António Pedro Mealha, o carteiro mais popular do concelho de Lagoa

António Pedro Mealha, de 50 anos, é natural de Messines, mas conhece o concelho como a palma da sua mão. Carteiro há 30, há 28 que exerce a sua profissão em Lagoa. Muito acarinhado pela população, a sua simpatia, simplicidade e capacidade de comunicação fazem dele o mais popular carteiro em atividade no concelho. É também conhecido por ‘beijoca’ ou ‘beijinhos’, devido à forma como cumprimenta e se relaciona com as pessoas.

Ao Lagoa Informa, conta o seu percurso, revela algumas peripécias e aborda uma outra faceta que vai muito além da sua atividade profissional. É presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de São Bartolomeu de Messines e secretário da Junta de Freguesia daquela localidade, dando um importante contributo para a sua terra, devidamente reconhecido por todos. Talvez por isso está também prestes a fazer uma pausa nos CTT e a abraçar um novo desafio profissional.

Como e quando se iniciou nesta atividade?
Sou o filho mais novo de quatro irmãos. O meu pai tinha pomares de citrinos na zona de Messines e quando acabei o serviço militar, ele disse-me que os citrinos estavam em fase de decadência e que era melhor optar por uma profissão diferente. Como tinha alguém conhecido na GNR, ia ver se eu podia concorrer. Isso não era algo que me entusiasmasse, pois não era uma profissão com a qual me identificava. Mas como a nossa casa era sempre visitada por muita gente, pelos meus amigos e amigos dos meus pais, havia sempre uma mesa posta para petiscarmos e convivermos. Numa dessas noites de tertúlias e conversas, estava lá um senhor que disse que em Faro estavam a precisar de carteiros. Ainda fui dar o nome para a GNR, mas nessa noite vi nos CTT a oportunidade de ter outra alternativa e assim acabei por ir para carteiro.

Ainda se lembra quando começou?
Foi no dia 21 de maio de 1996, em Messines. Em Lagoa, só entrei em 1998. Na altura, fazíamos contratos curtos e era com uma empresa de trabalho temporário. Entrei nos quadros dos CTT em 1999.

E como iniciou o percurso em Lagoa?
Quando terminei o contrato em Messines, fui contactado pelos recursos humanos da empresa a dizer que em Lagoa precisavam de carteiros. Na altura, tinha uma motorizada Yamaha DT, que a muito custo os meus pais me compraram. Não tinha carro, conhecia pouco Lagoa e era longe para ir e vir todos os dias. Por isso, declinei o convite. Passado dois ou três dias, a mesma senhora voltou a ligar-me e deu-me um conselho que nunca esqueci. Disse-me que se estava interessado em trabalhar nos CTT, era melhor que não recusasse o convite, pois poderia não voltar a ter outra oportunidade. Isso fez-me pensar melhor e acabei por vir trabalhar para Lagoa.

Recorda-se do primeiro dia?
Cheguei uma hora antes. Fui muito bem recebido e tinha bons colegas, aliás sempre os tive. Há um senhor, em especial, que não me esqueço e que foi muito importante. O senhor José Gonçalves, que é o dono da Quinta dos Avós, no Algoz. Ele foi cá carteiro muitos anos, tinha uma forma muito particular de ser. Era bem-disposto e estávamos sempre na brincadeira. Fiz-lhe ‘judiarias’ que não lembra a ninguém. Identificava-me muito com a sua maneira de ser. Outra pessoa importante foi e é o meu chefe, o senhor Artur Cadilhe. Nem sempre estou de acordo com ele e quando não estou, sou dos poucos que me manifesto, mas de uma forma educada. Às vezes temos alguns desacordos, mas cresci muito enquanto ser humano e aprendi bastante com ele.

O ‘BEIJOCAS’
Como explica o facto de ser o carteiro mais popular e apreciado entre a população?

Sinto muito o carinho e a atenção das pessoas, é verdade. Acho que sou uma pessoa de fácil trato, que sabe ouvir, que naturalmente tem sempre boa disposição. Talvez por influência da minha mãe. A minha mãe foi alguém especial e que se conduziu sempre pela máxima do António Aleixo que diz que ‘O mundo só será melhor que até aqui, quando consigas fazer mais pelos outros do que por ti’. Às vezes penso um pouco nisso. Certamente que não é exequível, mas acho que sou alguém que vive para tentar fazer disto um mundo melhor. Tento ter sempre uma perspetiva positiva, transmitir isso às pessoas e acho que lhes levo sempre um pouco de boa disposição. A minha profissão é mais do que entregar cartas.

Então?
Enquanto carteiros, as pessoas antigamente viam em nós alguém de muita confiança e esperavam uma palavra amiga, um abraço. Importa-me cumprir a minha profissão e as minhas funções na integra, mas também dar esperança e uma mensagem positiva às pessoas.

