A ‘oposição’ em Lagoa faz-se à mesa

No Café Dona Isabel, na Rua Dr. Ernesto Cabrita, mesmo às portas da Câmara Municipal de Lagoa, têm lugar quase diariamente, ao início da manhã, autênticas tertúlias entre atuais e ex-políticos da nossa praça. Ali se discute o que está mal no concelho e na política lagoense.

Entre elementos de direita e de esquerda, militantes do PSD e do PS, à mesa debatem-se alguns segredos dos bastidores da política local, comentam-se rumores, especula-se e criticam-se medidas do executivo da autarquia, entre línguas aguçadas e outras mais sensatas. Segundo alguns, até se já conjeturaram ‘conspirações’.

Algumas das projeções e cenários partilhados naquela mesa até já se confirmaram e dali, dizem, podem encontrar-se soluções de poder. Joaquim Piscarreta, ex-presidente da Câmara eleito pelo PSD e Francisco Martins, também ex-líder da autarquia, mas pelo PS, são dois dos participantes mais assíduos do grupo.

A estes dois, juntam-se Mário Vieira, ex-vereador e anterior presidente da concelhia do PSD Lagoa, Vítor Rio, ex-comandante dos Bombeiros Voluntários e militante social-democrata, bem como João Rocha, atual líder da concelhia do partido laranja.

Para contrabalançar uma maior presença da direita, António Nobre, ex-deputado municipal pelo PS e antigo chefe das Finanças de Lagoa, e António Borralho, conhecido solicitador da cidade e também militante socialista, vincam também as suas posições e defendem as suas teses, entre brincadeiras, gargalhadas e momentos mais a sério.

Pontualmente, surge ainda neste grupo José Águas da Cruz, um socialista dos ‘sete costados’ e atual presidente da Assembleia Municipal de Lagoa, que também equilibra uma mesa, por vezes mais virada à direita.

MAIS DE 30 ANOS À MESA

Este espaço de encontro começou há mais de 30 anos, então com Jacinto Correia como presidente da Câmara, ele que também chegou a fazer parte do grupo. Os membros foram mudando ao longo dos anos e os dois que se mantêm há mais tempo são Vítor Rio e Águas da Cruz.

Francisco Martins recorda que foi no balcão deste café que, em jovem, foi “recrutado e convencido” por Joaquim Piscarreta para se filiar no PSD.

Inicialmente, os encontros decorriam dentro do estabelecimento, mudando mais tarde para a mesa que está na esplanada.

“Nesses primeiros tempos, de vez em quando havia conversas mais privadas entre dois ou três elementos do grupo, que decorriam à margem, ali debaixo daquela palmeira”, recorda Vítor Rio.

Por esta mesa, passaram ainda Rui Correia, quando foi vereador e vice-presidente da Câmara, e José Pacheco, durante muitos anos chefe de gabinete de José Inácio, entre outros elementos que estiveram ligados à política. Joaquim Piscarreta lembra também a sombra da palmeira ao lado do Café Dona Isabel, onde além de algumas conversas mais discretas entre dois ou três elementos, foi muitas vezes local de atendimento.

“Quando fui presidente de Câmara, tinha pessoas à minha espera à entrada do edifício dos Paços do Concelho e, quando me viam a chegar, apanhavam-me e fazia logo ali, junto à palmeira, o primeiro atendimento do dia”, lembra.

AS PICARDIAS

Entre muita ironia e algumas críticas, a picardia entre elementos é também um dos ingredientes deste debate. “Principalmente na mesma família política”, aponta Francisco Martins, referindo-se a Mário Vieira e João Rocha, ambos do PSD, que por vezes protagonizam discussões mais acesas.

“Aqui não há temas tabu, não se fala mal de ninguém a nível pessoal. Agora do debate de político, sejam colegas de partido ou não, fala-se de tudo, cada um com o seu ponto de vista. Aqui temos à mesa PPD, PSD, PS e uma estranha força neutra, como a ‘Suíça’, que sou eu nesta fase da minha vida”, afirma Francisco Martins.

Num tom mais sério, o grupo aponta que neste espaço são manifestadas muitas preocupações sobre o concelho e a política, entre elas “a degradação do panorama político”.

“Quando entrei na política, uma das razões foram os protagonistas dessa altura. Eram pessoas que conhecíamos e víamos na rua. Agora não há ligação à comunidade ou identificação com a terra e isso leva a uma degradação dos protagonistas. No debate político isso é evidente, nomeadamente nas Assembleias Municipais. O conteúdo está cada vez mais pobre e muito ainda faz o presidente Águas da Cruz para dignificar o órgão”, salienta Francisco Martins.

Vítor Rio acrescenta que antigamente havia “o vestir da camisola e que agora pesa mais o interesse em qualquer coisa…”. “Antes vivia-se a política por viver a política, não com segundas intenções. Por exemplo, nesses tempos as pessoas quase se chateavam porque queriam ir todos para as mesas de voto. Hoje em dia os elementos são pagos para irem para lá e mesmo assim há dificuldades em arranjar pessoas”, exemplifica.

