fora.

O Portimão Jornal foi à procura de tentar perceber as razões deste fenómeno, e, à boleia de Nelson Pacheco, tirou uma conclusão incrível: afinal, o homem pode voar.  

“Iniciei-me no parapente por brincadeira, em 2012. Comecei a voar e ganhei a paixão. Antes, tinha experimentado skydive, que é uma espécie de cair com estilo, mas, quando passei ao parapente, fiquei viciado. Imagine subir e voar com elementos… a primeira sensação que tive até me obrigou a mudar a perspetiva de vida. O homem não voa? Conseguimos voar oito, nove, dez horas. E consecutivas”.

Nelson Pacheco, 37 anos, natural de Portimão, é um livro aberto sobre o tema. Estudioso e aventureiro, passou a fazer do parapente o seu dia a dia, mas não se pense que ‘a coisa’ é só falar e voar. “A minha vida mudou por completo. Ao princípio era brincadeira, depois evolui, mais e mais, e, três anos volvidos, entrei na competição. As pessoas insistiam, dizendo que tinha muito jeito, mas eu sempre a pensar como era difícil e exigente. No primeiro campeonato fiquei nos lugares sessenta. Tinha de estudar muito mais e ter maior conhecimento, perceber as balizas, as coordenadas, o GPS, os ventos diferentes e cruzados e as ascendências térmicas. No ano seguinte obtive o 3º lugar, vi que de facto tinha algum jeito e em 2017 cheguei à seleção. Este ano espero ir ao Europeu e ao Mundial”, algo que não sucedeu em 2020 devido às inúmeras contingências provocadas pela covid-19.
 
“Tiro a asa da mochila, abro-a e descolo”
Nelson trabalhava numa empresa de golfe e viveu sempre ligado ao desporto. “Como em tudo na vida, se queres fazer algo bem feito, tens de fazer uma só coisa. Era um bom funcionário, mas depois, quando comecei no parapente, percebi que já não era a mesma pessoa a trabalhar. Tenho de arranjar forma de me dedicar por inteiro à modalidade, pensei para mim”.

Hoje, faz organizações de grupos, ensina (o curso de piloto de bilugar permite levar passageiros), pratica e está completamente por dentro do ramo, com disponibilidade para ir às competições, algo que antes não sucedia. É que cada prova tem a duração de uma semana e existem aí umas dez por ano.

“A vida passa a voar e não queria atrasar o meu percurso”. Dito e feito: Nelson dedica-se de corpo e alma à modalidade e já tem tempo para treinar dias antes das grandes competições, para “chegar ao nível dos melhores do mundo”.

O gosto pelo desporto e a busca da adrenalina conduziram-no ao parapente. Mas não só. “Sempre gostei de ciências e da proteção do ambiente. O skydive é giro, mas o parapente tem a particularidade de poder ser feito em qualquer sítio. Tiro a asa da mochila que levo às costas, abro-a, descolo e começo a voar. As pessoas olham e olham. Descolamos e estamos a voar com os elementos, com as águias, as ascendências térmicas, o olhar para o chão, a pegada ecológica é zero, enfim, tudo isto é parte integrante do que mais me fez gostar do parapente”, confessa Nelson, sempre pronto a dar exemplos e a explicar como tudo se processa.

Quem faz parapente, garante o portimonense, “usa os elementos sem os gastar”, citando os abutres, que aproveitam as tais ascendências térmicas para subirem no céu sem despender energia. E é também aqui que entra muita da ciência e do estudo necessários. Os ‘gatilhos’ (um comboio, um camião) abanam a terra, as temperaturas mudam, a pressão é maior ou menor e, quando vimos um remoinho no chão, são correntes de ar quente que se libertam e deslocam.

“Se vires abutres a subir, tens de ir ao encontro deles e subir também. No remoinho, o mesmo. Subimos três e quatro mil metros, não se vê o movimento do chão, mas na água, como na barragem do Alqueva, vês melhor e sobes dez metros por segundo numa térmica. Em cada 100 segundos, sobes 1000 metros de altura”, assegura, para espanto do jornalista.

Pendurado num trapo…
O facto de voar rodeado de aves de rapina já levou Nelson a inquirir os especialistas em observação de aves, que “gastam milhares de euros para se aproximarem de um abutre, e nós, lá em cima, com eles ao nosso lado”, o que rotula de “sinergia brutal”, tipo “um homem pendurado num trapo” prender a atenção das águias e afins para um voo em conjunto.

“Não fazemos barulho algum”, acentua, uma vez que as asas – medem entre 14 e 27 metros quadrados – do parapente são fininhas e cortadas a laser. “Só se vê a sombra”, acrescenta.

Transversal ao voo é o estudo de meteorologia específica, “talvez a parte mais difícil”, uma vez que “temos de ler em camadas, numa espécie de gráfico”, e não é só ver se faz vento, porque “precisamos de saber direção, intensidade e em que camadas”.

Em Portugal é permitido subir aos 2950 metros, mas em Espanha já se pode chegar aos 3250. “Não somos pessoas que saltamos das falésias. E somos mais limpos do que a aviação”, exterioriza Nelson, confessando ter mais respeito do que medo quando embarca nesta aventura sem paralelo.

Os voos ocorrem na zona da praia de Cordoama, no concelho de Vila do Bispo, onde a segurança é enorme, embora Nelson não hesite em cancelar alguma atividade se as condições suscitarem dúvidas.

