‘Mar a Fado’: para que a memória das gentes não se perca

Três ‘marafados’ juntaram-se e, conversa puxa conversa, pegaram na ideia original do ‘Marafado’ para criar um novo projeto que tem vindo a ganhar destaque na comunidade portimonense, sobretudo nas redes sociais.
Um conceito que vai somar novas rubricas e histórias com o objetivo único de preservar a memória de quem, com o seu percurso, foi construindo Portimão.
É o ‘Mar a Fado’, que retrata a ligação que a cidade teve à atividade piscatória, mas também ao destino de que vivia naquela época. Mais tarde, cruzar-se-á com as sonoridades do fado, que enriquecerá o projeto.
Para já, hoje, são divulgadas novas personagens, fictícias, criadas com recurso à inteligência artificial, mas que têm um fundo de verdade. Será contada a vivência da família Oliveira, prendendo a atenção de quem atravessou uma época em que se vivia, ou sobrevivia, da pesca, da indústria conserveira e do mar.
‘Mar a Fado’ ou apenas carolice?
Voltando ao início, foi no verão passado que Júlio Ferreira conversava com Rúben Arnaut sobre o ‘Marafado’ e a ideia que este concretizara com Paulo Filipe, de entrevistar pessoas da terra. Também Júlio tinha apontado em papel um projeto que se ligava a este na perfeição.
É preciso, contudo, primeiro perceber o que é ‘Marafado’. “O Rúben convidou-me para fazer uns vídeos com a malta de Portimão, porque estas histórias vão perder-se. Era bom que ficassem documentadas as experiências destas pessoas que sabem coisas que nem imaginamos”, começa por explicar Paulo Filipe, designer e rosto bem conhecido da altura do bar Marginália e, agora, pela associação cultural com o mesmo nome.
“É preservar a memória coletiva das pessoas que conhecemos e que construíram a identidade portimonense. E na verdade, nós não sabíamos que essas pessoas tinham uma voz tão presente ou tão viva. A ideia foi criar um canal para transmitir a uma geração futura aquilo que estas pessoas viveram, porque foram elas que construíram Portimão”, aprofunda Rúben Arnaut.
Agarraram naquela que é uma expressão significativa para a identidade portimonense e que carrega uma mística única: ‘Marafado’.
“Aliás, o primeiro programa arranca com Rolando Rebelo, em que ele define, logo no início, o que é um ‘marafado’”, recorda Rúben.
“E foi brutal, para já porque o Rolando tinha um à vontade a falar enorme, e depois porque nunca imaginei que ele soubesse tanta coisa, tanta história de Portimão e do mar, da pesca e de tantas outras coisas. Seguiu-se o Carlos Osório, num episódio que eu não pude estar presente. Entretanto, deu-se o falecimento do Rolando, em que ficámos com esta memória deste nosso amigo para a vida”, mas a falta de tempo estagnou um pouco esta série de entrevistas.
No verão, há então uma conversa com Júlio, em que resolveram avançar noutros moldes. Conversaram, resolveram limar arestas e cruzar as ideias. Isto a 11 de outubro. Dois meses depois surgia o ‘Mar a Fado’ com a entrevista a Álvaro Bila, presidente da Câmara Municipal de Portimão, no dia da cidade.
Seguiram-se mais pessoas da terra e os três têm uma lista extensa de quem tem memória dos outros tempos e que, à mesa, poderá partilhar conhecimentos. Nuno Campos Inácio, Zeca Pinhota e Jorge Veiga já passaram pelo ‘Mar a Fado’ e o convidado da próxima semana também vai gerar alguma surpresa.

