Opinião: A formatação política de uma nação

Pedro Manuel Pereira | Historiador


A Receita
Etapas para a Formatação da Sociedade

As células familiares das classes inferiores devem ser desintegradas por meio de um processo de aumento de preocupações constantes dos chefes de família, que a prazo conduza a tensões graves nos seus núcleos.

A qualidade da educação dada às classes inferiores deve ser a mais pobre, para que a brecha da ignorância que separa estas camadas da sociedade, das camadas superiores (a elite dominante) permaneça distante e incompreensível da que é ministrada às classes superiores. Esta forma de discriminação social é necessária para manter um certo nível de ordem social, paz e tranquilidade para as classes de nível superior.

A Dependência
A primeira razão pela qual os cidadãos de um país criam uma estrutura política é o desejo subconsciente de perpetuar a relação de dependência das suas infâncias.

Neste sentido, desejam simplesmente que alguém providencial se encarregue de os proteger, providenciar alimento que os sustente, roupa que os cubra e uma cama para dormir, coisas que o político promete quando das acções de campanha eleitoral.

A busca do povo para adquirir estes elementos fundamentais da sua existência acaba assim, projectada no político que lhes promete o irrealizável a troco do simples depósito esporádico de um papel numa urna de voto.

Os cidadãos, conscientemente, sabem que tais promessas não serão cumpridas, mas precisam de ouvi-las porque são elas que lhe alimentam a esperança num futuro incerto que é já hoje.

Assim, neste contexto, afinal quem acaba por mentir mais a quem? O político (seu presumível anjo da guarda) ou os cidadãos?

O comportamento do público é dominado pelo medo por um lado e pelo facilitismo pelo outro. Esta é a base do estado-providência enquanto arma estratégica política útil para um povo com problemas de digestão.

A Ofensiva
A maioria das pessoas gostaria de matar ou banir das suas vidas umas quantas outras que as perturbam, que lhes infernizam a existência no seu quotidiano. No entanto, são incapazes de enfrentar os problemas morais e religiosos que tais acções poderiam desencadear.

Assim, deixam que outros executem por eles tais tarefas ou que, o Divino, se encarregue de extirpar tais abcessos das suas existências.

Deleitam-se, ufanam-se na criação de organizações para a defesa dos animais, esquecendo-se da criação de associações de defesa dos seus semelhantes, que muitas vezes são da sua família ou seus vizinhos.

Da forma mais hipócrita, pagam impostos para financiar uma “associação profissional” de homens relativamente célebres, colectivamente chamados «políticos», deixando que depois a corrupção ganhe raízes.

Responsabilidade
A maioria das pessoas sente necessidade de ser livre para tomar iniciativas meritórias, no entanto, o medo tolhe-as.

O medo do fracasso é manifestado pela irresponsabilidade, delegando as suas responsabilidades pessoais a outros onde o êxito se lhes afigure incerto ou implique obrigações para as quais não se considere apto.

Querem a autoridade, mas não aceitam nenhuma responsabilidade ou obrigação. Por tal facto, encarregam os políticos de enfrentar a realidade em seu nome.

Delegação do Poder nos Políticos
Desta forma, o povo mandata os políticos a fim de que ele possa:
1 – Obter segurança sem ter que organizar-se.
2 – Obter acção sem ter de pensar ou reflectir.
3 – Infligir o roubo, as feridas, a morte a outros, sem ter de contemplar a vida ou a morte.
4 – Evitar assumir a responsabilidade pelas suas próprias intenções.

A Segurança Social
O programa de Segurança Social não é mais que um sistema de equilíbrio baseado num crédito sem fim, que cria uma falsa indústria de capital para dar às pessoas não produtivas um tecto para os cobrir e algum alimento para os estômagos. Este programa pode ser útil, uma vez que mantido permanentemente junto dessa faixa populacional, os beneficiários convertem-se em «propriedade do Estado» a troco de uma pequena doação que lhes permite viver sem trabalhar. Temos aqui, portanto, uma clientela eleitoral de peso.

Em suma: os actuais regimes democráticos mais não representam do que uma pálida imagem do nome por que se intitulam. Urge, reformular o sistema representativo democrático.

Primeiro: porque a representatividade do povo não se esgota nos partidos políticos, depois, porque a crise económica endémica só poderá ser debelada, se houver uma reformulação corajosa que subordine o poder económico ao poder político. Definitivamente.

  • Escrito sem a aplicação do novo acordo ortográfico.

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