‘Gracie Barra’ quer que todos tenham oportunidade de praticar jiu-jitsu 

A ‘Gracie Barra’ chegou a Lagoa há um ano e já conquistou cerca de 110 alunos para a prática do jiu-jitsu brasileiro. Com uma filosofia diferente e várias faixas etárias, o espaço recebe alunos a partir dos três anos que queiram experimentar esta arte marcial.

Sempre com a base da disciplina, concentração e defesa pessoal, a escola ‘Gracie Barra’ surge em moldes diferentes em relação a outros espaços, gerida como associação para que todos tenham oportunidade de praticar a modalidade. Em apenas um ano conquistou uma centena de alunos e arranca agora para uma nova temporada de treinos no espaço que se situa no rés do chão do lote 3 da Rua Dr. João António Silva Viera, numa zona central da cidade, perto do Centro de Saúde.

“A evolução tem sido muito boa e a expetativa inicial foi superada. Estamos com 110 alunos em um ano”, conta Wilson Chagas ao Lagoa Informa. Com uma oferta diversificada, a escola atrai pessoas de várias idades. “Temos as aulas divididas por faixas etárias, a partir dos três anos, porque cada uma requer um treino e atenção diferentes. Uma criança de três ou quatro anos, trabalha o jiu-jitsu, mas muito ao nível da coordenação motora, equilíbrio, foco, aprendizagem de regras e hierarquia dentro do ‘tatame’, e não tanto o jiu-jitsu em si”, explica o fundador do espaço na cidade.

Mais do que um treino intensivo, com os mais novos são usados jogos lúdicos que introduzem a modalidade. Além da faixa dos três e quatro anos, há turmas dos cinco e seis anos, dos sete aos nove, dos dez aos quinze, sendo que maiores do que esta idade já se integram no grupo de adultos.

Benefícios para as crianças
“Em cada turma, trabalhamos diferentes aspetos, mas o grande foco é a disciplina, as regras e a atenção. O ‘feedback’ dos pais é, que desde que a criança começou no jiu-jitsu, melhorou as notas na escola e a situação social. Às vezes são coisas pequenas, mas que não são tão pequenas assim. Não estamos aqui a criar campeões do mundo, mas campeões da vida”, resume Wilson Chagas, presidente da associação que gere esta escola.

Num mundo em constante evolução, em que os telemóveis são uma realidade e condicionam a atenção e a concentração, a prática de um desporto, como é o caso do jiu-jitsu brasileiro, é encarada como uma forma de tirá-los da frente de um ecrã e melhorar capacidades como o foco.

“É algo que trabalhamos muito, porque, por exemplo, eles têm que estar ali quietos, quando explicamos as técnicas. Não são apenas dez segundos. Alguns dos jogos que fazemos é para trabalhar a paciência, a concentração”, afirma ainda.

Aliás, os graus, sobretudo nos mais novos, são atribuídos consoante vários requisitos, um deles a frequência de oito aulas mensais, mas também o comportamento, o respeito pelas regras, pois para os mais pequenos o foco ainda não está virado para a técnica. Esse aspeto chegará mais tarde.

Há também uma forte análise das crianças e suas personalidades. “Por exemplo, aqui, mas também em Lisboa, tenho algumas crianças com autismo. A referência não é igual e não vai ser o mesmo comportamento. Temos que entender se se está a esforçar. Tive uma criança em Portimão com autismo. A mãe até fez um depoimento no nosso instagram, em que explicava que ele no início nem o nome conseguia escrever. Não tinha força na mão, nos dedos. Num mês, começou a escrever o nome dele. Como tem que pegar no kimono, fazer força, puxar… Quem está de fora não percebe que aquilo, para eles, é um esforço grande, mas ajudou. Foi uma vitória e é muito interessante ver esta evolução”, afirma. Ainda mais, quando esta mãe já se tinha dirigido a vários espaços que negaram o filho por este ter autismo. Wilson Chagas recebeu-o e treinou-o. “Só temos que entender que é uma criança com necessidades um pouco especiais e é gratificante conseguir ajudar na evolução delas no dia a dia”, confidencia Wilson Chagas.

Competir não é obrigatório
Na ‘Gracie Barra’ em Lagoa também não há imposição quanto a entrar em competição, apenas se essa for uma vontade do aluno. “Não obrigamos ninguém, se o aluno não quer competir, descartamos essa hipótese. Nas crianças, as aulas são por idades, mas no adulto por níveis. Há iniciante, intermédio, avançado e competição, e essa é mesmo só para quem quer competir. Se uma pessoa de 50 anos faz a aula de iniciados e sente que é ótima para ela, pode ir experimentar uma de intermédios, mas se achar que não é para ela, volta aos iniciados e está tudo bem”, esclarece.

