Novos ‘taberneiros’ invadem ruas de Portimão

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Localizados na zona histórica da cidade, muito próximo do antigo cais, onde funcionaram dezenas de humildes estabelecimentos que atendiam os homens do mar antes e depois da faina, as tascas e tabernas voltaram a Portimão com um toque de modernidade e petiscos de crescer água na boca.

Texto: Manuel Cabrita
Fotos: Manuel Cabrita e João Carlos Figueiras

Nos últimos tempos têm-se multiplicado na parte antiga de Portimão os projetos de restauração e afins que acompanham uma nova tendência de convívio, aliando conceitos contemporâneos a características tradicionais, quer na decoração, quer – sobretudo – nas ementas, nas quais os petiscos e o vinho regional predominam.

Na sua maioria, representam casos em que a necessidade aguçou o engenho, uma vez que o espectro do desemprego desencadeou sonhos antigos, concretizados na forma desta nova fornada de empreendedores.

Entre diversos denominadores comuns, um que funciona como matriz é o facto de os restaurantes se situarem regra geral em ruelas de acesso controlado ao tráfego automóvel, o que facilita a circulação dos peões.

Quanto aos frequentadores, procuram momentos de confraternização com a família e os amigos em torno de uma boa mesa a preços acessíveis, e as ofertas vão ao encontro a esses critérios, proporcionando nalguns casos música ao vivo e poiso certo para animadas tertúlias, com destaque para os cada vez mais popularizados jogos de quiz. A Rota do Petisco, realizada neste ano de 4 de setembro a 11 de outubro, funcionou como pretexto para que a esmagadora maioria destes espaços se desse a conhecer.

Taberna com nome de cidade

De entre os novos investimentos, ressalta A Taberna de Portimão, concretização de um velho projeto de João Monteiro, que de um dia para o outro se viu na condição de desempregado. “Sempre imaginei algo à volta das tapas e dos petiscos, que têm tudo a ver connosco, portugueses”, assume o empresário, que procura “ir às origens das receitas típicas, desde os carapaus alimados ou de escabeche até às cavalas com orégãos, passando pela salada de ovas de bacalhau, biqueirão ao alho, iscas de cebolada, pipis e moelinhas.”

A decoração do restaurante “é composta por antiguidades que reuni, entre rádios, moinhos de pedra, máquina registadora, prensa de rolhas, máquina de café a petróleo… e mesmo a moldura que envolve o televisor de parede é de talha dourada genuína”, revela João Monteiro, que faz um balanço “muito positivo” após três meses de portas abertas, “ao ponto de já estarmos a dar almoços, coisa que não fazia parte dos meus planos imediatos, com destaque para o nosso polvo à lagareiro.”

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“Foi um tiro no escuro, mas penso que acertei em cheio, pois na eventualidade de ficar desempregado decidi arriscar com base na minha experiência enquanto formador na Escola de Hotelaria e Turismo, nomeadamente em cozinha, restaurante, bar e vinhos, tendo sido responsável pela preparação dos alunos que iam participar em concursos nacionais. Também sou um dos fundadores da Confraria de Enófilos e Gastronómica do Algarve, possuindo vários contactos que me têm sido úteis quanto ao fornecimento de produtos regionais da melhor qualidade”, sintetiza.

Sob o lema ‘Produto, sabor e aromas’, João Monteiro propõe–se lançar no menu de Inverno o hamburger de papas de milho com petingas, os milhos aferventados à moda de Monchique para acompanhar com diversos pratos, assim como o feijão com couve, “tudo numa perspetiva da comida de conforto que vá ao encontro à clientela que estamos a criar e que poderia classificar como da categoria média-alta, a qual consome muito bem as marcas de vinhos algarvias, com destaque para os três produtores de Portimão”, divulga à nossa reportagem.

Atualmente com três pessoas na sala, uma na cozinha e outra na copa (“às vezes não conseguimos dar conta do recado”, confessa), o empresário garante que “não tem havido quaisquer problemas ao nível da segurança, até porque a polícia faz rondas noturnas regulares nesta área. Nós fechamos às 02h00, mas se houver clientes podemos ficar aqui até mais tarde.”

Contra ventos e burocracias

Após mais de 20 anos como colegas numa ‘rent-a-car’, também Milay Cruz e João Vila Nova se viram de repente no desemprego: em vez de cruzarem os braços, decidiram aventurar-se na concretização de um ideal antigo… e daí surgiu a TásCá, cujo lema é ‘onde ontem e hoje se encontram no mesmo lugar e à mesma mesa’.

De facto, numa envolvência acolhedora e amiga do ambiente (as mesas, cadeiras e expositores de vinhos são paletes de madeira recicladas, enquanto para os candeeiros foram aproveitados garrafões de vidro), a dupla vem dando corpo às suas ideias culinárias, “com o precioso contributo de Maria Preciosa na cozinha, que confeciona verdadeiros pitéus típicos do Algarve, da simples sopa de peixe a mil e um petiscos, com realce para o peixinho à TásCá, servido em tacho de barro”, enfatiza a empresária.

