O amor pelo futebol não escolhe idades

Texto e foto: Rafael Duarte


Para estes jogadores não é altura de pendurar as chuteiras, mas de as calçar. Para poderem competir têm que ter no mínimo 50 anos e há quem já tenha ultrapassado a meta dos 80. O walking football é um desporto que está a crescer em Portugal e o Algarve segue os mesmos passos.

O Farense criou a sua equipa em 2019 e, na atualidade, conta com 43 atletas, numa mistura de várias nacionalidades. Como qualquer modalidade que precisa de competição, esta não foge à regra. Os ‘Leões de Faro’ aproveitam alguns torneios que são organizados no sul do país para arrecadar algumas vitórias, mas pedem a uniformização das regras. A ‘Algarve Vivo’ foi conhecer esta equipa, com espírito jovem, que desafia mais clubes a lhes fazer ‘frente’.

Os primeiros passos
O walking football é um tipo de futebol adequado ao envelhecimento ativo que nasceu, em 2011, na Inglaterra e foi precisamente por intermédio dos ingleses que também chegou ao Algarve.

A comunidade britânica residente no sul do país criou várias associações e acabou por estar na origem da criação do Farense Walking Football. João Reis, capitão da equipa de +50, foi um dos fundadores e conta como surgiu a equipa. “Um grupo de ingleses convidou-me, assim como a outros três amigos, para irmos a um jogo. Achámos piada à ideia, porque fomenta o bem-estar físico e combate tanto o sedentarismo como o isolamento do pessoal sénior. Falámos com o presidente do Farense que aceitou arrancar com o projeto e que nos deu o nome para honrarmos a camisola”. Muitos destes jogadores acompanharam desde sempre o Farense, mas nem todos representaram os ‘Leões de Faro’ e, por isso, têm agora essa oportunidade.

As regras até podem parecer simples, mas não são. Tal como o nome indica, numa tradução à letra de inglês para português, trata-se de ‘futebol a andar’. Assim, neste jogo, não é permitido correr e, caso alguém não resista a essa tentação, sendo apanhado a correr três vezes, é obrigado a sair do campo por dois minutos.

O máximo que os jogadores podem fazer é marchar, porque têm que ter sempre um pé assente no chão. Também só podem dar três toques com a bola e esta não pode subir mais alto que a cabeça. Não há cabeceamentos, contacto físico e roubos de bola por trás.

Os campos têm uma dimensão máxima de 40 por 60 metros. “Não há ‘Maradonas’ nem ‘Messis’. É um jogo muito parecido com o futsal, com muita tabelinha, mas de pé para pé, a andar”, explica João Reis.

“As pessoas pensam que estamos parados no campo, mas um treino de uma hora e meia dá para andar seis a sete quilómetros à vontade”, assegura.
Estes jogadores, que já não caminham para novos, garantem que não há mazelas dos treinos e que estes só lhes trazem benefícios. “Mazelas, às vezes, é no joelho ao qual fui operado ao menisco, mas sinto-me mesmo bem. Já fazia desporto antes como natação e atletismo. Agora dedico-me ao walking football e hipismo, porque não preciso de mais nada. Já são 61 anos e não se pode estragar muito o esqueleto”, explica Luís Curvelo, capitão da equipa +60, que se juntou ao grupo há dois anos e garante não falhar um único treino.

Na mesma equipa de Luís está o jogador mais velho do Farense Walking Football que, aos 76 anos, é responsável por fechar a baliza a ‘sete chaves’. “Sempre pratiquei futsal com amigos. Há mais de 30 anos. Entretanto, surgiu esta oportunidade e aceitei. Aderi, porque me satisfaz o convívio e dá gozo, com os aninhos que tenho, ver que ainda me consigo mexer”, diz entre sorrisos Mário Moura.

“Isto faz-me muito bem, liberta-me bastante. Apesar da recuperação que é muito mais difícil, tudo se consegue acreditando e querendo”, acrescenta. Ainda assim, admite que, por vezes, o corpo falha.

