Eduardo Alfarrobeira foi o primeiro campeão algarvio de culturismo 

Texto: José Garrancho


Há 40 anos, precisamente no dia 13 de julho de 1986, teve lugar em Portimão o primeiro concurso de culturismo no Algarve, o ‘Mister Portimão’, no qual se sagrou campeão o portimonense Eduardo Alfarrobeira, que revive agora essa data e explica como se vivia a modalidade na época.

Qual era o ambiente que se vivia no Auditório Municipal, recém-inaugurado, naquele dia?
Muito agradável, com muita gente, pois vieram pessoas de todo o Algarve. Estava presente o então presidente da Câmara Municipal, o arquiteto Martim Gracias. Participaram oito atletas juniores e dez seniores, dos quais cinco de Portimão.

O que sentiu, quando se sagrou campeão do Algarve?
Quando fiz a apresentação e aquela malta se levantou em peso, gritando o meu nome, foi uma sensação maravilhosa. Havia quem, no júri, não quisesse que eu ganhasse, mas alguém se impôs, afirmando que não havia comparação entre mim e os restantes concorrentes. Durante esse compasso de espera, com o público a gritar o meu nome, senti-me profundamente emocionado.

A cidade reconheceu devidamente o seu triunfo?
Não, com exceção dos amigos e daqueles a quem eu dava apoio nos treinos. O jornal local não publicou uma linha sobre o evento. Apenas o Jornal do Algarve, de Vila Real de Santo António, o fez. Fui o primeiro campeão do Algarve e o primeiro culturista algarvio a participar em provas nacionais e a passar a pré-seleção.

Foi essa a sua primeira competição?
Foi a segunda. A primeira aconteceu uma semana antes, em Setúbal, a competição ‘Mister Sado’, na qual participei para ver como me sentia em palco. Sempre tinha praticado desportos coletivos. Quando se entra numa competição em que vamos ser avaliados por um conjunto de juízes, é diferente. E como já estava em boa condição física, resolvi participar e fiquei em segundo lugar.

Duas semanas depois, entrou no Campeonato de Portugal, no Estoril, ficando em sexto lugar, entre 23 concorrentes. Não foi um espaço muito curto entre competições?
Atualmente, é diferente, mas naquela época tínhamos de ganhar massa muscular e, depois, fazer dietas muito rigorosas para secar. Quando um atleta estava em grande forma, mantinha-se por algum tempo. O problema foi não estar à espera de ser convidado para o ‘Mister Portugal’. Depois de uma dieta de quase seis semanas, o que queria era comer. Quando recebi o convite, já não estava no meu melhor, com aquela definição muscular que se exige. Tive de voltar à dieta, o que não é muito saudável, e já não estava em tão boa forma como em Portimão.

Que desportos praticou, antes do culturismo?
Joguei futebol nos juniores do Portimonense, pratiquei voleibol e treinei andebol. Também fiz muita natação, na praia. Só depois do serviço militar é que me dediquei ao culturismo. Comecei no início de 1985 e, no ano seguinte, estava a competir.

Porquê essa mudança?
Terminei o serviço militar e fui para Inglaterra. Quando regressei, em abril, a época futebolística já ia avançada e era difícil arranjar lugar numa equipa. Tinha entrado pela primeira vez num ginásio de culturismo, em Londres. Experimentei e gostei. Quando voltei, encontrei um ginásio de culturismo em Portimão, o ‘Orion’, e comecei a fazer alguns treinos. Treinava lá o senhor Matos, que tinha vivido muitos anos em Marrocos. Comecei a treinar com ele e a receber umas dicas. Não utilizávamos máquinas; trabalhávamos somente com pesos livres. Pouco tempo depois, apareceram três alemães a visitar o ginásio e um deles veio falar comigo, porque achou que eu tinha um bom perfil. Abriram um ginásio mais bem equipado, perto da minha casa, e mudei para lá. Mais tarde, um amigo meu de nacionalidade norueguesa, que vinha cá de vez em quando, convenceu-me de que eu tinha condições para participar em competições.