“Para além de todas as burocracias que tivemos de enfrentar, outro desafio de peso está a ser reabilitar uma casa anteriormente mal frequentada”, especifica João Vila Nova, que tem dificuldade em aceitar a forma intransigente como as entidades públicas impõem a aplicação rígida de algumas normas que regem este setor, “mesmo quando na prática está mais que provado que as leis, ou não fazem sentido, ou estão totalmente desatualizadas.”

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Apesar disso, Milay Cruz acredita no sucesso do empreendimento, “pois somos otimistas por natureza e empenhados, sendo certo que devemos marcar a diferença e tomar a iniciativa. Para além de provas de vinhos, uma das ideias será, por alturas do S. Martinho, ter um assador de castanhas à porta da TásCá, convidando os passantes a entrar e provar os petiscos, não faltando a jeropiga e os vinhos algarvios.” Por falta de espaço físico, ficará para melhor oportunidade a criação de uma mercearia ‘gourmet’.

Com a vinda do tempo frio e instável, “a ementa vai ser reformulada, por exemplo, com a substituição de saladas frias por pratos como o feijão com couve, as bochechas de porco com camarão frito e batata-doce frita, ou as migas de camarão, entre outros, sendo novidade a introdução da beterraba frita a acompanhar, tudo fornecido por produtores locais”, divulga Milay Cruz à Algarve Vivo.

No que toca à segurança, ambos não disfarçam uma certa apreensão, tendo em linha de conta a zona da cidade em que se inserem, mas Milay e João reconhecem que “até ao momento não houve quaisquer problemas.”

Para todos os gostos

Depois de uma experiência semelhante no lisboeta Bairro Alto, Carlos Peres decidiu há pouco mais de dois anos apostar num pequeno mas acolhedor espaço situado na zona histórica de Portimão e que faz a junção entre duas ruas conhecidas pela tradição das tabernas típicas e das casas-de-pasto de há umas décadas. De resto, o nome Tasca Chique Dona Benta (inspirado numa brincadeira com um amigo e ex-sócio) sugere exatamente essa conjugação entre o velho e o novo.

Sempre que tem oportunidade, Carlos Peres não dispensa uma troca de palavras com os clientes, que se sentem bem- -vindos, e entre as especialidades, destacam-se as bolinhas de alheira e o choco frito à setubalense, apresentando também uma grande variedade de pratinhos com petiscos.

Como o fenómeno de reabilitação destes espaços possui ‘nuances’ aparentemente não relacionadas, mas que afinal têm tudo a ver com tabernas e tascas, importa incluir nesta listagem a Maria do Mar. Pequena loja de venda e degustação de conservas de peixe, em que não falta a boa pinga e o pão caseiro, aqui é recuperado o clima e o espírito ‘taberneiro’, ao proporcionar aos clientes a aquisição e – sobretudo – a prova das saborosas conservas que ainda se vão produzindo no país. Para isso, dispõe de pequenas mesas quadradas, com tampo de pedra, rodeadas por banquinhos de madeira, sendo os fregueses atendidos ao balcão, num revivalismo bem-sucedido das ambiências tão comuns às tabernas e casas-de-pasto.

Com um primeiro estabelecimento criado em Lagos há cerca de três anos, a empresária Ana Franco apostou no centro da cidade de Portimão, implantando o conceito de tasca, ao mesmo tempo que resgata a memória coletiva da indústria conserveira que marcou a comunidade local entre o fim do século XIX e a década de 1970.

Chama-se sugestivamente Tasc’alado e assume-se como bar e restaurante de tapas – em poucos meses, os seus pianinhos com salada algarvia passaram a andar de boca em boca, assim como as lulinhas fritas, as batatas salteadas ou a tijela de sopa da massinha com marisco.

À frente do leme, José Calado faz questão que os pratos primem pela frescura e qualidade da confeção. Com base nestes ingredientes, e tendo em linha de conta a boa recetividade alcançada, o estabelecimento prepara-se para também abrir aos almoços, mal termine a Rota do Petisco.

Lufadas de ar fresco

Dos locais acabados de abrir, referência ainda para a Casa da Tocha, cuja decoração se inspira claramente nas tascas e tabernas de outrora, dos ladrilhos do chão até ao majestoso arco da parede principal, ricamente decorado com uma importante coleção de vinhos. Também aqui o novo e o clássico andam de mãos dadas, sendo que em breve este local fará parte de um hostel presentemente em fase de acabamentos.

Tocha  Portimão
Na onda dos ‘desalinhados’, merecem alusão duas casas com menos de dois anos de funcionamento e idênticas nos cenários alternativos: por um lado, a espaçosa Tapa Latina, que se distingue pelas suas paredes em pedra crua e, por outro, o Velocity Café, onde os bancos e as mesas fazem as delícias dos amantes das bicicletas e outros velocípedes que tais. Ambos têm em comum o facto de serem locais de tertúlia por excelência, regularmente animados por músicos amadores.

Por fim, não podia faltar nesta relação a Taberna Cool 33 que, após uma pausa de alguns meses, reabriu portas há poucas semanas, mas apenas ao entardecer das quartas-feiras, explorando o conceito de ‘after-work’ e propondo música ao vivo com artistas locais, entre uns copos de bom vinho.

