Visita oficial reaviva laços de amizade entre Lagos e Alcácer Quibir

Liderada por Mohamed Simou, presidente do Conselho Municipal de Ksar El Kebir (Alcácer Quibir), uma comitiva de representantes dos órgãos do município de Alcácer Quibir e da província de Larache, assim como dos setores da Cultura, Património, Artes, Educação, Atividades Económicas e Turismo, está, pela segunda vez, na cidade algarvia, em visita oficial a convite da Câmara Municipal de Lagos, para reavivar os laços de amizade que ligam as duas comunidades.

Do programa desenhado para o efeito, destacam-se os momentos de cariz protocolar e maior simbolismo institucional ontem decorridos, os quais tiveram inicio com uma sessão solene, realizada no Edifício Paços do Concelho Séc. XXI, que contou com a presença de José Alberto Alegria (Cônsul Honorário do Reino de Marrocos no Algarve), em representação de S.E. o Embaixador do Reino de Marrocos em Lisboa, e de Bruno Inácio, Vice-Presidente da CCDRAlgarve para a área da Cultura, onde não faltaram os sons da música portuguesa (com Fados interpretados por Helena Candeias) e da música marroquina (pela voz de Rachid Bouasria).

Coube a Frederico Mendes Paula, Chefe da Equipa Multidisciplinar de Projetos Estratégicos para o Centro Histórico de Lagos e principal dinamizador do plano de ação da geminação, enquadrar a sessão e apresentar as principais atividades realizadas, destacando o projeto para a criação do Centro de Interpretação de Alcácer Quibir, em solo marroquino, no local onde o Rei D. Sebastião esteve primeiramente sepultado durante quatro meses, entre outras iniciativas relacionadas com o estudo e divulgação do património.

Hugo Pereira, presidente da Câmara Municipal de Lagos, assinalou a presença, na sessão, da sua antecessora no cargo, a então presidente Maria Joaquina Matos, cuja vontade política foi determinante para esta aproximação institucional, recordando as visitas e encontros oficiais realizados desde 2018, primeiramente em Alcácer Quibir, para a assinatura do Acordo de Geminação, depois em Lagos, em outubro do mesmo ano, onde o Protocolo foi ratificado,  e novamente em Alcácer Quibir, em 2019,  para a inauguração da Avenida Lagos. A pandemia veio, segundo o autarca, condicionar o ritmo dos trabalhos, os quais foram retomados em 2025, com a criação de uma escultura evocativa da geminação e a atribuição do topónimo Avenida de Alcácer Quibir a uma artéria da cidade de Lagos, testemunhos da amizade que se foi construindo e que agora eternizam a relação entre as duas comunidades.

Por sua vez, o homólogo marroquino, Mohamed Simou, visivelmente satisfeito pelo retomar dos contactos, sublinhou o incentivo subjacente ao apoio que o Acordo de Geminação e os projetos associados têm merecido por parte do Rei Mohammed VI e do Ministro da Cultura de Marrocos, informando que o edifício onde, no século XVI, esteve sepultado o monarca português falecido na batalha, alberga atualmente uma exposição sobre o património português em Marrocos e a herança cultural dessa presença. Grato pela solidariedade manifestada pelo município de Lagos aquando das recentes inundações provocadas pelas chuvas intensas que assolaram a província de Larache no nordeste de Marrocos, com especial gravidade na localidade de Ksar El Kebir, obrigando à evacuação de cerca de 85% da população, Mohamed Simou sublinhou que a relação entre o povo marroquino e o povo português é uma relação forte, evidenciada no crescente número de projetos desenvolvidos em parceria, como é o caso da organização conjunta de Portugal/Espanha/Marrocos para o Mundial de Futebol de 2030 ou a participação de Portugal como país convidado de honra no Salão Internacional de Agricultura de Marrocos 2026, um dos maiores eventos agrícolas do mundo que decorre este mês em Meknes.

Quem também usou da palavra foi Abdelhakim El Ahmadi, presidente do Conselho Provincial de Larache, para quem a ligação à história e herança cultural deve ser alargada a outros projetos, nomeadamente de âmbito turístico, para que a relação de amizade existente possa gerar resultados práticos e contribuir para a economia local. Nesse sentido, sugeriu a troca de experiências entre técnicos e estruturas oficiais, assim como entre escolas e jovens estudantes, reiterando o apoio do governo da província de Larache aos projetos a desenvolver em parceria. 

José Alberto Alegria, Cônsul Honorário de Marrocos no Algarve, salientou e elogiou os três principais aspetos a reter desta relação de amizade: a continuidade, que tem permitido atravessar e sobreviver a vários ciclos políticos autárquicos; o mérito desta fórmula de cooperação descentralizada, que aproxima mais as pessoas; e o contributo que dá para aprofundar o conhecimento do outro, nomeadamente nas escolas, no desporto e através do turismo.  Por fim, defendeu também a concretização da ligação marítima regular entre Marrocos (Tânger) e Portugal (Algarve/Portimão), uma operação que já chegou a ter data marcada para arrancar. 

Em representação da CCDR Algarve, Bruno Inácio aludiu a Alcácer Quibir como um dos locais que mais vive no imaginário dos portugueses, associado ao mito do Sebastianismo, considerando “particularmente relevante que de um evento letal com muitos mortos envolvidos tenha nascido, séculos depois, uma relação de amizade, sobretudo à luz do atual quadro internacional tão tenso”. Acompanhando o desejo de que estes eventos sejam não apenas institucionais, mas possam envolver outros setores, resultando em momentos colaborativos concretos, o vice-presidente da CCDR Algarve, recordou que a internacionalização é a prioridade definida pela tutela para a Cultura, existindo linhas de financiamento para projetos no contexto da União Europeia, e defendendo, igualmente, que possam existir apoios para a colaboração cultural com países terceiros, como é o caso de Marrocos.

O dia terminou com o descerramento da placa toponímia “Avenida de Alcácer Quibir” atribuída a uma das principais artérias de acesso à cidade de Lagos e, no mesmo local, com a inauguração do monumento comemorativo da geminação entre os dois municípios. Presente na cerimónia, Pedro Correia, autor da obra, explicou o significado desta peça abstrata, a qual simboliza os dois exércitos que se defrontaram na batalha e, simultaneamente, as duas cidades agora unidas, sendo que as duas partes da escultura de mármore, aplicada em base de pedra calcária, embora semelhantes, não são totalmente iguais, complementando-se, tal como acontece com os povos, cuja diferença cultural importa reconhecer e respeitar.

A comitiva marroquina permanece em Lagos até dia 11 de abril, cumprindo um programa que integra visitas à cidade e a museus. 

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