Mas houve algo que o catapultou para a competição. Pode contar aos nossos leitores o que aconteceu?
Houve alguém que me disse que eu não tinha qualquer hipótese em competição, se não tomasse esteroides. Não sabia o que era, mas deduzi que seria algo ilegal. Não havia controlo antidoping e tomavam livremente. Decidi provar que era possível competir sem recorrer a eles. Fui a Inglaterra, em 1986, falei com nutricionistas e tomei suplementos naturais, que me ajudaram bastante e que não havia cá, na altura. Depois, tudo dependia da alimentação, do descanso, de saber aquilo de que o meu corpo necessitava e que tipo de treino era necessário para evoluir. Há ainda a genética, à qual ninguém consegue fugir. Se um indivíduo não tiver uma estrutura adequada, por mais que treine ou por mais substâncias que ingira, nunca conseguirá lá chegar!

Qual era o seu programa de preparação para competição?
Treinava diariamente entre uma hora e hora e meia, trabalhando todos os músculos do corpo, com algumas combinações. Tinha, contudo, um sistema repartido: três dias de treino e um de descanso, porque é durante o descanso que o corpo recupera e o músculo cresce. A alimentação era toda controlada e os suplementos alimentares eram adquiridos na farmácia ou na ervanária. Pedia frequentemente à minha médica assistente para fazer análises, a fim de verificar se estava tudo bem.

Numa época em que não havia internet, como obtinha informação sobre métodos de treino e nutrição?
Eu lia, todos os meses, o ‘Journal of Sports Medicine’, onde encontrava informação cientificamente testada, desde os métodos de treino à alimentação. Também fiz um curso excelente na Noruega e frequentei bons ginásios. O meu amigo norueguês deu-me uma dieta específica para as competições. Fora da competição, ingeria uma quantidade suficiente de proteínas, para ganhar massa muscular, e de hidratos de carbono. Nas seis semanas anteriores à prova, a dieta era muito complexa e rigorosa. Dependia da quantidade de gordura que precisava de perder, para ficar completamente ‘seco’ e com o máximo possível de massa muscular. É interessante mencionar que encontrei sempre um grande espírito de entreajuda no estrangeiro, em Inglaterra, na Áustria e na Noruega, enquanto em Portugal era cada um para si.

Não existia um preconceito sobre o culturismo, naquela época?
Tenho a sensação de que sim, em Portugal. No estrangeiro, não tanto. Fui o primeiro a usar calções de licra e era apontado como se fosse ‘gay’, quando aquele equipamento era o ideal para treinar, pois não prendia os movimentos e favorecia a circulação sanguínea.

Era difícil encontrar os suplementos adequados?
Sim, porque só começaram a aparecer em Portugal nos anos 90. Mas eu tinha amigos em Inglaterra que mos enviavam. E havia os chamados tónicos eupépticos, a que o pessoal não ligava. Antes do treino, misturava uma cápsula de Bêlisina com uma de Sargenor, que continham aminoácidos. Para ‘secar’, tomava L-Carnitina, que hoje é banal. Na altura, quase ninguém conhecia os seus efeitos.

Pelo que nos conta, os atletas passavam a vida a ganhar e a perder peso?
O atleta, antes da competição, decidia qual a quantidade de gordura que necessitava de eliminar e iniciava uma dieta de seis a oito semanas, a qual consistia essencialmente em reduzir gradualmente os hidratos de carbono, porque continuávamos a necessitar de energia para treinar. Eu entrei numa dieta de oito semanas, mas já estava em forma ao fim de seis. Nas últimas duas, ia ao ginásio só para treinar as poses. Transpirava pelo efeito da contração dos músculos, mas já não pegava em pesos. Na última semana, ingeria hidratos de carbono com água destilada e potássio, para encher as células dos músculos, que estavam famintas, como se costuma dizer. Quem me via duas semanas antes da competição, dizia: “O homem, só tem pele e osso”. Depois, aparecia na prova com mais cinco ou seis quilos e com os músculos bem desenvolvidos e as pessoas diziam logo que tinha tomado drogas para ‘inchar’.

Essa dieta não afetava o sono, o humor, o relacionamento com os outros?
Afetava. Tive um colega de ginásio que dizia que não aguentava a dieta. Durante esse período, fartava-se de fumar. Quando não se ingerem hidratos de carbono e se gastam as reservas existentes durante o exercício, o organismo fica sem glicogénio e o cérebro acaba por ser afetado. Segundo me dizem, quem toma aquelas porcarias ainda sofre mais, tornando-se agressivos. Eu nunca fui muito afetado.

