O caracol – um animal extraordinário

caracol

A freguesia de Porches realiza anualmente o Festival do Caracol, sendo um dos propósitos promover esse animal como um dos deliciosos exemplos da gastronomia local. Mas os caracóis são muito mais do que alimento, e foi nesse âmbito que estive presente nesse evento, em 2010, em representação do Instituto Português de Malacologia (IPM). A malacologia é a área da zoologia que estuda os moluscos, isto é, os animais de corpo mole, como as lulas, as lapas ou os caracóis. Neste texto, vou dedicar-me a falar apenas destes últimos.

Observemos um caracol de perto, com atenção. Que animal extraordinário! A concha ajuda a protegê-lo e facilita-nos a identificação da espécie. Tem dois pares de estruturas tentaculares retráteis na cabeça que servem para orientação, as superiores possuem olhos e as inferiores relacionam-se com os sentidos do tato e olfato. À boca dá-se o nome de rádula, uma estrutura semelhante a uma língua dentada que serve para raspar os alimentos vegetais dos quais se alimenta. Como em outros animais, a comida ingerida vai para o estômago, passa pelo intestino e é posteriormente expelida em forma de fezes.

O caracol em vez de pulmões tem uma estrutura com muitos vasos sanguíneos onde se realizam as trocas gasosas. Para além dos sistemas digestivos e respiratórios aqui mencionados, estes animais possuem também sistema reprodutor, e aqui as coisas começam a ficar picantes. É que estes animais são hermafroditas, possuem os dois sexos. Algumas espécies possuem uma espícula de calcário que serve para excitar o parceiro durante os preliminares, após os quais se enroscam um no outro e penetram-se mutuamente. Longos momentos depois desse abraço apaixonado ejaculam no orifício genital um do outro e depois cada um vai à sua vida. Dias depois dos espermatozoides fertilizarem os óvulos, o animal cava um buraco no chão e deposita a cabeça lá dentro: prepara-se para desovar. Os ovos vão saindo pelo orifício genital que fica localizado perto do pescoço e, após o momento de desova, enterra os ovos e vai-se embora.

Vemo-lo partir e pensamos como estes animais são importantíssimos a vários níveis. A nível ecológico são um importante elo na teia alimentar, sendo capturado por mamíferos e aves. A nível económico são utilizados na gastronomia, na produção e comercialização em cativeiro (helicicultura), na cosmética (creme de baba de caracol), ou na investigação científica. São ainda utilizados na arte, seja como fonte de inspiração em esculturas ou em pinturas e as suas conchas são frequentemente utilizada em artes manuais.

Quem diria que o caracol, aquele animal que rasteja no nosso quintal, tem tanto que se lhe diga.

 

João Lourenço Monteiro – Biólogo
jmonteiro@comcept.org

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