Não é por acaso, por isso, que o mote da ‘Gracie Barra’ é jiu-jitsu para todos. E mesmo para todas as idades. “Obviamente que quanto mais cedo se começar, melhor, mas não tem limite de idade para se iniciar. A pessoa vai entendendo os seus limites pessoais e tem que respeitá-los e os parceiros de treino têm que entender isso. O que criamos aqui dentro é um ambiente saudável. Ninguém chega aqui, vê ali uma pessoa e diz hoje vou bater. Depois, o professor tem a responsabilidade de ‘casar’ as duplas e ter muita consciência de temperamentos. Não posso colocar duas pessoas impulsivas juntas”, exemplifica.

Também com as crianças, há que ter o bom senso de ‘olhar’ para as personalidades de cada um. “Há aquelas crianças que só brincam ou não fazem mais nada do que falar, há umas outras que gostam de treinar muito e umas outras são mais ‘moles’, então isso vai criar choques. O que nós queremos é que a criança se divirta e evolua, por isso também nas crianças temos a turma dos avançados, onde já treinam mais e é mais sério”, acrescenta.

Jiu-jitsu e defesa pessoal de mãos dadas
Há quem recorra à escola para a defesa pessoal, em primeiro lugar, mas esta é uma questão que não está separada, tanto que integra o currículo da ‘Gracie Barra’. “Nós temos currículos a seguir, algo que é padrão na ‘Gracie Barra’. Ou seja, esta semana estamos a trabalhar um tema, que está a ser dado no mundo inteiro por todas as escolas. É universal, ainda que cada um dê o tipo de técnica que quer. Geralmente, podemos ter é um evento extra sobre esse tema, mas a própria estrutura da aula já começa com a defesa pessoal”, descreve. Aliás, as aulas contemplam sempre o aquecimento, uma primeira parte de defesa pessoal e só depois, o jiu-jitsu desportivo.
Uma das novidades será a turma feminina para responder à procura por parte de mulheres no que diz respeito à sua proteção. Wilson Chagas, refere que, na ‘Gracie Barra’, “há o GBF, a turma feminina, que também tem um currículo, mas é mais virada para a defesa pessoal, distinguindo-as das restantes aulas de grupo que são mais um mix”, esclarece.

O professor reconhece que há, por vezes, alguma relutância por parte das mulheres em relação ao contacto com os homens neste desporto, mas desmistifica.

“Lembro-me de uma senhora que foi à escola, há uns anos, porque queria fazer a aula, mas estava com dúvidas, devido ao contacto. Disse-lhe, então venha fazer um teste. Ela aceitou, vestiu o kimono e fez a aula toda. No final, adorou e perguntei-lhe quem lhe tocou e onde? Respondeu que se tocaram não se apercebeu. Na verdade, nós também nos focamos no bom ambiente da escola e não temos aqui pessoas com esse pensamento ou mentalidade e, se isso acontecesse seria repreendida e mandada embora”, assegura.

O currículo da GBF é de oito semanas e o do grupo misto é de 16, funcionando como uma introdução à modalidade. “Podem ir para o grupo misto depois do GBF e, se não se sentirem confortáveis, retornar, mas a ideia é que passem para o misto e continuem a treinar, porque é preciso consistência. As coisas têm que entrar no automático, porque quando acontece algo lá fora, nós ficamos nervosos e o normal é a pessoa congelar. Ou a pessoa cega e vai para cima com tudo ou congela e não sabe o que faz. Então, se estiver automático, já não pensa porque o corpo reage sozinho na defesa”, refere ainda.

Mais uma valência em breve
Num futuro a curto prazo, os responsáveis querem abrir uma segunda valência na escola. “O nosso plano é, no piso inferior, criar um ‘tatame’ para os pais poderem estar a treinar ao mesmo tempo que os filhos. Percebemos que, às vezes, estão aqui à espera e, se calhar, nem se importavam de praticar também”, avança Bruno Lavrador, vice-presidente da associação.

Para já, ao primeiro sábado de cada mês, os pais são desafiados a entrar num treino especial com os filhos, uma aula que pretende criar conexão entre ambos. “É muito interessante porque a criança quer ensinar o pai, corrigir, é muito engraçado”, acrescenta Wilson Chagas.