Os veteranos

Fundada no centro da cidade há quase 20 anos por Luís Coelho, que vem adquirindo velhas habitações vizinhas para ampliar o negócio, a Taberna Porta Velha é ponto de encontro obrigatório para os noctívagos a partir das 22h00, acolhendo tertúlias e grupos de amigos até às 04h00.

No menu não faltam petiscos algarvios, com realce para o berbigão da Ria de Alvor ou o presunto de Monchique, sem esquecer as caldeiradas à pescador, as lulinhas fritas e demais pratos da gastronomia portimonense, tudo regado a preceito com vinhos de boas marcas e uma presença efetiva da produção regional. Nas noites frias, é comum esgotar a ginjinha aromatizada com pau de canela, que aquece a alma, solta a língua e ajuda à confraternização entre amigos e desconhecidos, sob a batuta do seu proprietário, conhecido como ‘o Luís Porta Velha’.

Na sequência do sucesso alcançado com a Taberna da Maré, popularizada pela boa comida caseira que se alia à decoração de inspiração mareante, na qual se demarcam algumas dezenas de pequenas molduras com fotografias do tempo em que o cais de Portimão era um autêntico formigueiro de faina marítima, Zeca Pinhota recuperou o andar superior do seu restaurante para criar a Tasca Almareado, mais vocacionada para o convívio e a música ao vivo. As noites de sextas e sábados atraem ao Almareado uma clientela numerosa e animada.

Convívio e boa comida

Depois de almoçar com a família, Pedro Flores não escondia a sua satisfação à saída de um destes novos estabelecimentos de restauração: “Para quatro pessoas – eu, a minha mulher e as nossas filhas – não acho exagerada uma despesa de 38 euros, com tudo incluído. O serviço foi eficiente, a comida muito boa e havemos de voltar. Andamos a visitar estes novos sítios e gostamos da ambiência. Fazia falta algo assim em Portimão.”

“Estes locais que estão a aparecer são uma lufada de ar fresco, porque oferecem comida caseira a preços aceitáveis e isso poderá contribuir para dar vida a uma zona da cidade muito esvaziada de pessoas”, observa Maria Cândida, bancária, enquanto vê a ementa exposta à entrada de uma das tabernas e troca ideias com duas amigas.

O casal de noivos João Carlos Nobre e Cristina Almeida é exemplo do tipo de clientela que se está a formar na cidade: “Raro é o sábado à noite em que não nos juntamos ao pessoal e vamos ouvir uns músicos amigos”, refere o jovem, técnico de informática.

Já a namorada, assistente operacional numa cadeia de supermercados, prefere o fator surpresa: “Há sítios onde nunca se sabe o que nos pode esperar. Ou podemos viver uma noite bem animada até às tantas, ou voltamos para casa mais cedo, porque não havia ambiente. Gosto muito desta altura do ano em que começa a estar frio e apetece ficar de roda de uns copos a conversar. São sempre boas experiências, pois podemos conhecer pessoas muito interessantes.”

Pensamento semelhante tem o estudante universitário Rui Silva, a tirar a licenciatura em Economia, Gestão e Turismo no polo local da Universidade do Algarve, para quem “estas casas são fixes para a gente desanuviar um pouco a pressão dos estudos e conviver. Pena é haver poucos lugares abertos até mais tarde. Prefiro ficar por Portimão, perto de casa, do que ir para a Praia da Rocha, onde costuma haver ‘estrilho’ a mais”, confessa, perante a concordância de alguns colegas.

Mapeamento dos espaços

Tascas, tabernas e afins
Sem pretender ser uma relação exaustiva de tascas e tabernas, esta lista alfabética sugere alguns dos espaços recentemente abertos, em conjunto com referências incontornáveis de Portimão:

1 – Casa da Tocha (18h00-24h00 – fecha ao domingo) – Rua Sr.ª da Tocha, 24
2 – Maria do Mar (11h00-21h00 – fecha ao domingo) – Rua Direita, 89
3 – Taberna Cool 33 (apenas às 4as. ao fim de tarde) – Rua João Anes, 33
4 – Taberna da Maré (13h00-15h00; 19h00-23h00 – fecha à 2ª) – Travessa da Barca, 9
5 – Taberna de Portimão (12h00-02h00) – Rua Damião Faria e Castro, 6
6 – Tapa Latina (12h00-22h00 – fecha à 4ª) – Largo do Dique, 16
7 – Tasca Almareado (20h00-02h00 – fecha à 2ª) – Travessa da Barca, 18
8 – TasCá (12h00-01h00) – Rua Júdice Biker, 24
9 – Tasca Chique Dona Benta (12h00-24h00) – Rua da Barca, 1
10 – Tasc’alado (16h00-01h00 – fecha à 2ª) – Rua Dr. José Joaquim Nunes, 13
11 – Tasca Porta Velha (22h00-04h00 – fecha ao domingo) – Trav. Manuel Dias Barão, 3
12 – Velocity Café (18h00-24h00 – fecha à 2ª) – Rua Stª Isabel, 5

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