Elidérico Viegas (AHETA): “Aumenta procura no fim-de-ano com unidades turísticas perto dos cem por cento”

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A ocupação, sobretudo com famílias portuguesas, e os preços sobem cerca de dez e três por cento em média, respetivamente, face a 2014, aproveitando o facto de a passagem de ano coincidir com um fim-de-semana prolongado. Um casal pode pagar, por exemplo, 120 euros por dia num hotel de cinco estrelas, com alojamento, refeições e ‘reveillon’ incluídos. Já o aluguer de um apartamento para duas pessoas por três dias ascende a cem euros. Em entrevista ao site da revista Algarve Vivo, Elidérico Viegas, presidente da direção da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve, faz um balanço sobre este ano, revela que as previsões apontam, em 2016, para um crescimento de “4 a 5 por cento nas taxas de ocupação e 7 a 8 por cento no volume de negócios” e deixa vários recados. Isto, numa altura em que nesta região estão encerradas cerca de duzentas unidades, entre hotéis, apartamentos e empreendimentos turísticos, enquanto o número de desempregados atinge os 20 mil, a maioria afeta ao alojamento e à restauração.

José Manuel Oliveira

Que balanço faz sobre o ano turístico de 2015? Foi melhor, igual ou superior ao anterior, e porquê?

O balanço é positivo, embora aquém dos números registados no passado, ou seja, nos anos anteriores à crise. A taxa média de ocupação rondou os 60 por cento, cerca de 5 por cento superior ao ano anterior. Realce para o facto de o volume de negócios ter subido acima das taxas de ocupação (+7,5 por cento), o que indicia uma recuperação dos preços praticados, esmagados pela crise em anos anteriores.

Este crescimento, no entanto, deve ser considerado mais conjuntural do que sustentado, atendendo a que as principais razões resultam da instabilidade política e social dos principais destinos concorrentes e na desvalorização do euro face ao dólar e à libra esterlina. Estima-se que dentro de três anos poderemos atingir o ponto crítico, a partir do qual as empresas poderão começar a rentabilizar os investimentos efetuados e os empresários a influenciar e a gerir a política de preços. Constitui alguma preocupação o facto de, por exemplo, o número de britânicos a viajarem para o exterior ter aumentado 8,6 por cento em 2015 e o Algarve ter registado uma subida de apenas 4,1 por cento.

Como será a ocupação na passagem-de-ano? Em média, quanto poderá custar uma dia de alojamento nesta altura do ano?

As perspetivas apontam para um aumento da procura no fim de ano na ordem dos 10 por cento, designadamente por parte de turistas nacionais, havendo unidades hoteleiras e empreendimentos turísticos com taxas de ocupação próximas dos 100 por cento. O Algarve é um destino turístico escolhido preferencialmente por famílias, quer nacionais quer estrangeiras.

Em que zonas haverá mais turistas?

Os turistas distribuem-se pelas diferentes zonas geográficas do Algarve e diversas categorias de estabelecimentos de uma forma mais ou menos equilibrada, sendo de reconhecer que as mais vocacionadas para receber turistas nacionais são também as que registam maior procura nesta época do ano, com especial destaque para o sotavento, incluindo Albufeira e Vilamoura. As zonas geográficas que concentram maior número de camas são também as que atraem um número maior de turistas.

E quais são os preços, em média?

A oferta de alojamento do Algarve é muito diversificada. Há preços para todos os gostos e carteiras, tendo subido à volta dos 3 por cento em média face ao ano anterior. Por exemplo, numa unidade hoteleira de cinco estrelas o alojamento com refeições e ‘réveillon’ para duas pessoas pode custar 120 euros por dia. Mas também existem preços mais reduzidos, de 80/90 euros. É variável. Já o alojamento num apartamento turístico pode custar cem euros por três dias para duas pessoas.

O facto de o fim de ano coincidir com um fim-de-semana alargado, vai permitir estadias mais prolongadas e, por conseguinte, taxas de ocupação mais altas e receitas mais elevadas.

Nesta altura do ano, os turistas nacionais são os mais numerosos, representando mais de 50 por cento do total, seguidos dos britânicos (30 por cento), holandeses (8 por cento) e irlandeses (5 por cento).

Disse-nos recentemente que cerca de 50 por cento das unidades turísticas do Algarve encerram durante a denominada época baixa, de outubro/novembro até fevereiro/março. Quantas se encontram fechadas, em que zonas se situam e quantos trabalhadores ficam ao longo destes meses no desemprego?

