Lara Roque: “Ambiciono mais recordes nacionais”

Fotos: Mário Moreira
Começou a correr aos sete anos na Associação Académica da Bela Vista (AABV), mas nem sequer era uma atleta que prometesse muito. Mostrava algumas qualidades, mas em competição o melhor que conseguia era um quinto ou sexto lugar. Até que, aos 13 anos, deu-se um clique e Lara Roque começou a mostrar outro estofo e capacidade de ir mais além. Nos anos seguintes passou a conquistar títulos regionais, até que em 2026, aos 17 anos, atingiu o topo a nível nacional. A participação no Campeonato do Mundo de sub-20, no início de agosto, nos Estados Unidos, mostrou uma atleta algarvia de eleição, formada na Associação Académica da Bela Vista, que num só ano bateu três vezes o recorde nacional nos 3000 metros obstáculos, além de conquistar outros títulos.
Esta foi a tua melhor época desde sempre?
Sim, consegui finalmente representar a seleção nacional, que era um dos meus principais objetivos. Também fui três vezes campeã nacional e várias vezes vice-campeã nos 3000 obstáculos, nos 3000 planos ao ar livre e nos 5000 metros.
Qual foi o momento mais feliz do ano?
Foi a presença no Mundial de Sub-20 nos Estados Unidos. Tive a oportunidade de competir com as melhores atletas do mundo, ao mais alto nível. Foi muito bom também estar com toda a seleção, pois tínhamos uma equipa muito unida e senti sempre muito apoio. Foi uma experiência que me fez crescer enquanto pessoa e atleta e que me vai deixar mais bem preparada para os desafios do futuro.
Como te sentiste na última corrida no Mundial nos 3000 metros obstáculos, em que bateste mais um recorde nacional?
Aconteceu tudo naturalmente. Estava perante um nível competitivo muito maior do que aquele que tenho em Portugal e isso também puxou um pouco mais por mim. Tive de adaptar-me, pois não estou habituada a ultrapassar os obstáculos com tantas atletas ao lado. Elas eram todas de grande nível e isso obrigou-me a estar ainda mais atenta e focada.
Qual é o papel do teu pai neste teu percurso?
Ele também começou a correr comigo na altura em que vim para a Associação Académica da Bela Vista, há dez anos. Tenta estar presente no máximo de provas possível para me apoiar e está sempre perto quando preciso.
O teu início no atletismo não começou com vitórias…
Nos primeiros anos, ficava sempre em quinto ou sexto lugar no máximo nos campeonatos regionais. Era o melhor que conseguia. Só comecei a melhorar há quatro anos. E até comecei primeiro pela marcha, antes da corrida. Mas partir dos 13 anos, passei a treinar mais vezes por semana, a ter mais foco e concentração. Acho que o facto de me esforçar mais e tentar ir ao limite ajudou-me a chegar a este nível.
Quem foram as pessoas fundamentais no teu percurso?
O meu treinador Paulo Ferro foi muito importante. Ajudou-me a acreditar em mim e esteve sempre presente. Apesar de viver em Lagos, vinha todos os dias à pista da Bela Vista para acompanhar-me e ajudar-me. Às vezes para dar treino só a mim e foi fundamental para melhorar a minha parte técnica. Na próxima época não será meu treinador, uma vez que estarei em Lisboa, mas ajudou-me a escolher o atual técnico, para que possa continuar a evoluir na linha do que tenho feitos nestes últimos anos. É alguém que não vou esquecer e é marcante no meu percurso. Não posso esquecer também o meu treinador de formação, o Vítor Custódio. Foi ele que me despertou o gosto pelo atletismo. Tenho também de agradecer à AABV todo o apoio e por ter sido a minha casa nestes dez anos. Fui feliz aqui, cresci e ganhei muito.
Que trabalho tens feito para atingir este nível e para teres chegado a um Mundial?
Treino todos os dias e faço preparação bidiária. Em meio fundo, tenho de treinar mais a distância. Há que fazer mais tempo de treino, mais quilómetros e mais trabalho de ginásio. Por exemplo, nos treinos bidiários, de manhã faço uma parte mais de força e de ginásio, à tarde é corrida. Depois tenho alguns cuidados na alimentação, sou acompanhada por um nutricionista, e tento dormir as horas necessárias.
Quantas dias por semana e horas treinas?
Esta época treinei todos os dias da semana. Só tinha um dia mais calmo, que era o de recuperação, em que fazia apenas massagem e 20 minutos de corrida. Os meus treinos da manhã normalmente duram 45 minutos e os da tarde entre 1h30 a 1h45.
A nível mental, é necessário algum trabalho específico para estares preparada para a competição?