Projeto começa a ganhar ramificações
Dentro deste chapéu das entrevistas, nos próximos tempos surgirá uma outra rubrica sobre pequenos apontamentos de história pelo qual todos passam no dia a dia, mas nem se apercebem ou desconhecem.
“Vão ser dois ou três minutos, coisas muito diretas e acho que vai aguçar a nossa curiosidade”, refere Júlio Ferreira, que além da sua profissão, é também uma das vozes da Alvor FM.
Aliás, a emissora local será outra das apoiantes deste projeto, com a estreia de um programa de rádio mensal, este mês. Todas as semanas, em abril, serão disponibilizadas as entrevistas do ‘Mar a Fado’ aos domingos, entre as 11h00 e as 12h00, sendo que no mês seguinte passará a ser de frequência mensal.
“O artista Gonçalo Rosa, talento portimonense, está a terminar o tema original, criado de raiz para o ‘Mar a Fado’, que será utilizado nos vídeos, mas também na rádio. E, brevemente, teremos um programa gravado ao vivo com fado, gente do mar e alguns convidados”, avança Júlio Ferreira.
Uma reflexão sobre Portimão
Olhar para o passado poderá ajudar a pensar a cidade para o futuro. Numa altura em que a cultura continua a perder terreno na sociedade, Paulo Filipe admite que é bastante crítico em relação ao Portimão atual. “Em termos de cultura e de património temos muito pouco para mostrar. Temos aqui um excelente exemplo que é o Museu, mas para além disso, temos muito pouco para mostrar a quem não é de cá, a quem chega nos navios, porque não há um roteiro turístico que se vire para aí. E hoje em dia, quer se queira, quer não, as pessoas querem, cada vez mais, conhecer as tradições, a comida”, afirma.
No ponto de vista de Rúben Arnaut, tal como no de Paulo Filipe, há muita informação que pode ser usada para enriquecer a cultura da cidade e o Museu é um bom exemplo.
“Existe muito arquivo, o Museu faz um trabalho brutal, mas nem sempre chega às pessoas…”, diz Paulo Filipe. E Rúben complementa: “Não é que fique fechado em quatro paredes, mas talvez não chegue com a mesma facilidade a todas as pessoas que se interessavam, mas que não têm capacidade económica, física e social de vir ao Museu, ir a Alcalar ou à Mexilhoeira nestes horários. Acho que o ‘Marafado’ também foi criado por isso”, afirma.
Júlio anui. “Partilho esta opinião. Nós somos dos poucos que têm feito algo pela cultura nos últimos anos. O Paulo, eu e, agora, o Rúben. Se não fossem as pessoas e as associações… e isto não é uma crítica, é constatar o óbvio”, afirma.
O projeto não é para obter lucro. “Somos só três amigos, que se juntaram para fazer algo em prol da nossa cidade, das nossas tradições e da nossa gente”, resume. E isso tira-lhes tempo com a família, ao lazer e ao descanso, mas deixa-os satisfeitos por contribuírem para perpetuar a memória das ‘gentes’.
Novas gerações interessadas
Este contributo é, sobretudo, para deixar algo positivo às novas gerações. “São coisas ligadas a Portimão e é aí que contamos com o apoio da Câmara Municipal e temos a pretensão de ter uma parceria com o Museu. Achamos que será um parceiro primordial para a recolha de todas as informações que eles têm e que podem ajudar a construir um projeto o mais fiel à realidade possível”, descreve Júlio Ferreira.
Até porque nenhum dos três é cientista, investigador ou tem formação nesta área. São apenas cidadãos comuns que gostam da sua terra e querem levar mais longe este sentimento de pertença.
Aliás, é nas faixas mais jovens que estão a conseguir ter alguma adesão, o que os surpreende. “As visualizações que nós temos, deixaram-nos entusiasmados e surpreendidos, pois 40 por cento das pessoas que veem o ‘Mar a Fado’ têm entre 18 e 24 anos”, revela Júlio Ferreira.
Faz, portanto, sentido deixar este legado às gerações mais novas e às futuras. “As pessoas muito provavelmente veem o ‘Mar a Fado’ mais pelos podcasts e pelos posts, mas acredito que a importância que a família Oliveira vai ganhar seja impactante, ainda que considere que esta nova rubrica ‘Portimão tem muito para contar’ vá ser de enorme valor também”, conclui Rúben Arnaut.
E quem sabe, no futuro, ao ouvir estas histórias do passado, contadas ainda na primeira pessoa, se possa agarrar nesses testemunhos para dizer o que os portimonenses querem para o futuro?
É uma ideia que também não está descartada. Como, aliás, muitas outras que possam surgir destes três portimonenses que só querem chamar a atenção da sua terra para a importância que ela tem. Tudo, para que a memória não se perca.
Joaquim Oliveira (1948–1981)

Filho de Manuel ‘Manel da Rede’ Oliveira e de Maria do Carmo da Conceição, chamavam-lhe ‘Joaquim o MARAFADO’, porque ninguém o dobrava, nem o destino, nem a fúria das águas. Nasceu na Rua do Capote, em Portimão, e cresceu ligado ao Rio Arade e às fainas do mar. Pescador desde muito jovem, tornou-se uma figura típica da antiga cidade piscatória, conhecido pela coragem, espírito livre e profundo respeito pelo mar. A 30 de janeiro de 1981, após vários dias de mau tempo e sem trabalho, decidiu sair sozinho para o mar na pequena embarcação ‘Flor do Mar’. Uma forte tempestade surpreendeu-o e o barco foi encontrado dias depois virado junto à Ponta João d’Arens. O corpo nunca apareceu. Com o tempo nasceu a lenda. Há quem diga que, nas madrugadas de nevoeiro no Arade, ainda se ouve o motor de um barco solitário e um assobio no vento sinal de que Joaquim Oliveira, o pescador que o mar levou, continua a vaguear na memória de Portimão. E ao que parece… esta história ainda não terminou. Muito em breve, os portimonenses voltarão a ouvir falar de Joaquim Oliveira, da sua vida e do mistério que envolve a sua última maré. Porque enquanto o MAR tiver voz e o FADO emoção, há de pulsar em cada peito o nome de Portimão. – Texto cedido por ‘Mar a Fado’.
Família Oliveira é o retrato de muitos portimonenses
Esta semana, tal como explicam os três mentores do ‘Mar A Fado’ ao Portimão Jornal, aparecem novas personagens. É uma família, criada com base nos factos passados, mas que retratam as vivências dos anos 40, do século passado. É a história fictícia de Joaquim Oliveira, pescador e homem do mar, a quem o mar, aos 33 anos, lhe roubou a vida. No ‘Mar a Fado’ conta-se a sua vida, mas também daqueles que o rodeiam. A irmã Rosa, os pais, os irmãos. As imagens foram criadas com recurso à Inteligência Artificial, tendo por base várias fotografias que estão no Arquivo de Portimão. “Eles viveram a ascensão e o expoente máximo da indústria conserveira, da pesca e o seu declínio. Então juntamos aqui uma série de dados, criámos uma família e uma história à sua volta. Onde o Joaquim Oliveira cresceu, viveu, temos até casa da Rua do Capote, onde ele nasceu e essa casa existe mesmo”, revela Júlio Ferreira. O sentido disto é o de retratar “vários aspetos da sociedade dessa altura”, resume por sua vez Rúben Arnaut. “Conseguimos penetrar nos vários tecidos sociais que existiam na altura para chegarmos até aqui”, afirma. E o objetivo é que as pessoas se identifiquem com esta história. “Felizmente aqui em Portimão até conseguimos ter um bom ‘background’, porque há um arquivo forte de fotografias que ajuda imenso. Se não tivéssemos tido um Júlio Bernardo, não teríamos agora, certamente, um Joaquim Oliveira”, atesta ainda Rúben Arnaut.