O número de estabelecimentos encerrados durante a estação baixa deverá rondar os 50 por cento, apesar de haver algumas unidades que reabrem apenas para a passagem do ano, voltando a encerrar novamente até à Páscoa, altura em que se inicia a época turística.

Há cerca de duzentas unidades encerradas, nomeadamente entre hotéis e apartamentos turísticos. Este fenómeno abrange o Algarve como um todo, embora seja mais evidente em toda a zona do barlavento. O número de desempregados no Algarve atinge cerca de 20 mil trabalhadores, sendo a maioria afeta ao alojamento e à restauração.

Quais são as suas perspetivas para o ano de 2016?

As previsões apontam para um crescimento de 4 a 5 por cento nas taxas de ocupação e 7 a 8 por cento no volume de negócios.

A instabilidade social em vários países europeus e do Médio Oriente, devido a atentados terroristas do autoproclamado Estado Islâmico, continua a contribuir para desviar mais turistas para Portugal e, em particular, para o Algarve? Em termos concretos, o que representa essa situação e de onde vêm os visitantes?

É verdade que a principal razão para o aumento da procura resulta, precisamente, do agravamento da instabilidade que vem afetando a generalidade dos destinos concorrentes, designadamente na bacia do mediterrâneo e Magreb. Os principais mercados fornecedores de turistas para o Algarve são os britânicos (33 por cento), os portugueses (23 por cento), os alemães (11 por cento), os holandeses (10 por cento) e os irlandeses (5 por cento), para citar apenas os mais importantes. Os países do centro e norte da Europa são, desde sempre, e vão continuar a ser os principais responsáveis pela procura turística regional.

Portugal e, em particular o Algarve, têm condições para enfrentar um atentado terrorista? Deve haver mais vigilância das autoridades nas fronteiras e em zonas de maior afluência turística, ou a que nota é suficiente?

Enquanto princípio geral, a segurança é sempre insuficiente. Assim, todos os esforços que visem dotar o país e a região com mais meios técnicos e humanos são uma situação sempre muito bem-vinda e necessária.

Contudo, e segundo as informações que disponho, o que está a ser feito é o possível e ajustado às nossas necessidades e, muito principalmente, o adequado, nomeadamente no que se refere ao trabalho em rede com forças de segurança e serviços de informações de outros países europeus e mundiais. Penso que, em boa verdade, nenhum país tem condições para enfrentar com sucesso um atentado terrorista. A aposta deve ser, cada vez mais, na prevenção. É nesta área que devem centrar-se os nossos esforços e capacidades.

Receia que possa surgir algum atentado, nomeadamente numa região de grande impacto turístico a nível mundial como o Algarve, numa altura em que, ao que se sabe, Portugal colabora com a formação de militares no Iraque?

Não é segredo para ninguém que o Algarve e o país se encontram fora da rota dos atentados terroristas, não sendo previsível que isso aconteça no próximo futuro. Porém, tal como referido anteriormente, a prevenção é a chave, devendo constituir, no horizonte que nos ocupa, o nosso principal objetivo e grande desafio.

Tal como acontece em outras matérias, as questões relacionadas com a segurança exigem pensar global e agir local. Todos não seremos demais para enfrentar com sucesso uma realidade que teima não só em eternizar-se como a agravar-se à escala mundial.

Existe alguma preparação ao nível do pessoal que trabalha nas unidades hoteleiras para enfrentar, por um exemplo, um sequestro? Como teriam de agir perante essa situação?

Sem especificar nenhuma ação em concreto, posso informar que, de facto, o pessoal das unidades hoteleiras se encontra habilitado e a colaborar ativamente com as diferentes forças de segurança, havendo ações regulares conjuntas.

Como reage às anunciadas prospeções de petróleo e de gás natural na costa algarvia, numa altura em que autarcas e ambientalistas não escondem receios?

Mais que os impactos ambientais, cuja realidade conheço mal, apontados por diversos sectores da vida e da sociedade para contestar o projeto, sinto alguma tristeza por este assunto ter sido tratado nas costas dos algarvios, desconhecendo-se totalmente as condições contratuais (contrapartidas financeiras, investimentos compensatórios, etc. etc.).

Os algarvios, mais uma vez, nada a que não estejam habituados, diga-se, foram mantidos à margem de um processo que lhes diz diretamente respeito, o que é no mínimo ofensivo para a nossa dignidade, para não lhe chamar um insulto à nossa inteligência de cidadãos portugueses de pleno direito.

