Uma teia de impulsos e projetos que nasceu há 10 anos

Texto e foto: Jorge Eusébio

in Portimão Jornal nº 26


A iniciativa de criar a Teia D’Impulsos partiu de “um grupo de amigos, que queria colocar em prática algumas ideias e projetos, numa altura em que não havia muita coisa interessante no concelho”, diz o seu presidente, Luís Gonçalves.

E foi logo no primeiro ano de atividade que se avançou com uma iniciativa que haveria de tornar-se uma das suas imagens de marca mais fortes, graças ao sucesso que teve: a Rota do Petisco.

Curiosamente, recorda, foi uma ideia que resultou de uma deslocação a Espanha, por parte de um dos elementos da associação, Nuno Vieira. Aí participou na Rota das Tapas e achou que seria um bom conceito para ‘importar’.

Uma vez aprovada a sugestão, a equipa saiu para a rua, com a missão de convencer o maior número possível de empresários da restauração a ‘embarcar’ no projeto.

Talvez por na altura se estar a atravessar uma fase de grande crise económica, a adesão foi relativamente fácil e na edição inaugural já participaram 31 estabelecimentos.

Entre as dúvidas e a ‘invasão’
Contudo, nem todos estavam convictos de que o evento ia ser um sucesso. Luís Gonçalves lembra-se de, na véspera do arranque, uma empresária da cidade se mostrar muito cética em relação à possibilidade de um número relevante de pessoas aderir à iniciativa.
Mas, no dia seguinte, “ligou-nos, muito aflita, a dizer que tinha uma autêntica ‘invasão’ de clientes à porta do seu restaurante para participar na Rota e que não estava preparada para receber tanta gente”.

O que acontece é que “como ainda não conheciam o conceito da Rota, as pessoas acharam que tinham de começar pelo estabelecimento que estava referenciado como o número 1, que era o dessa empresária. Deslocámo-nos lá e explicámos que não havia uma ordem pré-definida e que podiam ir a qualquer um dos estabelecimentos que constavam da lista”.

O sucesso inicial continuou ao longo dos anos, ao ponto de, a partir de certa altura, “começarmos a receber pedidos para alargar a Rota a outros concelhos”. Isso acabou por ser feito, contra a vontade de alguns participantes de Portimão que “receavam perder clientela por passar a haver mais oferta”.

Um receio que acabou por se revelar infundado, pois “embora algumas pessoas do concelho também começassem a dar um saltinho a restaurantes de outros concelhos, houve muito mais gente de fora de Portimão que aqui veio”.

Impacto económico superior a 4 milhões de euros
No final de cada Rota do Petisco, diz o diretor-executivo da Teia D’Impulsos, Luís Brito, “fazemos inquéritos e pedimos às pessoas para nos darem a sua opinião sobre como a edição correu e sugestões para, eventualmente, serem incorporadas nos anos seguintes”.

Esse feedback tem contribuído para a evolução do evento e a integração de outras Rotas paralelas e complementares, de que se destaca a Solidária, que consiste na entrega do valor da compra do Passaporte a instituições de apoio social.

Ao longo dos últimos seis anos, dizem os dois dirigentes da Teia, com visível orgulho, “conseguimos, por esta via, angariar 126.000 euros e apoiar um total de 63 projetos sociais”.

Também muito positivo é o balanço que fazem relativamente a dois dos principais objetivos iniciais: trazer as pessoas para a rua e apoiar a economia local. Ao longo de uma década foram servidos mais de milhão e meio de petiscos, o que teve um impacto económico direto superior a 4 milhões de euros.

Nesta altura já se prepara a 11ª edição da Rota do Petisco que deverá abranger 11 concelhos. Até ao final do mês estão abertas as inscrições dos estabelecimentos e o evento decorrerá entre os dias 10 de setembro e 10 de outubro.