O SENTIMENTO COLETIVO

Águas da Cruz concorda e refere que existia “uma motivação coletiva e uma relação de pertença em prol da comunidade e do lugar onde se nasce”.

“Havia um sentimento de pertença e uma mobilização grande, também pela novidade de vivermos em democracia, é verdade. Na altura, quando nos envolvemos na política, a nossa vontade era de transformar o mundo e o nosso concelho. Éramos mais jovens e queríamos dar o nosso contributo. Foi isso que nos motivou. A questão dos interesses, era secundarizada, pois havia um ideal maior. Isso é que marcou os tempos de então e atualmente as coisas já não são bem assim. Houve uma mudança significativa”, lamenta.

Francisco Martins relembra que “havia o brio em fazer, em projetar e em criar”, recordando os tempos em que se iniciou na política “de andar às voltas de carro pelo concelho com o Mário Vieira a falar de ideias e projetos”.

Mário Vieira acrescenta que então “se viviam verdadeiramente os problemas da nossa terra”. “Os que entraram mais recentemente na política já não se preocupam tanto com os problemas do concelho. Acham que deve ser a Junta de Freguesia ou a Câmara a resolver, em vez de serem os próprios a participar e a ajudar numa solução. Isso vê-se na política e nas associações, que estão demasiado dependentes aos apoios municipais e quase sem iniciativa própria. Antigamente, mesmo não estando em cargos políticos, as pessoas juntavam-se para procurar e apresentar soluções”, aponta o ex-líder da concelhia do PSD, atualmente fora da política ativa.

PREVISÕES PARA O FUTURO…

Entre rumores e especulações, a este grupo de especialistas e comentadores políticos não falta experiência, não tivessem alguns deles sido presidentes de Câmara ou líderes partidários. Aqui já se “escolheram e acertaram em candidatos”, garante Vítor Rio. “E já temos projeções para 2029”, acrescenta, entre gargalhadas, sem concretizar. “Não se esqueça que em política nós nunca morremos. Ainda vai ressuscitar muita gente até 2029”, alerta, entre sorrisos, Francisco Martins.

“Nesta mesa já queimamos alguns nomes, mas nas últimas eleições acertámos em quase todos os candidatos do PS e do PSD”, revela Vítor Rio, dando um exemplo. “Uma coisa aqui falada com muita antecedência, foi que na lista do PS à Câmara a Anabela Simão ia sair e o Ruben Palma seria o vice-presidente”.

ADVERSÁRIOS ‘FEROZES’ TORNAM-SE AMIGOS

Esta é uma mesa de discussão, mas também de muita ironia, gargalhada e boa disposição. Aqui quase que verdadeiros ‘milagres’ acontecem e amizades se constroem.

Até ‘inimigos’ políticos aqui se tornam amigos. João Rocha, por exemplo, fervoroso crítico de Francisco Martins quando este foi presidente da Câmara, nomeadamente entre 2016 e 2019, teceu-lhe comentários bastante hostis e duros nas redes sociais, mantém hoje uma relação de “proximidade e de amizade”, garantem ambos.

Também Mário Vieira, principal rosto da oposição social-democrata nesse período, foi um crítico feroz à gestão de Martins. Ainda que a relação entre ambos tenha tido dias difíceis, após a saída do ex-presidente da autarquia, tudo se normalizou.

“É verdade, em tempos houve ataques menos agradáveis, mas acho que a amizade é o que fica. Temos de ter maturidade para separar e saber que na ‘esgrima’ política cometemos excessos, que há momentos em campanha nos quais dizemos o que não devemos dizer e ouvimos o que não queremos ouvir. Não podemos alimentar esses excessos e há coisas mais importantes. A amizade é uma delas. Sei que houve pessoas que me atacaram com algum excesso, mas hoje temos uma boa relação, porque soubemos ultrapassar isso”, explica Francisco Martins.

Os desaguisados ficaram para trás e hoje são todos comparsas nesta mesa que quase diariamente discute o futuro de Lagoa e potenciais candidatos a eleições. E há mesmo quem diga que daqui poderão surgir candidatos para as eleições autárquicas de 2029. A ver vamos…

AUTÁRQUICAS SURPREENDERAM… OU NEM TANTO

As eleições de 2025 foram alvo de muitas conversas neste grupo e os resultados deixaram uns mais surpreendidos que outros. “Havia um fenómeno novo que era o Chega, que com mais de quatro mil votos no concelho nas legislativas e podíamos pensar que ia fazer mossa a nível autárquico. Achámos que o PS poderia perder a maioria, mas nunca que estivesse em causa a sua vitória. A esgrima era entre a eleição de vereadores. Uns achavam que o PSD colocava dois vereadores, outros um…”, diz Francisco Martins. Quem não teve dúvidas foi Vítor Rio.

