‘Ò Carcaça’ é exemplo de empreendedorismo no ‘street food’

Após vários anos a idealizar o negócio que queriam abrir, Tiago Laginha e Patrícia Cordeiro, sua esposa, avançaram com o ‘Ò Carcaça’ em maio de 2019. Implementaram um conceito diferente, com a venda de sanduiches de diferentes sabores, bem como bebidas e gelados, confecionados em jeito de comida de rua, conceito mais conhecido por ‘street food’. Distinguem-se pela inovação e por utilizarem sabores tradicionais, produtos locais e da época para criar uma ementa apelativa.

“A oferta acaba por assentar em três pilares. As sandes, as bebidas, os gelados. Dentro das bebidas temos os cocktails. E é tudo artesanal. Ao nível das carcaças, temos sempre um menu com cerca de 15 sandes, que podem variar consoante a altura do ano. Trabalhamos com uma carcaça que tem entre 100 e 110 gramas, à qual adicionamos a salada. Depois utilizamos vários ingredientes como o bacalhau, o camarão, a alheira, a muxama de atum para fugir um pouco à tradicional pasta de atum ou frango. Também temos, mas usamos outros conceitos”, descreve o jovem do concelho, que desde sempre reside em Porches.

“Quando abrimos fomos produzindo alguns produtos em função do que os clientes nos pediam e foi assim que nasceram os gelados artesanais. Pegamos na ideia do ‘sacolé’, do Brasil, e começámos a produzir os nossos próprios gelados para ter mais sabores, mais regionais”, acrescentou.
Ou seja, comidas e bebidas que saibam explicar ao cliente, quais os ingredientes usados. “É isso que me faz sentido”, defende Tiago Laginha.

“Quando faço um cocktail tenho de saber o que usei. Trabalhamos muito com marcas algarvias, como licores, produtos que não são muito praticáveis no setor, porque se tornam dispendiosos. No entanto, no meu ponto de vista, temos de saber usá-los também para divulgar o que fazemos cá, no Algarve”, argumenta. Isto porque, na sua opinião, até é possível servir um ‘mojito’, comercializado em qualquer local do mundo, mas também é possível inovar, modificar um pouco a receita e criar um ‘mojito algarvio’. “Em vez de utilizar xarope de açúcar, nós utilizamos um licor. Se o cliente gostar de aguardente de figo, e muitas vezes quando não conhece damos a provar, em vez de usar o rum, que é uma aguardente de cana, usamos de figo, produzida cá”, exemplifica.

Outro exemplo, é a confeção de uma tarte de amêndoa sem glúten e sem lactose. O caso das sandes está a ser estudado para utilização de pão sem glúten, mas é uma medida mais complexa, porque o espaço é pequeno, afinal de contas é uma roulotte, onde todos os milímetros são aproveitados, e os utensílios usados para cada uma das vertentes não se podem ‘cruzar’.

Para servir pessoas intolerantes ao glúten, para já, o que Tiago Laginha e Patrícia Cordeiro fazem é dar a possibilidade de servir o recheio de uma sandes, no cone, como são servidas as batatas fritas.

Formação local
Todos os dias estacionam a roulotte junto ao acesso para a Praia do Carvalho e têm tido uma boa aceitação, mas tudo começou há mais de dez anos.
Tiago Laginha começou a formação na área de bar e restauração, na Escola Jacinto Correia, em Lagoa, tendo frequentado depois a Escola de Hotelaria e Turismo (EHT) de Portimão. Foi lá que conheceu Patrícia, de Bragança, mas a residir há 12 anos no Algarve, com quem viria a casar mais tarde. Foi nessa altura, há cerca de dez anos, que começaram a trabalhar a ideia de ter um negócio próprio.

No entanto, entretanto, foram funcionários nalguns espaços de referência do concelho e arredores, como o Vila Vita, o Vila Lara, Hotel Lagoa, e integraram as equipas de Nuno Diogo, que na atualidade é proprietário do restaurante Bon Bon.

“Com essa bagagem e com a necessidade de estar em algo mais calmo para constituirmos uma família, pensamos abrir um negócio que, dentro da nossa área, desse uma valorização direta para com o cliente e apresentámos um conceito diferente, com horários mais flexíveis” dentro da restauração”, explica Tiago Laginha ao Lagoa Informa.

Há seis anos adquiriram a roulotte, um jipe e estudaram muito, pois este é um conceito para o qual ainda não existe muita informação. “Dirigimo-nos a algumas entidades como a ASAE para perceber quais eram as condições que tínhamos de implementar. Vínhamos da EHT e tínhamos as bases, mas para esta área específica, há diversas normas a seguir. Podemos dizer que temos um pouco mais do que o que pedem”, explica o empresário.