A falar é que a gente se entende
Outra das iniciativas que contribuiu para que a associação se tornasse conhecida foi a Teia D’Ideias. Trata-se de um conjunto de tertúlias temáticas que teve como base a Casa Manuel Teixeira Gomes, mas que passou, também, por outros espaços da cidade, até que a pandemia obrigou a que se tornassem virtuais.

O turismo de cruzeiros, a segurança em Portimão, o empreendedorismo e a revitalização de Portimão foram alguns dos temas tratados.
No que diz respeito a debates e espaço de troca de ideias, há também a destacar, entre 2016 e 2019, a realização das Jornadas do Arade. Foi uma iniciativa em que se promoveu o encontro e o diálogo entre responsáveis políticos, sociais, económicos e culturais dos concelhos da Bacia do Arade.

Diálogo é, de resto, uma das palavras que, segundo estes dois dirigentes, melhor define a filosofia da Teia D’Impulsos. Desde logo, a nível interno, pois são realizadas, de forma regular, reuniões entre toda a equipa, quer para debater e tomar decisões sobre novos projetos, quer para operacionalizar os que já fazem parte do ‘calendário’ anual.

O diálogo envolve também entidades e pessoas externas, de forma a, diz Luís Brito, “ser possível obter sinergias e fazermos autênticos milagres que não seriam possíveis se apenas utilizássemos os nossos próprios meios”.

Organização de Campeonato Mundial é objetivo
Só dessa forma foi possível, por exemplo, desenvolver o projeto Vela Solidária. A ideia surgiu em 2010, ainda antes da formação da associação. Nesse Verão “colaborei com a Câmara nas férias desportivas que possibilitaram que crianças de instituições de apoio social da cidade andassem, pela primeira vez, num barco à vela e todas adoraram”.

No final, “embora satisfeito com a experiência, fiquei com um amargo de boca, pois sabia que, em condições normais, aqueles miúdos muito dificilmente voltariam a ter uma experiência do género”.

Com a constituição da Teia e o apoio do Iate Clube da Marina de Portimão e de diversas empresas e entidades foi, então, possível avançar com a Vela Solidária que tem como uma das suas vertentes mais importantes a Escola de Vela Adaptada que “possibilita a prática da modalidade a pessoas portadoras de deficiência”.

Na vertente da competição, foram realizados dois Campeonatos Nacionais da modalidade, que correram muito bem e que permitiram à Teia ir mais longe e organizar, em 2019, o Campeonato da Europa de Vela Adaptada. No próximo ano será responsável pelo 1º Campeonato Ibérico de Vela Adaptada e o objetivo seguinte será organizar um Campeonato Mundial.

A vertente solidária da Teia passa por diversas outras iniciativas, como o FICA – Férias Inclusivas para a Comunidade Algarvia, DAFA – Desporto e Atividade Física Acessível; À Bola para Ajudar ou HOPE. E na calha estão mais iniciativas, especialmente ao nível do apoio às pessoas com deficiência e aos cuidadores informais.

Dinamização da cidade
A Teia D’Impulsos está instalada, desde 2016, no Espaço Raiz, que funciona na antiga Escola Primária da Pedra Mourinha.
Para além de ser a sua sede e base logística, “também recebe iniciativas e eventos de entidades parceiras, ao nível do teatro, ballet, yoga, pilates, capoeira, bem como diversas ações de formação e de aconselhamento”, adianta Luís Gonçalves.

É a partir desse espaço que estão a ser preparados novos projetos, como um de dinamização do centro da cidade, que vai ser levado a cabo com a Câmara e diversas outras entidades parceiras.

A associação parece estar em constante ‘desassossego’ e como se não bastassem as muitas áreas a que já está ligada, recentemente também decidiu acrescer uma outra, a ambiental.

Nesse âmbito já foi iniciado um conjunto de ações de limpeza da orla costeira à volta do rio Arade, a que se vão juntar sessões de sensibilização nas escolas e junto de empresas.

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