OPINIÃO | ‘O ESTUDO DA NAÇÃO’

João Reis | Professor, in Lagoa Informa nº184


“Passando os olhos pelas notícias, leio que “as faltas por dores menstruais desceram à especialidade” no Parlamento. Ora aqui está uma prioridade nacional”.
(Clara Ferreira Alves – jornalista e escritora)

A NAÇÃO não é uma entidade abstracta. Pelo contrário, é tão concreta como concretos são os indivíduos que a compõem – com as mesmas história e tradições, as mesmas língua e aspirações. Na nossa Nação – a Portuguesa – chamamo-nos ‘POVO’. Povo que sabe respeitar todos e quer, igualmente, por todos ser respeitado – incluindo os que O governam – com os nossos defeitos e com as nossas virtudes que, por vezes se confundem: o conformismo, a paciência, a confiança e a resignação, por exemplo, são tidas como nobres virtudes que, se exageradas, passarão a malquistos defeitos que nos fazem pender, irremediavelmente, para a indiferença, o desleixo, o ‘deixa-andar’, o ‘seja o que Deus quiser’.

Ora, esta nossa querida Nação teve o seu estado debatido e pretensamente analisado no Parlamento, há umas semanas. Não trouxe novidades. É a minha modestíssima opinião, mas alinhada com a de reputados comentadores da Comunicação Social. Mas serviu para que o Dr. Costa se reafirmasse como um competentíssimo “Advogado de Defesa” do seu Governo e de alguns dos seus Ministros. Se, por desdita, eu vier a precisar de advogado que me defenda, quero contar com um daquela estirpe – inteligente, ágil na retórica, astuto, de fácil oração, habilidoso, sagaz.

O Dr. Costa respondeu às perguntas dos Deputados e deu explicações, apresentou justificações, prometeu, ressalvou, deu desculpas. Declinou responsabilidades, endossando-as às mudanças climáticas, à pandemia da Covid-19 e derivados, à guerra na Ucrânia, à Troika, às medidas de Passos Coelho e, para ser actual, à cavalgada da inflação e ao aumento das taxas de juros determinado pelo Banco Central Europeu. Em suma – os “nossos azares” devem-se todos a factores exteriores ao Governo e ao País.

MAS, se o Governo requer um “advogado de defesa”, aos eleitores interessará uma mais cuidada observância do que a Nação precisa para sair desta impertinente “cepa-torta”. Isso implica – obriga, até – a reformar, modificar, reformular, refazer, reorganizar, restaurar. Todos estes verbos querem dizer o mesmo; não há como enganar – mas é preciso QUERER e/ou SER CAPAZ. Pois bem! “O poder é”, segundo o Professor Viriato Seromenho Marques, “a capacidade de mudar o curso dos acontecimentos”.

Ora, este Governo tem condições e meios para tal rasgo – tem uma maioria absoluta no Parlamento; tem uma equipa governamental de cinquenta e cinco pessoas (1 Primeiro- Ministro, 16 Ministros, 38 Secretários de Estado, não sei quantos conselheiros); conta com uma impressionante ‘bazooka’ de Fundos Europeus (coisa nunca vista!); tem a atávica passividade do Povo e a actual fraqueza das oposições. O que é que, então, lhe falta? Falta, decididamente, UM PROJECTO PARA O PAÍS; um Projecto a longuíssimo prazo, que dure muito mais que um Governo, muito mais que uma Legislatura; um Projecto aglutinador dos Partidos e Deputados, estes, que devem ser, VERDADEIRAMENTE, representantes da Nação que somos.

Chamei a este artigo ‘O ESTUDO DA NAÇÃO’. Este Estudo nunca foi feito, mesmo quando o Presidente Ramalho Eanes o aconselhava. Como Salgado Zenha o sugeria e o Presidente Jorge Sampaio o fez, também. Reformar é difícil e impõe coragem. Que não houve.… Mas é sobre o resultado desse ESTUDO que terá de assentar aquele PROJECTO. E é aí que a Sociedade Civil deve (tem de) ser ouvida, uma vez que, algumas das suas organizações, têm realizado valiosos trabalhos em matérias desta área.

Destaco: a SEDES – Associação para o Desenvolvimento Económico e Social, que tem por Presidente, reeleito há um mês, o Dr. Álvaro Beleza e, por Vice-Presidente, o Dr. Miguel Poiares Maduro – nomes que, entre outros, garantem a dimensão e a qualidade das tarefas em que a SEDES se envolve; a FUNDAÇÃO FRANCISCO MANUEL DOS SANTOS, que mantém agendas de debates, palestras e entrevistas, na NET e na RTP, e edita, com regularidade, livros sobre temas candentes do nosso País e da nossa sociedade; a FUNDAÇÃO OCEANO AZUL, consociada da anterior, bem virada, com Tiago Pitta e Cunha, dos melhores especialistas do mundo, para o conhecimento do mar, da sua protecção e sua economia; a FUNDAÇÃO JOSÉ NEVES, com um muito especial evento denominado ‘Estado da Nação’, conta com a colaboração de figuras do nível do Dr. António Horta Osório; está mais vocacionada para os problemas da EDUCAÇÃO, sector bem carenciado de reforma. Nenhuma destas organizações tem fins lucrativos.

Se o PM António Costa tiver coragem para levar a cabo tal PROJECTO, seguramente a História de Portugal o colocará ao nível de D. João II e do Marquês de Pombal, ambos profundamente reformadores do País.

Permitam-me um final mais auspicioso, facultado pelo Ministro da Cultura, Adão e Silva, um curto extracto da abertura do debate ‘O Estado da Nação’: “…o momento que atravessamos dá-nos grande clareza sobre as tarefas principais. Temos de modernizar o País e proteger as pessoas e precisamos de fazer estas duas coisas, ao mesmo tempo…” Oxalá, Sr. Ministro! Oxalá!! As mudanças para a modernização têm hora marcada – É AGORA! Até para acompanhar o MUNDO que, como se vai percebendo, também está em rápidas alterações. E também para impedir que aventureiros extremistas, de uma banda ou d’outra, tomem conta do País.

Pensem de facto, na NAÇÃO. NOSSA, DE FACTO!!!

Artigo escrito sem a aplicação do novo acordo ortográfico.

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