Opinião: Guerra

João Reis | Professor


Fiquei consternado quando vi, tal como outros que, como eu, procuravam notícias da malfadada guerra. Aquele puto de 8/10 anos, caminhando só, em passos vacilantes e desequilibrados, por desconhecida estrada, cansado no corpo e na alma, carregando uma mala e um choro de dores e desespero. Fugia às bombas que caíam na sua terra e na sua vida ainda a fazer-se. Mais que outras imagens, esta deixou-me amargurado; fez-me um velho mais triste e apreensivo. Pensei nas filhas e nos netos… Aquele puto deveria estar na escola, rindo, brincando, dando chutos na bola, como fizera semanas antes! E agora???

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Abertura penosa, esta; como o é o artigo. Penoso é também este tempo que perpassa pela nossa Europa. Que bom seria que, à saída desta edição, esta guerra tivesse acabado e, com ela, TODA A GUERRA, EM TODA A PARTE! Seria bom que, por consequência, as televisões deixassem de ‘nos pôr em directo nos teatros da guerra’ que, como telespectadores, não podemos impedir. Resta-nos providenciar auxílio a sobreviventes e refugiados. E, nisso, graças a Deus, os Portugueses não se atrasam… nem precisam lições!

Ouve-se, amiúde, “a guerra é um mal necessário”. UMA OVA!! A guerra é um mal. Ponto final! Necessária, é a PAZ. Duvidam? Perguntem à História e à Literatura. Perguntem aos ‘Soldados Desconhecidos’!

Carl Clausewitz, prussiano, especificava, há 3 séculos: “A guerra é a continuação da política por outros meios”. Tendo sido oficial do exército, profissional da guerra e teórico militar, compreende-se. Mas não temos de concordar. “As guerras não matam apenas vidas inestimáveis. Matam também esperanças e aspirações, congelam ou destroem relacionamentos e conexões”.

Convivo melhor com este pensamento – pacifista – que foi expresso por Arkady Dvorkovich(1), há poucos dias e é demonstrativo de valores bem diferentes de Putins, Estalines, Hitlers, Mussolinis e outros da mesma estirpe, mentes alienadas que mandam matar ou estropiar crianças, mulheres e velhos – civis inocentes e inofensivos – que destroem cidades e campos, instalam a fome, a miséria, a doença e despertam o ódio que há-de gerar outras guerras.

São belicistas, partidários do uso das armas para resolver(?) divergências políticas, ideológicas, económicas; caracterizáveis por ambições desmedidas, desejos violentos de poder e uma insane ausência de escrúpulos. Fazem-se acompanhar por ‘lambedores de botas’ interessados essencialmente nas benesses materiais e financeiras que dali advêm. Chamam a isto ‘Plutocracia’. Prefiro chamar-lhe ‘Canalhocracia’.

Entenda-se que, em vez da guerra, há que recorrer à diplomacia, aos entendimentos, às cedências mútuas. Para isso é preciso que as partes tenham vontade, inteligência e empatia que, infelizmente, TEM FALTADO. A Humanidade precisa, ainda, de muitas gerações, muitas encarnações, muita educação para suprir esta falta.
Mas… tentemos caminhar para lá!

Atente-se, um pouco, à nossa Europa, onde fica a Ucrânia e estamos nós. Após a vitória dos Aliados na II Grande Guerra, os países do ‘Velho Continente’ e do Ocidente, em geral, iniciaram o necessário processo de ‘tratar feridas’, restaurar a Paz e reconstruir fisicamente as regiões mais devastadas por tanta luta. A economia foi relançada com a ajuda do ‘Plano Marshall’, o entendimento entre Nações, com a criação da Nações Unidas.

As dores da guerra começaram a sarar, os governos da maioria dos países (envolvidos ou não nas hostilidades) deram início à recuperação de democracias e da geral tranquilidade e bem-estar que, ao ser continuada, originou a actual União Europeia. Parece, agora, que não terá sido dada, na mesma proporção, atenção a outro importante pilar do desenvolvimento – a segurança.

O ex-presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, admite “Não levámos Putin a sério” e “fomos complacentes”, embora tenha reunido 25 vezes com Putin. Terá havido, pois, uma atitude displicente e uma confiança demasiada que não permitiram perceber os comportamentos bem dissimulados do (quase czar) Putin. Resta-me uma pergunta para a qual ainda não vislumbrei resposta: – Onde estavam e/ou o que fizeram “os serviços de inteligência e de informação”, comumente chamados ‘serviços secretos’??

Alguma esperança é-nos transmitida pelo Embaixador António Monteiro, bom conhecedor do mundo da política, que afirma que o conflito na Ucrânia é “uma guerra de um homem só” e que “Putin deixou de ter futuro”. Deus o oiça!!!

Entretanto, (porque uma resposta armada da NATO à Rússia será impensável, pelos efeitos) resta-nos enaltecer o valor, o patriotismo e a coragem demonstrados pelos UCRANIANOS. VIVAM!!!

(1) Vice primeiro-ministro da Rússia de 2012 a 2018, com Medvedev que precedeu Putin na Presidência.

  • Escrito sem a aplicação do novo acordo ortográfico.

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