Quando decidiu deixar de competir?
Cheguei da Noruega em maio de 1987 e, no ginásio, disseram-me que iam acontecer as competições ‘Mister Lisboa’ e o Campeonato do Sul de Portugal, no Montijo. Decidi participar nas duas competições. No ‘Mister Lisboa’, a seleção dos finalistas foi feita durante a manhã, no Pavilhão Carlos Lopes. A final aconteceu à noite, num palco montado para o efeito no Terreiro do Paço. Estava uma noite gelada, mas correu-me bem e fiquei em segundo lugar na minha classe. A competição no Montijo foi no dia a seguir à abertura do ‘Babylone’. Fui fazer a abertura e, no dia seguinte, tive de pedir a um amigo para trabalhar por mim, para ir ao campeonato. Mais uma vez, fiquei em segundo lugar, porque três dos cinco jurados pertenciam ao ginásio do culturista que ganhou. Em 1989, fiz a última prova, a primeira ‘Noite dos Campeões’, onde já havia prémios monetários.

Qual a diferença entre o culturismo de hoje e o de há 40 anos?
A maior diferença acontece ao nível dos equipamentos. Embora a chamada ‘old school’ goste mais de pesos livres, hoje há máquinas que trabalham o corpo de forma mais evoluída e completa. E houve grande evolução nos suplementos alimentares. Com um controlo antidoping rigoroso, a modalidade torna-se mais segura. E os profissionais têm acompanhamento médico, como em qualquer outro desporto. Embora eu não acredite que tenha acabado o doping no desporto.

“As competições de culturismo estavam divididas por classes de peso e eu competia sempre de 70 a 80 quilos, ali com 79 quilos bem ‘secos’. Na prova dos Campeões, a última em que participei, estava em grande forma duas semanas antes, mas pesava 82 quilos, o que me obrigaria a competir com atletas a rondar os 90 e não me daria grande hipótese”, recorda Eduardo Alfarrobeira. Por essa razão, decidiu perder peso, com recurso a diuréticos. “Foi uma experiência horrível. Retirou-me a água do corpo, mas também dos músculos, deixando-a acumulada entre o músculo e a pele. No dia da competição, já não estava no meu melhor”, confidencia. Mesmo assim, ficou em quinto lugar. Os quatro atletas à sua frente pertenciam todos a uma categoria de peso inferior à do atleta, mas “estavam enormes, devido ao consumo de esteroides anabolizantes”, afirma ainda. Nesse momento, viu-se obrigado a tomar uma decisão. Ou começava a ingerir esses produtos, ou deixava de competir. “Mantendo os meus princípios, abandonei a competição, mas continuei a treinar, durante alguns anos”, conta Eduardo Alfarrobeira.

Eduardo Alfarrobeira nasceu em 1962 e começou a trabalhar, quando ainda frequentava o 11º ano de escolaridade. Em 1980, ainda miúdo, trabalhou como porteiro da discoteca ‘Night Star’, no Hotel Júpiter, mas mudou, pouco tempo depois, para a receção dos apartamentos ‘Yatch’, também na Praia da Rocha. Seguiu-se, em 1983 e 1984, o serviço militar obrigatório. Continuou a trabalhar na segurança de bares e discotecas, embora o pai lhe pedisse para deixar a noite, porque considerava uma função perigosa. Corria o ano de 1994, quando o pai faleceu. Eduardo Alfarrobeira voltou a estudar à noite e terminou o 12º ano, o que lhe permitiu entrar no curso de professor de educação física, que afinal fora sempre o seu sonho. Terminou o curso em 2002, tendo sido colocado numa escola em Castro Marim. No ano letivo de 2006/2007, foi para Moura durante um mês e, depois, foi transferido para Algés. Desanimou e abandonou o ensino, tornando-se técnico responsável pelo novo ginásio ‘PraiaMar’. Regressou ao ensino em 2009, em Lagoa, ao mesmo tempo que desempenhava a função de treinador de atletismo na Associação Académica da Bela Vista, no mesmo concelho. Em 2013, começou a praticar bicicleta, na modalidade de BTT e, na atualidade, continua a dar aulas, enquanto, nas horas vagas, faz passeios de bicicleta com os amigos e organiza caminhadas.

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