Quais as repercussões que teria para as praias do Algarve e o turismo em geral um problema ambiental resultante da prospeção desses produtos?

Naturalmente que os resultados seriam desastrosos, embora não sejam de todo previsíveis. Acresce que a prospeção vai decorrer a uma distância significativa da costa e as correntes marítimas, em boa verdade, são-nos muito favoráveis. A nossa localização geográfica joga a nosso favor também nesta matéria.
Quais são os reflexos da redução do IVA da restauração de 23 para 13 por cento, como pretende o atual Governo? Poderá haver mais postos de trabalho? Quantos?

A redução do IVA sobre a alimentação e bebidas na hotelaria e na restauração vem, antes do mais, repor uma injustiça que contribuiu para acentuar ainda mais a descapitalização das empresas. Não sei precisar qual o impacto de uma medida desta natureza no emprego, mas não tenho dúvidas que vai ajudar a esbater o fenómeno.

Em que outras áreas é necessário também haver uma redução?

Não é segredo para ninguém que a nossa ambição inclui também o golfe turístico, tanto mais que se trata de um produto estratégico para esbater a maior fraqueza do turismo do Algarve – a sazonalidade.

Em termos gerais, o país e a economia precisam de um choque fiscal a todos os níveis, incluindo o exagero de taxas municipais que proliferam de forma descontrolada na generalidade dos municípios algarvios e nacionais.

Reuniu-se recentemente com a nova secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho. O que lhe pediu, quais foram as promessas que ouviu e o que espera da nova responsável governamental?

Tratou-se de um primeiro encontro mais destinado a apresentar cumprimentos do que a tratar os problemas que afetam o turismo regional. A senhora secretária de Estado mostrou-se sobretudo preocupada com os constrangimentos resultantes da sazonalidade e em ouvir as propostas dos agentes económicos que possam contribuir para ajudar a esbater o problema.

Neste contexto, apresentei, entre outras, um conjunto de propostas que resumo em seguida:

  • Plano de promoção turística vocacionado especificamente para a sazonalidade;
  • Ações promocionais que visem melhorar as ocupações durante os meses ‘shoulders’ (meses laterais), uma vez que um cliente na estação média equivale a quatro na estação baixa;
  • Estabelecimento de parcerias de colaboração com operadores turísticos e transportadores aéreos. Mais de 90 por cento dos turistas estrangeiros chegam ao Algarve por via aérea;
  • Novas políticas de transporte aéreo e gestão aeroportuária mais competitivas, atendendo a que se trata de duas faces da mesma moeda, fomentando e apoiando novas rotas aéreas;
  • Criação de condições que permitam às empresas acesso ao crédito, já que a banca nacional se encontra muito debilitada e não cumpre o papel que lhe está consignado, consubstanciado no dever de apoiar a economia real e as nossas empresas;
  • Apoios financeiros para a renovação e remodelação de unidades hoteleiras e empreendimentos turísticos, tendo em vista manter os seus níveis competitivos. O produto turístico do Algarve oscila entre a consolidação e afirmação, a estagnação e o declínio em alguns casos, consequência direta de uma descapitalização acentuada.

Para além destas, e das atrás mencionadas, especialmente na área fiscal, importa ainda rever a legislação sobre Direitos de Autor e Conexos, causadora de enormes prejuízos empresariais e turísticos e a necessidade de integrar os parceiros privados nas estruturas responsáveis pela promoção, quer no que se refere à gestão partilhada da promoção externa, quer ao nível da definição das estratégias.

Por outro lado, e não menos importante, é preciso clarificar melhor a composição, atribuições e competências das atuais regiões de turismo e reestruturar o modelo das agências regionais de promoção turística, nascidas à sombra das Entidades Regionais de Turismo, uma vez que não cumprem o objetivo expresso na contratualização da promoção externa, traduzida na garantia da gestão privada da promoção externa das diferentes marcas turísticas.

Custos de contexto, vistos gold, portagens na Via do Infante, plano de conservação e protecção de arribas e falésias e assoreamento de praias, construção de infraestruturas de índole regional que ainda não temos, como o espaço multiusos/centro de congressos, hospital central, policlínica desportiva para atletas de alta competição, etc. são algumas das preocupações que gostaríamos de ver resolvidas nesta legislatura.

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