Ter sempre um sorriso e uma postura simpática ajuda?
Acho que sim e com essa atitude sinto também um retorno positivo da população. Tive casos de pessoas que, ao início, me abordavam de forma mais agressiva ou antipática, mas que depois, com a minha paciência e capacidade de as ouvir e responder sempre de forma educada, mudaram de postura e perceberam que podiam contar comigo. Às vezes trabalho mais horas por dia do que devia, porque dou mais atenção às pessoas, mas acho que esta profissão assim o exige.

Essa simpatia e proximidade com as pessoas valeram-lhe a alcunha de ‘beijoca’. Porquê?
‘Beijoca’, ‘Beijinho’ ou ‘beijoqueiro’, são várias. Porque costumo cumprimentar sempre as pessoas. Nós latinos temos o hábito de cumprimentar os homens com um aperto de mão e as senhoras com um beijinho. Às vezes, já dei por mim a pensar que não devia ser tão caloroso nos cumprimentos, porque há pessoas que podem não gostar. Mas é algo natural em mim e já houve um caso ou outro em que as senhoras não gostaram. É a minha maneira de ser, as pessoas já me conhecem há muitos anos e sabem que faz parte de mim, é algo natural. Mas posso dizer que também ganhei essa característica aqui no concelho.

Como?
Quando comecei a trabalhar cá, a minha volta era em Ferragudo. Fui muito bem recebido. Acho que nas comunidades piscatórias as pessoas são mais bairristas, mais intensas e fui lá recebido como se fosse um deles. Muita gente me tratava por ‘meu amor’ por ‘meu querido’. E com o tempo passei também a dirigir-me assim às pessoas. Recebi essa influência durante os anos em que fiz esse ‘giro’. Por isso, às vezes digo com muita facilidade e espontaneidade: ‘olhe minha querida é aqui que assina’, por exemplo.

Essas expressões nunca lhe valeram um dissabor?
Tenho só uma situação a nível pessoal. No batizado dos meus filhos, a senhora do restaurante era esposa de um colega meu de escola. A certa altura disse-lhe: ‘Oh meu amor, podes abrir-me a máquina do tabaco’”. Ela respondeu-me de pronto: “Meu amor, só quem me pode chamar é o meu marido, está bem!”. E eu fiquei com uma ‘cachola’ e a minha mulher ao lado a rir à gargalhada.

CARINHO ESPECIAL POR BENAGIL
São 28 anos de carteiro no concelho. O que mais aprecia por cá?

Gosto das pessoas e de uma terra em particular, a que chamo a minha segunda casa: Benagil. Fui sempre muito bem tratado lá e lembro-me daquela terra com três carros estacionados no Inverno, sem a confusão que é hoje. Há lá uma família, do senhor Manuel Prudêncio e irmãos, que sempre me recebeu muito bem, como se fosse da família. Inclusive no Verão, quando tinham um almoço familiar, em que juntavam à mesa umas 20 pessoas, esperavam sempre que o carteiro chegasse para almoçar com eles. Criei laços muito fortes com aquela gente. Ainda hoje mantemos essa ligação, pela simplicidade e a proximidade com que nos tratam. Por isso, mantenho uma ligação próxima com tantas pessoas deste concelho, depois de 28 anos de trabalho. Todos me ligam, desde alguém que recebe o rendimento mínimo ou alguém que ganha milhões, a perguntar alguma coisa ou se posso ajudar numa situação em concreto.

Mas em Ferragudo tornou-se no ‘Beijoqueiro’?
Sim, é uma terra que marcou o meu percurso como carteiro e também como pessoa. Na altura em que fazia o giro de Ferragudo, as pessoas eram simples e genuínas. A minha maneira de ser também ajudava. A volta de carrinha que lá fiz, lembrou-me algumas zonas mais isoladas em Messines, como São Marcos da Serra. As pessoas são mais simples e humanas. Às vezes, até me pediam para levar o dinheiro da reforma e depois sentiam a necessidade de agradecer e retribuir sempre com gesto ou oferecendo qualquer coisa.

UMA PROFISSÃO EM MUDANÇA
Ser carteiro ainda é uma profissão atrativa?

A realidade nesta profissão mudou bastante. A contratação pessoal antigamente era feita com maior rigor e acho que essa é uma das grandes diferenças. E isso reflete-se no serviço. Desde 2014, altura em que os CTT passaram a ser privados, mudou muita coisa e a profissão passou também a ser menos atrativa. Por exemplo, quando entrei para ao quadros, em 1999, houve uma cerimónia em Lisboa, com um cocktail de boas-vindas e uma reunião. Antes havia uma lista de espera para entrar, hoje em dia, pelo contrário, é muito complicado contratar carteiros. Os miúdos que entram a contrato, acabam por sair ou rescindir passado pouco tempo. Na altura, quando entrei para a empresa foi com um orgulho enorme e com um grande sorriso na cara. Os recursos humanos, por muito que me custe dizer, não têm a qualidade que tinham na altura em que entrei.