“O resultado do PSD era expetável. Na rua e uma parte desta mesa sentia que o Chega ia ficar à frente e ser a segunda força política mais votada, como se veio a confirmar”, frisa. Mário Vieira, não concorda. Reconhece que sempre achou que o Partido Social Democrata iria eleger dois vereadores, em vez de um, como ditou o resultado final, facto que o surpreendeu.

A RESPONSABILIDADE DO PSD

“O PSD em Lagoa tem uma grande obrigação, por ser um partido histórico e de poder durante quase 30 anos. Quem governa, fá-lo melhor ou pior, mas também conta muito a oposição que tem. O partido tem a responsabilidade de mostrar que possui capacidade de ser alternativa ao poder, que tem ideias e pessoas para ser um protagonista. Não se pode contentar em ser a terceira força política em Lagoa, como é hoje. Precisa de transmitir à sociedade e à população que tem capacidade para apresentar soluções exequíveis e mostrar que pode fazer melhor do que os que estão no poder”, salienta Francisco Martins.

Mário Vieira defende que “o Partido Social Democrata é a terceira força política do concelho em termos de votos, mas na prática é o motor da oposição, porque é quem, na realidade, apresenta propostas”.

“Isso vê-se na Assembleia Municipal. Lá se vê quem faz verdadeira oposição, basta assistir às sessões e às intervenções do PSD. Neste órgão, também se percebe que a qualidade dos protagonistas políticos tem vindo a baixar. E o Chega é um exemplo disso. Não quer dizer que não haja lá pessoas válidas, não é isso. Agora não têm experiência política, nem cívica. Antigamente as pessoas, começavam o seu percurso pelos clubes, pelas assembleias de freguesia e iam ganhando experiência e conhecimento de como os órgãos funcionam. Agora chegam do nada, sem conhecimento de nada. E dou também o exemplo dos dois vereadores do Chega na Câmara. Nunca lhes foi conhecido qualquer tipo de intervenção cívica na nossa comunidade” frisa.

“Hoje aparecem nas reuniões de Câmara e praticamente não intervêm. Parece que ainda estão a aprender como se faz… quando se chega a um cargo desta responsabilidade, como é o de vereador e com a responsabilidade de ser oposição, temos de estar preparados, conhecer os dossiers e apresentar soluções. Não chega fazer oposição só antes das eleições”, sublinha Mário Vieira.

AS CRÍTICAS À CÂMARA

Um dos alvos preferenciais deste grupo é a gestão da Câmara Municipal. Na hora de apontar o dedo, o social-democrata Mário Vieira não tem meias medidas.

“As críticas são as mesmas de sempre, a falta de obras, exceção feita às que surgiram mais recentemente, como a renovação das condutas adutoras de água e o Parque Urbano do Parchal. De resto, muita coisa está adiada e isso preocupam-nos”, alerta.

O socialista Águas da Cruz não concorda. “Entendo que temos vindo a ver um desenvolvimento importante, não tem sido ao ritmo que o executivo pretendia, mas há obras estruturais que estão a ser feitas. O investimento nas condutas de água há muito que estava planeado e mostra a visão estratégica da Câmara na gestão dos recursos hídricos. Isso é uma mais valia para o futuro coletivo, que as pessoas provavelmente não valorizam o suficiente. Foi feito um trabalho importante neste âmbito, que aliás continua. E na habitação, também estamos a dar resposta, não é a ideal, pois este é um problema que vem de trás e em primeira instância cabia ao Estado central dar resposta. O direito à habitação é uma obrigação constitucionalmente atribuída ao Estado. A situação é igual e, em muitos casos, pior noutros concelhos do país”, aponta o atual presidente da Assembleia Municipal.

Ao invés, Vítor Rio não tem dúvidas que o atual executivo da Câmara está “muito aquém das expetativas”, apontando o dedo “aos serviços e à pouca capacidade de decisão”.

“A crítica que aqui se fala muitas vezes, e é transversal ao concelho, é a inoperância dos serviços. Não estão a funcionar e a Câmara não tem capacidade de resposta. Há uma incapacidade de pôr a ‘máquina’ a trabalhar. Por muito bom que o executivo seja, se não consegue colocar as coisas a funcionar, então não sai nada, nem obras, nem outros investimentos. O que se nota em Lagoa é uma degradação dos serviços que são prestados. Todos sentimos isso”, salienta Francisco Martins.

Certo é que esta ‘mesa da oposição’ promete manter a sua tradição de crítica aos principais atores políticos do concelho e às suas decisões, e assegura que ‘afinará’ os dotes de adivinhação sobre os futuros rostos de poder no concelho. A seu tempo o Lagoa Informa voltará a esta mesa para confirmar ou não as previsões…

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