“Desde janeiro, já ocorreram mais de 20 acidentes na EN125 só no concelho de Vila do Bispo”

CAM00227

“É urgente que os responsáveis procedam ao reforço da sinalização desta via, sob pena de proliferarem os acidentes para quem por aqui circule, em especial nas rotundas em construção” na EN125, apela em entrevista a Algarve Vivo o comandante dos Bombeiros Voluntários de Vila do Bispo, José Pedro, de 56 anos e em funções desde janeiro de 2015. Em tempo de aumento do risco de incêndios rurais e florestais, diz que existem terrenos privados neste concelho onde a vegetação e o mato já atingem dois metros de altura e insiste para que os seus proprietários os limpem. “As pessoas só se lembram de Santa Bárbara quando troveja”, lamenta. Bombeiro há 12 anos, aponta como outra preocupação da sua corporação o desgaste do material de salvamento em grande ângulo, nomeadamente cabos, para resgate de vítimas em quedas nas falésias. Mas deixa outros avisos.

José Manuel Oliveira

Como está a decorrer este Verão em termos de incêndios florestais no concelho de Vila do Bispo?

No que tange aos incêndios florestais no concelho de Vila do Bispo, tem sido um ano de alguma acalmia. Aliás, como têm sido os últimos anos, devido ao facto de as temperaturas, nestes meses do ano, não serem muito altas e a humidade relativa do ar ser tradicionalmente elevada.

Os Bombeiros de Vila do Bispo estão preparados ao nível de meios humanos, viaturas e equipamento para enfrentar fogos florestais, ou sentem lacunas?

Lacunas há sempre. Como qualquer comandante de bombeiros, gostava de ter a vida facilitada com muitos meios humanos e materiais. No entanto, a realidade é sempre diferente do ideal. Dentro do possível estou satisfeito, apesar de alguns setores estarem mais pobres de material, ou melhor, o material estar no limite de vida útil, como é o caso do material de resgate em grande ângulo, nomeadamente os cabos de resgate em falésia.

Mas os terrenos rurais e florestais estão limpos, ou há problemas nesse âmbito?

No que concerne à limpeza dos terrenos em meio florestal, é um problema que acaba por ser transversal a todo o país e que no concelho de Vila do Bispo não é exceção. Como se costuma dizer, “as pessoas só lembram de Santa Bárbara quando troveja” e por vezes essa atitude dá mau resultado. Existem terrenos privados com muito mato e muita vegetação. Recentemente ocorreu um foco de incêndio numa zona onde havia mato até ao nível do telhado de uma casa, com cerca de dois metros de altura.

São necessários, pelo menos, mais 800 metros de cabos para a equipa de resgaste em grande ângulo dos bombeiros salvar vítimas de quedas nas falésias

Para quando a aquisição do material destinado à equipa de salvamento em grande ângulo nas falésias? E que tipo de equipamento em concreto é necessário?

Como já referi, a minha maior preocupação é justamente o material de salvamento em grande ângulo, concretamente ao nível dos cabos. Embora a Junta de Freguesia de Vila do Bispo nos tenha oferecido 400 metros de cabo para resgate, o que veio minimizar esta lacuna – e quero publicamente manifestar o meu agradecimento – ainda assim para a suprimir totalmente são necessários, pelo menos, mais uns 800 metros. Dada a altura das arribas, a morfologia associada e a complexidade das manobras a que estamos sujeitos para que o socorro se efetive com a segurança que se exige, são precisos, na maioria dos casos, 1200 metros de cabo divididos nas várias linhas de resgate.

Estamos a falar em falésias com verticalidades, muitas delas, superiores a 100 metros, o que na prática ascendem aos 150 ou 200 metros de rampas. Nesses locais, defrontamo-nos frequentemente com dezenas de metros em total suspensão. Por este motivo, todo o material de suspensão tem de estar dentro dos parâmetros de segurança totalmente garantidos para o efeito. O equipamento de que a equipa de salvamento em grande ângulo dos Bombeiros de Vila do Bispo dispõe já tem dez anos. Esta situação de desgaste representa um risco para os operacionais que descem às falésias e para as vítimas que tentamos socorrer.

Há dias, foi necessária a intervenção de um helicóptero da Força Aérea Portuguesa para resgatar um pescador lúdico numa falésia com mais de cem metros de altura, devido ao estado em que se encontrava a vítima e por ser menos agressivo para esta ser socorrido por um meio aéreo.

Quais são as zonas com falésias que suscitam maiores preocupações e que conselhos deixa às pessoas?

De uma forma geral, toda a costa do concelho de Vila do Bispo apresenta falésias com elevado risco, dada a elevada altura e a morfologia do terreno que a caracteriza. No entanto, as falésias da costa norte até ao Cabo de São Vicente são mais problemáticas por serem mais altas e mais procuradas pelos pescadores lúdicos, em especial na época do sargo. Aventuram-se em locais de acesso difícil, o que por vezes acaba em desastre. Por este motivo, aconselho todas as pessoas para que tenham cuidados dobrados quando se abeirarem destas falésias e que pensem que um sargo não vale uma vida.

“Provavelmente só os responsáveis é que não reparam” no estado da EN268 em Sagres

E como avalia o estado da EN268, à entrada e saída de Sagres, que tanta polémica tem suscitado? O aumento da afluência turística neste Verão acarreta mais problemas nesta zona?

No que diz respeito a esse troço da EN268, está à vista de toda a gente e penso que dispensa comentários. Provavelmente só os responsáveis é que não reparam nisso. Outro fator que me preocupa é justamente o aumento do fluxo de trânsito, as obras nesta zona da EN125 e a deficiente sinalização. É urgente que os responsáveis procedam ao reforço da sinalização desta via, sob pena de proliferarem os acidentes para quem por aqui circule, em especial nas rotundas em construção. Temos tido muitos acidentes nestes locais, inclusive um mortal com um motociclista na rotunda de vale de Boi, pela deficiente sinalização.

Mas existem outras zonas perigosas, como por exemplo a de Budens. Desde o mês de janeiro até esta altura do ano já ocorreram mais de duas dezenas de acidentes rodoviários na EN125, com danos materiais em viaturas, no concelho de Vila do Bispo.

Que outros alertas pretende lançar em relação a outras zonas do concelho? Onde existem mais perigos e porquê?

Gostaria de deixar o alerta para quem trabalha ou circula nas zonas rurais ou florestais: tenham muito cuidado com o uso do fogo, não facilitem e por favor limpem os vossos terrenos.

Qual o número de bombeiros de que dispõe? É o ideal ou faltam meios humanos?

Este Corpo de Bombeiros dispõe de 44 elementos no quadro ativo, estando a decorrer a formação de uma turma para novos operacionais. O ideal seria conseguirmos atingir os 60 a 90 bombeiros no quadro ativo.

E as viaturas existentes são as necessárias?

A esse nível, poderemos considerar que a situação é, como se costuma dizer, mais ou menos. Houve aquisição de veículos.

You may also like...

Deixar uma resposta