Em competição, tenho alguns rituais. Uma das coisas que gosto de fazer é de chegar ao local da prova uma hora e meia antes, para me preparar mentalmente, concentrar, sentir o ambiente. É algo que me ajuda a sentir mais confiança.
Neste percurso, a escola não ficou para trás e vais frequentar a universidade…
Sim, entrei na Faculdade de Motricidade Humana, em Lisboa. Sempre achei que para ser boa atleta tinha de ser boa aluna. Nunca foi preciso os meus pais dizerem para ir estudar, pois tinha essa responsabilidade e disciplina. Acho que os atletas que levam a parte desportiva muito a sério, transportam para os estudos essa disciplina e organização.
Depois de um ano com várias conquistas, quais são os teus sonhos e objetivos para a época que começa em outubro?
Quero continuar a melhorar os meus resultados, representar a seleção nacional e bater mais recordes nacionais. Espero evoluir como atleta e vou tentar melhorar noutras especialidades, como os 3000 planos e os 5000 metros.
Quais consideras serem os teus pontos fortes enquanto atleta?
Acho que é o querer e a garra. É chegar ao fim e ainda dar mais um pouco. Por exemplo, nos 3000 metros do Campeonato Nacional, não estava entre as favoritas, fiz sete voltas sempre, no terceiro lugar, atrás das atletas do Sporting, e na parte final o querer e o acreditar fez toda a diferença e acabei por vencer quando ninguém esperava.
Quem são as tuas referências no atletismo?
A nível internacional, gosto muito do norueguês Jakob Ingebrigtsen, que foi agora campeão europeu nos 5000 metros. A nível nacional, é a Mariana Machado.
Clubes grandes atentos à campeã
Com estes resultados e a ida para a universidade em Lisboa, algumas das grandes equipas nacionais estão ‘de olho’ em Lara Roque. Ainda que pudesse continuar a competir pela AABV, que poderia garantir treinador e fisioterapeuta na capital, a promissora atleta deverá mesmo mudar de clube. Vários contactos já decorreram e a decisão deverá ser tomada e anunciada até final de setembro. Sporting, Benfica e Braga estão atentas à atleta.

Rui Roque, o pai orgulhoso
Como olha para o percurso da Lara?
A Lara começou no atletismo com uma geração de muito talento na AABV. Ao início, normalmente ficava em quinto ou sexto lugar nas provas, até que houve uma altura que as coisas mudaram. Ela percebeu que não era mais fraca que as outras e que tinha de treinar um bocadinho mais e melhorar alguns aspetos. Tenho de dar um grande valor ao treinador que ela teve nos últimos cinco anos: Paulo Ferro. Ele encontra nos atletas qualquer coisa que consegue fazê-los despertar e, a partir daí, começam a melhorar muito. Foi uma pessoa muito importante para a Lara começar a acreditar mais nela. As últimas duas épocas da Lara foram fantásticas, têm sido sempre a crescer, a melhorar e a conquistar títulos, o que me deixa muito feliz.
Até onde acha que ela pode chegar?
Isso depende dela. Nada se consegue sem trabalho.
Qual foi o papel do clube neste percurso?
A AABV ajuda bastante estes jovens. Além de pai, sou também dirigente e por isso um pouco suspeito para falar. Acho que é um exemplo no Algarve e faz um trabalho muito bom na formação. Muitos dos jovens que têm estado e passado pela AABV têm aproveitado as condições que tanto o clube como a Câmara de Lagoa proporcionam. A autarquia tem sido também importante no apoio ao clube e aos atletas.
É um pai orgulhoso?
Claro que sim. Pela pessoa que a Lara se está a tornar, pelos valores e princípios que eu e a mãe conseguimos transmitir e que ela aplica na vida. É um orgulho assistir a este crescimento e à evolução dela enquanto pessoa e atleta.
Os títulos de Lara em 2026
- Recorde nacional sub-20 nos 3000m obstáculos: 10:15.69
- 1° lugar nacional sub-20 em 3000m obstáculos
- 1° lugar nacional sub-20 em 3000m
- 1° lugar da 3° divisão de clubes
- 3° lugar Corta Mato Nacional Longo, em Lagoa
- 2° lugar Campeonato Nacional Sub-20 pista curta 3000m
- 1° lugar nacional de Corta Mato Escolar
- 1° lugar nacional 5km estrada
- 2° lugar nacional 5km em pista
- 2° lugar nacional de milha
Regional
- Campeã regional de Corta Mato Longo Sub-18, em Lagoa
- Campeã regional de Inverno 1500m absolutos sub-23 + sub-20
- Campeã regional de inverno 3000m absolutos + sub-23 + sub-20
- Campeã regional de estrada sub-20/sub-23/ absolutos
- Campeã regional 3000m absolutos + sub-23 + sub-20
- Campeã regional 3000m obstáculos absolutos + sub-23 + sub-20