Abriram em 2019 e ainda nem tinham tido tempo de avaliar o primeiro ano de negócio, quando surgiu a pandemia. Hoje, com a retoma, o negócio está a recuperar e a ganhar terreno.

Na carteira de clientes, pela localização, o empresário refere que é um pouco misto, pois tem muitos clientes estrangeiros, mas também alguns portugueses. “Aquela praia é muito frequentada por turistas estrangeiros. É um público mais jovem, devido ao acesso à praia, que tem muitos degraus, mas depois temos muitos praticantes de caminhadas e de desporto que frequentam o percurso dos Sete Vales Suspensos”, refere.

Eventos privados
Não é um trabalho fácil, pois não se trata apenas de confecionar sandes. “Levanto-me cedo, trato das compras, preparo, carrego a roulotte para o local, monto tudo, faço ‘mise en place’, trabalhamos e no fim é o contrário. Limpar, desmontar, carregar para casa e preparar o dia seguinte… Não sou patrão. O patrão é o meu cliente, porque é ele que pede e que paga. Na época alta trabalhamos das 9h00 às 21h00, na baixa das 10h00 às 19h00”, afirma.

Na época baixa, o ‘Ò Carcaça’, pode participar noutros eventos para projetar o negócio, pois a roulotte pode ser estacionada em qualquer local, desde que tenha a devida autorização.

“A convite de um particular, em 2019, estivemos no ‘Black and White’. Foi o nosso primeiro teste logístico. Mais tarde, estivemos na Feira de Natal de Lagoa, nos ‘Trilhos dos Salgados’, em Porches.

Uma carcaça, uma memória
O nome da roulotte e a utilização da carcaça remete para a juventude de Tiago Laginha, que reside em Porches. “Estava habituado a comer quando era novo e levava sanduiches quando ia para a escola. Quando desenvolvemos o projeto, pensámos no que seria fácil, prático de pegar, levar, que não implicava sentar numa mesa para comer, pudesse trabalhar a nível de quente e frio e aliciasse o público, quer fosse num evento ou junto à praia”, descreve. Surgiu a ideia de inovar pelas sandes.

Mais inovações na ‘calha’
Ligando o projeto à infância, Tiago Laginha está a desenvolver outro plano. “Temos a possibilidade de trazer algo diferente, tanto para os turistas como para os residentes. Temos uma burra e queremos desenvolver algo que possa valorizar este animal”, avança.

Rota do Petisco
Um dos estabelecimentos da Rota do Petisco, promovida pela associação Teia D’Impulsos é o ‘Ò Carcaça’. Até 16 de outubro, os interessados podem provar uma carcacinha de camarão alhinho ou a opção vegetariana de carcacinha caponata.


Em parceria com a empresa local ‘Brotherootz’

Instalação de DAE é mais valia para população e turismo

Uma das inovações é a instalação de um Desfibrilhador Automático Externo (DAE) na roulotte. “Tendo em conta o local onde estamos e como estou num meio da emergência pré-hospitalar há sete anos, conseguimos que fosse emitido o certificado provisório, que, em breve, se tornará definitivo, para instalar um DAE”, explica o empresário.

Desde dia 16 de setembro que o equipamento está instalado e que pode ser utilizado numa urgência, por uma das oito pessoas que se formaram e que estão naquela zona todos os dias.

“É um projeto em parceria com a ‘Brotherootz’, uma empresa jovem local que abriu este ano na Praia do Carvalho. Tudo o que temos feito até ao momento é arranjar colaborações para criar alicerces juntos. Não queremos portas fechadas. Um dos projetos em que nos unimos foi este”, refere o empresário.

Conseguiram agora a autorização do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), o que dá a possibilidade de socorrer alguém que necessite. Isto porque, esta é uma zona balnear que não tem apoio de praia nem nadador salvador, mas que é muito procurada, e está junto ao percurso dos Sete Vales Suspensos, muito atrativo para caminhadas.

“Já nos aconteceu ter algumas ocorrências na praia. Tive de inclusive deixar a Patrícia sozinha na roulotte e descer à praia, alertar os colegas do 112. No ano passado houve duas vítimas politraumatizadas, uma das quais prestamos auxílio. No caso da outra os meios chegaram primeiro. Sou socorrista pré-hospitalar e sei que todos os minutos contam”, conclui Tiago Laginha.

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