Mas ainda gosta da profissão?
Gosto muito do que faço. Identifico-me bastante com a minha profissão, por isso sou carteiro há 30 anos. Mas também, tenho vindo a desenvolver outras atividades, pois sempre achei que podia dar um pouco de mim à sociedade.

ASSOCIATIVIMO E POLÍTICA
Como por exemplo?

Em 2017, fiz parte de lista do meu grande amigo João Carlos Correia, que foi eleito presidente da Junta Freguesia de São Bartolomeu de Messines. Fui como vogal e fiz parte do executivo. O João saiu da Junta em 2021 e convenceu-me a fazer uma lista para a Associação Humanitária dos Bombeiros, que estava numa situação preocupante. Colocou-me como vice-presidente e eu nem queria, pois achava que devia de ser uma pessoa com mais experiência. Mas ele disse que precisava de alguém da sua confiança e vencemos as eleições. Fizemos um segundo mandato e a meio, em 2023, ele saiu, e fiquei como presidente.

Haverá eleições agora em abril…
Sim, a associação vai a eleições no dia 11. Há uns meses, a minha ideia era não encabeçar a lista, mas houve uma manifestação de interesse e pressão por parte dos operacionais para que eu e aminha equipa avançássemos. Assim, acedi e vou encabeçar novamente a lista.

E a Junta de Freguesia?
Sou secretário da atual presidente, Carla Benedito. Sou de Messines desde de sempre, sou um defensor acérrimo da minha terra e acho que esta é mais uma maneira de ajudar as pessoas.

Com a sua profissão, ainda arranja tempo para estas funções…
Não é fácil, às vezes tenho pouco para estar com a família. Com esforço e boa disposição é possível conciliar isto tudo, mas em breve irei fazer uma pausa nos CTT.

Então?
Vou colocar uma licença sem vencimento e abraçar um novo projeto, para o qual fui desafiado há uns meses, que ainda não posso revelar até estar confirmado. Não é uma despedida dos CTT, será um até já.

Em tantos anos de atividade, são algumas as histórias caricatas que António Pedro Mealha tem para contar. Uma delas envolveu um ‘choque’ com um burro. “Uma vez dei uma pancada num burro com a carrinha dos CTT, em São Marcos da Serra. Ia na distribuição e na estrada vinha um velhote montado num burro. A dada altura, já perto de mim, o burro vira de repente para o centro da via e nem tive tempo de nada. A pancada foi forte e partiu o para-brisas da carrinha. O velhote pediu desculpa e justificou-se a dizer que adormeceu. Montou-se no animal outra vez e foi embora dizendo: “Cada um fica com a sua despesa!”. Eu fiquei ali, não conseguia ver nada através do vidro e tive de esperar por assistência”, recorda. Já no concelho de Lagoa, nos primeiros tempos, quando tinha “vinte e poucos anos”, também viveu algumas peripécias. “Não casei por cá, mas estive perto disso”, diz em tom de brincadeira, contando depois um pequeno episódio. “A dado momento, houve uma senhora a querer agradecer-me de forma mais simpática e convidou-me a passar lá por casa mais tarde. Senti-me muito atrapalhado com a situação, percebi que a senhora era casada e nunca aceitei o convite”, afirma.

Para a personalidade bem-disposta, sempre com um sorriso e com uma palavra amiga, muito contribuiu a mãe de António Pedro, que faleceu há 18 anos. A ‘dona Inaicinha’, como era conhecida na aldeia Mouricão, perto de Messines, é a sua maior referência e a grande influência. “A minha mãe tinha um humanismo transcendente. Ouvia toda a gente, tinha muita compreensão, era muito carinhosa, atenciosa e ajudava as pessoas”, diz, com orgulho, recordando uma passagem que o marcou. “Eu era um bocado guloso e a minha mãe costumava fazer morgadinhos de figo. Um dia virei-me para ela e perguntei-lhe porque naquele ano ainda não tínhamos feito os queijinhos de figo. Ela respondeu que estava com muito serviço e com pouco tempo. Mas sugeriu que a ajudasse a partir as amêndoas, que depois iríamos moer os figos. Lá fui eu, todo contente, partir as amêndoas com o ferrinho e depois fizemos uns 12 ou 13”. Satisfeito com a tanta produção, António Pedro começou a ver a gulosice ‘andar para trás’ quando a mãe começou a distribuição. “Este vai para prima, aquele para a tia, um para avó, outro para não sei quem… No final sobraram dois ou três. Resmunguei com a minha mãe, pois tinha tido tanto trabalho e só íamos ficar com três. Aí ela deu-me uma resposta que me marcou na altura: “Filho, um dia vais perceber o que é o partilhar. Agora não adianta muito explicar-te. Vais compreender este gesto que estamos a ter com os outros, porque os outros também nos proporcionam estas coisas”, lembra. A situação marcou-o “de tal forma”, que hoje em dia dá-lhe “mais prazer oferecer, do que receber”. “A minha mãe ensinou-me muito o partilhar, o respeitar o próximo e o saber ouvir”, salienta António Pedro.

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