Associação quer chegar a todos

A aposta em Lagoa surgiu de forma natural e como parte de uma expansão da marca que conta, na atualidade, com 1264 escolas em todo o mundo, das quais mais de 30 em Portugal. “Antes o jiu-jitsu era um pouco mal conotado, porque era muito fechado e territorial, mas o fundador da ‘Gracie Barra’ trouxe uma ideia diferente”, explica. No caso de Lagoa, a gestão passou a ficar a cargo da GBADCP – Associação Desportiva, Cultural e Recreativa de Portugal, criada em março de 2025, pois o principal objetivo é dar os benefícios do jiu-jitsu ao máximo número de pessoas, incluindo aquelas que não têm a capacidade de pagar tanto. A qualidade reflete-se na mensalidade, mas as pessoas não podem ser excluídas apenas pelo valor a pagar. “A nossa ideia não é a de só ter lucro. O mais satisfatório é eu ver crianças a quem dei aulas há dez anos e que hoje têm 20 e são pessoas formadas, que trabalham, alguns já têm família, e eu saber que fiz parte daquele crescimento. E que os valores que eu passei continuam lá, mais do que dinheiro”, garante Wilson Chagas, presidente da associação.

Wilson Chagas é um dos mentores do projeto

Depois de 25 anos dedicados à prática do jiu-jitsu, dos quais 15 como professor, há seis anos tomou contacto com a ‘Gracie Barra’, projeto no qual já iniciou quatro escolas, sendo a última aposta a da cidade de Lagoa. Mas a paixão pelas artes marciais vem de longe. “O meu pai e toda a sua família são brasileiros e sempre tive uma ligação com o jiu-jitsu, mas o brasileiro, que já existe há muitos anos e demorou a chegar a Portugal”, começa por explicar. O que se encontrava no país era, sobretudo, o japonês, que não é exatamente igual. Um dia, em conversa com um amigo, Wilson Chagas, natural de Lisboa, onde residia, descobriu um espaço onde podia praticar esta arte marcial com a base brasileira. E ficou. Primeiro conciliava a prática com uma vida profissional na área das telecomunicações. Chegou a emigrar, por vários anos, até que, em 2019, quando vivia na Suíça e idealizava o regresso a Portugal, decidiu dedicar-se a cem por cento ao ensino deste desporto. Voltou à antiga equipa e professor, que tinha aberto uma escola em Odivelas. Depressa a gestão do espaço lhe foi ‘entregue’ e a ‘Gracie Barra’ entrou na sua vida, até ao dia em que surgiu a hipótese dessa pessoa fazer um segundo investimento. Wilson Chagas que visitava Portimão em férias, onde vivia também Bruno Lavrador, amigo de longa data, sugeriu esta cidade como uma aposta para abrir a ‘Gracie Barra’. Mudou-se de ‘armas e bagagens’ para o concelho vizinho, onde foi professor até há dois anos, quando decidiu abrir e gerir este espaço em Lagoa.

TESTEMUNHOS

“O feedback desta escola foi muito bom”
“Ela tem quatro anos. Nos dias de hoje acho que é fundamental eles terem já essa disciplina, responsabilidade e noção de defesa, porque infelizmente o mundo está como está e temos que começar a prepará-los desde pequeninos para as adversidades. A escola dela é mesmo aqui ao lado e acaba por ser mais prático, mas o feedback da Gracie Barra foi muito bom. Ela tinha uma colega que andava aqui e viemos experimentar. Já está cá há três meses, gosta muito e, por ela, vinha todos os dias. Em casa repete os exercícios”.
Débora Elviro

“Acho que qualquer exercício é benéfico”
“Soube por amigos que já tinham vindo aqui e sempre tive interesse por artes marciais. Foi um dos primeiros sítios que achei que deveria experimentar. Neste momento só a minha filha é que está a treinar. Eu ainda não decidi se venho. No entanto, na minha opinião, acho que qualquer exercício físico ou prática de desporto é benéfico. Estava à procura de qualquer coisa perto de Lagoa e é aqui ao lado da escola”.
Lucas Zickler

“É muito bom para o desenvolvimento dele”
“Sim é importante, porque atualmente há muitos casos nas escolas e, entretanto, eles podem defender-se e é precisamente por isso. O meu neto tem três anos, ainda está no infantário e também faz piscina, costuma ir ao sábado. Esta escola tem um bom ambiente e é muito positiva para o desenvolvimento dele. Acho que ele fica mais calmo quando vai daqui e mesmo durante o dia a dia, nota-se a diferença”.
Mécia Borralho

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