“Tivemos um treino muito puxado. Normalmente acordo às 7h00, mas, no dia seguinte, os meus colegas de equipa ligaram, porque tínhamos de ir para um torneio e deixei-os à espera algum tempo. Eram 8h30 e ainda estava a dormir como um ‘passarinho’. Foi a primeira vez que isto me aconteceu em muitos anos, mas agora estou bem”, confidenciou à Algarve Vivo. Admite que a família ficou surpreendida quando disse que ia calçar as luvas, mas agora estão descansados por ver os resultados positivos.

Quem não mostrou surpresa foi a família de Luís Curvelo. “Já sabem que não estou quieto. O meu filho também jogou futebol, agora está no futevólei e sempre me incentivou”, revela.

Para muitos, este desporto é visto como uma forma de manter um estilo de vida saudável ou de ter oportunidade de competir pela primeira vez. No entanto, no caso de Nelson Silveira, o walking football foi mesmo o realizar de um sonho que parecia impossível. “Pensei que nunca mais podia jogar futebol, porque tenho um problema no pé e não consigo correr. Ora isto veio mesmo a calhar, pois não se pode correr. Jogo futebol e nunca pensei voltar a fazê-lo”, afirma.

Nesta equipa também há ‘camadas jovens’. Luciano Viegas tem 47 anos e ainda não pode competir nos torneios onde a idade mínima é 50, mas treina com a equipa a pensar nessa oportunidade futura. “Estou no projeto desde o início, mas, por enquanto, sou das camadas jovens (risos). Comecei a jogar com 45 anos e, agora, como ainda não posso jogar nos torneios, ajudo na organização. Toda a gente diz que se pudesse já tinha 50 anos, mas assim vou-me preparando para quando esse momento chegar. Nunca joguei futebol na minha vida. Comecei agora e tenho mais três anos para aperfeiçoar”, conta.

Gary Thomas

Normalmente, o respeito deve-se aos mais velhos, mas nestes treinos o respeito é pelo mais novo, que é o treinador da equipa. “Temos uma forte ligação, independentemente da idade. Os treinos são cinco estrelas e eles têm muita disciplina. É verdade que aqui o respeito é pelo mais novo e é costume dizer-se o contrário, mas, para mim, podemos aprender com as pessoas sejam elas bebés ou velhotes. Os mais velhos têm mais conhecimentos e sei que posso aprender muito com eles. A idade é só um número”, explica Sylvain Laurent.

Jogou no Farense e, em França, treinou equipas de formação em Nantes. “É uma nova experiência. São pessoas simples, mas que também têm ideias feitas e mudar-lhes isso não é possível”, afirma.

Mas afinal, qual é a diferença entre trabalhar com miúdos ou graúdos? “Com os miúdos é trabalhar as coordenações. Com eles tenho que ver várias coisas e adaptar a cada jogador, porque cada um tem as suas características. Uns mais táticos, outros mais técnicos. E o trabalho físico é muito importante”, descreve.

Nelson Silveira
João Reis
Luciano Viegas

O prolongamento
Depois de uma hora e meia de treino no campo sintético do Montenegro, em Faro, ainda há tempo para o prolongamento no final. Cada jogador é responsável por levar algo para petiscar ou beber.

“A parte do convívio social é fundamental para que este desporto consiga singrar. Os ingleses costumam dizer que isto é um desporto de cavalheiros, porque também faz parte a sã convivência entre as várias nacionalidades. As pessoas mais velhas em vez de estarem sozinhas em casa estão connosco e isso é importantíssimo. Eles adoram! O convívio não acontece só durante os treinos, porque mesmo sem o termos juntamo-nos. É um orgulho fazer parte desta família”, refere João Reis, enquanto Luciano Viegas confirma.