A propósito, vale a pena contar o que lhe sucedeu há pouco mais de um mês, num campeonato em Espanha. “Sou competitivo e quero sempre ganhar. Subo montanhas para estar por cima de todos e quando a prova começa já estou há duas horas a voar, escolhendo o melhor sítio para partir”.

Sempre no limite, Nelson apanhou uma térmica para a linha de golo – diz-se que é golo quando se atinge a linha de meta – e viu-se totalmente dentro de um pinhal. “Devia ter desistido, mas falou mais alto o lado competitivo. Não queria estragar a classificação. Entrei para dentro dos pinheiros e tive de encontrar espaço entre eles, com uma asa de 16 metros quadrados. Consegui aterrar limpinho, sem tocar em árvore nenhuma”.

O sonho de bater o recorde mundial
Nelson Pacheco acredita que mal a televisão consiga filmar – as novas tecnologias caminham para isso – o parapente passará logo a ter mais visibilidade. Em competição “só se vê pontinhos no céu”, e, por falar nisso, há cerca de 30 páginas de texto para respeitar durante as provas, incluindo leis aéreas, terrestres e até náuticas.

Na Seleção Nacional desde 2018, o portimonense aponta ao Mundial, que decorrerá na Argentina, em fins de outubro, mas, para isso, tem de estar no top 200. Para já, integra o grupo de 14 pilotos portugueses com esse desejo e a escolha do selecionador deve acontecer após uma prova de qualificação em setembro, nos Pirinéus.

O sonho é ganhar um Campeonato do Mundo, arranjar patrocínios e bater o recorde mundial, que nesta altura é de 582 km, estabelecido num voo entre o Ceará e a Amazónia.

Praticar parapente não fica barato, reconhece Nelson, disposto a “travar mais uma batalha” no sentido de baixar o preço. Uma asa para iniciação custa entre 2500 e 4000 euros, mais o arnês, o paraquedas, o GPS, o curso, enfim, pode chegar aos seis mil, embora haja material em segunda mão e mais acessível.

Nelson vive quase exclusivamente da modalidade, embora também alugue apartamentos. Verónica, a mulher, está sempre presente e é o seu braço direito num dia a dia ocupado a cem por cento. “Sonho em chegar ali e ali, em bater mais recordes”, e, naturalmente, na atividade quotidiana. Com ligação forte a algumas empresas, o piloto tem uma agenda preenchida, sendo muito procurado para ‘aulas’ a nível de lazer ou aventura, ou, ainda, para ajudar a progredir quem já tem o curso.

“Sou o único super certificado no Algarve”, refere, aludindo também à dificuldade em obter licenças, que “podem demorar três anos, enquanto lá fora se resolve numa tarde”.

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O local predileto para trabalhar, como se disse, é a Cordoama, mas Nelson já voou sobre o Arade. “Posso sair de um barco, devidamente preparado, com um guincho e um cabo conectados, até à descolagem, em que ficamos por nossa conta. Adoraria voar mais em Portimão, mas preciso de autorização de seis entidades. Se uma disser que não… nada feito. Por isso vou mais para a praia de Cordoama, onde funciona bem o vento e também porque obtive a licença de modo mais fácil”.

No meio de touros bravos

Nelson nunca mais esquecerá um dos seus iniciais voos de crosse. Nem o facto de ter chorado quando, pela primeira vez, chegou aos 2700 metros de altitude, “depois de descolar do chão”. Bem, no tal voo, saiu de Castelo de Vide, percorreu 60 km e atravessou para Espanha “num trapo”, como ele gosta de dizer. “Vi um rio e pensei tratar-se de um local seguro para aterrar. Não havia térmica, o sítio era semideserto e a cidade mais próxima distava 30 km. Já no solo, reparei numa vedação, numa casa abandonada e um sujeito a barafustar comigo: ‘És maluco? Não vês os touros bravos!’. Cá para mim, eram vacas”, atira Nelson, com um enorme sorriso a rasgar-lhe a face. O certo é que não houve problemas e ficou a aventura, porque os touros não investiram e até lhe deram tempo para arrumar todo o material na mochila. “Acabei por apanhar boleia do tal senhor, caso contrário só chegaria à dita cidade no dia seguinte. Foi a falta de experiência, reconheço, mas valeu de exemplo e nunca mais aterrei num local tão deserto”. E apesar da boleia, acrescentamos nós, eram já cinco da manhã quando regressou a Castelo de Vide…

O sueco que não anda, mas voa

Verónica, a mulher de Nelson, que acompanhou o trabalho do Portimão Jornal, deixa a pista: “Não queres falar do Aron, o teu amigo sueco?”. A história, que de facto é soberba, dá conta da força de vontade e do incrível poder de superação de um cidadão que aos oito anos teve cancro e ficou paraplégico. Aron Anderson, que já é uma figura pública no seu país, procurou Nelson, há uns meses, para voarem juntos. “Ele faz canoagem, bicicleta e até escalada, além do parapente. Tudo adaptado à sua deficiência, claro. Tinha o curso, mas pouca prática, e queria um piloto local para o ajudar. Vi logo o seu jeito tremendo”, conta Nelson, arrebatado por este exemplo de vida. “Falamos quase todos os dias. O partilhar aqueles voos com o Aron foi marcante. Lá em cima, os dois nas cadeiras… ele não anda, mas voa!”, exclama o portimonense.

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