“Somos mesmo uma família. Tenho uma relação muito mais forte com eles do que com alguns amigos que já conheço há 10 ou 20 anos”, atesta, enquanto Nelson Silveira diz que “a maior parte dos atletas não se conhecia”. “Agora somos todos amigos. Até fazemos negócios juntos. É uma parceria no desporto, na amizade e até nos negócios!”, acrescenta.

Por isso, todos acreditam que esta é uma equipa com pernas para andar. “Quando começámos, às vezes, não tínhamos jogadores suficientes para treinar. Agora quase que temos jogadores a mais e juntamos as mais diversas nacionalidades como um belga, francês, espanhol, americano e até um iraniano. Já conseguimos fazer quatro jogos ao mesmo tempo. Sinto uma evolução e, a nível organizativo, também melhorámos muito. Antes éramos só um grupo de amigos que se juntava de vez em quando e depois decidimos criar uma estrutura”, recorda Luciano Viegas.

“Esperemos que continuemos neste caminho e desejamos, cada vez mais, que o Algarve possa acompanhar-nos com mais equipas, porque isto faz muito bem à saúde”, remata João Reis deixando o apelo para outros grupos de amigos ou clubes.

“O Farense é o único no Algarve que tem esta modalidade oficialmente. Os outros clubes que existem na região são, acima de tudo, associações essencialmente britânicas. Gostava que a Associação de Futebol do Algarve pegasse nesta modalidade, porque temos muitas equipas e gostávamos de ver mais portugueses envolvidos no desporto”, sublinha.

Mário Moura
Luís Curvelo
Sylvain Laurent

O próximo passo
A equipa tem atualmente 43 atletas e promete continuar a crescer. Há apenas um entrave e, por isso, o grande apelo que fazem é o da uniformização das regras. Isto porque, não fugindo às regras básicas, cada torneio acaba por ter os seus critérios, como o número de jogadores em campo ou o tamanho da baliza.

“Gostávamos que a Associação de Futebol do Algarve pegasse no walking football, porque já temos muitas equipas e com essa uniformização ganhávamos todos. Assim também conseguíamos meter mais pernas para andar, pois podíamos criar um campeonato regional como vai ser feito no futebol de praia”. Enquanto essa aposta, fundamental para o desenvolvimento deste desporto, não chega, prometem que vão continuar a caminhar para o golo e a levar o Farense rumo à vitória.

Euro Copa Walking Football

A equipa do Farense Walking Football participou em mais uma edição do Euro Copa Walking Football, um torneio que se realizou em Albufeira, nos dias 25 e 26 de abril. A equipa de +60 ficou em 6º lugar e a de +50 conseguiu o 2º lugar. “É um torneio muito competitivo e os ingleses têm equipas muito fortes. Até têm um antigo jogador do Liverpool”, destaca João Reis.

Além do Farense, há clubes conhecidos no mundo do futebol que já têm o walking football reconhecido como modalidade e participam neste torneio. É o caso do Athletic Bilbao, do Málaga, ambos de Espanha, e o Norwich, de Inglaterra.

“Criámos este torneio há seis anos. No primeiro ano, eram nove equipas, mas o número de inscritos foi aumentando e, este ano, tivemos 30 equipas de quatro países: Portugal, Espanha, Inglaterra e França”, revela Gary Thomas, do Algarve Football Tours, que organiza o evento.

“Estamos a falar de 330 atletas, dos quais muitos têm 79 anos. O mais velho tem 84”, exclama. A verdade é que a organização desta iniciativa traz vantagens para todas as partes. “O walking football começou há sete anos e está a ficar cada vez mais famoso no mundo. É reconhecido como uma modalidade em muitos países pelas federações. Agora acredito que pode ser um torneio de grande impacto, porque estamos a falar de pessoas reformadas que podem viajar e têm tempo. É fantástico para Albufeira por causa do turismo, visto que muitos estrangeiros chegam em abril e consomem nos restaurantes e hotéis. Até o Estádio da Nora, do Futebol Clube Ferreiras, fica a ganhar”.

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