Declínio dos alunos ligado ao abuso de ecrãs

P ortugal recuou 20 anos no relatório PISA. Os estudantes portugueses obtiveram os piores resultados, desde 2000 em leitura, e, desde 2003, em matemática, ou seja, recuaram mais de 20 anos no rendimento escolar. Obtiveram 460 a matemática, 462 a leitura e 482 em ciências, o único valor em linha com a média da OCDE.

O descalabro levou os peritos a analisarem as razões da deterioração educativa dos jovens, onde destacam a invasão massiva dos ecrãs na vida diária das crianças e adolescentes como um dos principais fatores que explicam estes resultados. 

Que papel desempenham os ecrãs? Os peritos esclarecem que “podem provocar a perda de capacidade para manter a concentração, a diminuição da leitura por prazer e o tempo que os adolescentes dedicam aos dispositivos digitais”.


O último relatório sobre a infância e tecnologia da ‘SaveFamily’ assinala que 81% dos menores passam mais de uma hora por dia em frente aos ecrãs, percentagem que supera os 90% durante os fins de semana.

“O problema não é apenas quanto tempo passam os menores conectados, mas também como estão desenhadas as plataformas para os reter. Estamos perante sistemas que fomentam o uso continuado e dificultam a desconexão, o que tem repercussão no rendimento escolar dos jovens”, assinala Jorge Álvarez, CEO da ‘SaveFamily’, empresa líder no desenvolvimento de smartwatches com GPS para crianças e idosos.

Um dos sintomas mais preocupantes está na leitura. A OCDE deteta mais dificuldades quando os estudantes enfrentam textos extensos e situa o ponto crítico nas 400 palavras, quando começam a observar-se problemas para manter a atenção e processar a informação.
O organismo relaciona este fenómeno com a leitura cada vez mais rápida num contexto marcado pelo consumo imediato característico das redes sociais. Além do mais, referem que, onde o uso de ecrãs é menor, os resultados educativos tendem a ser melhores.

A esta perda de atenção junta-se a dificuldade dos próprios adolescentes para regular a sua relação com os dispositivos. De acordo com o relatório, quase metade, 48%, reconhecem ter perdido o controlo do tempo em frente a um ecrã e um de cada quatro utiliza o telemóvel como escape para esquecer os problemas. 17% assegura ter tentado reduzir a utilização sem o ter conseguido e 11% admite que o telefone afeta negativamente o seu rendimento escolar.

“Estamos a observar como a tecnologia entra na vida dos menores sem uma progressão adaptada ao seu desenvolvimento. Isto gera um excesso de exposição que pode ter efeitos devastadores no seu bem estar emocional, nas capacidades de concentração, nas relações sociais e, por isso, também no nível académico”, salienta Álvarez.

O problema também não se limita ao rendimento académico. Os adolescentes que passam mais de três horas diárias em plataformas digitais duplicam o risco de sofrer de problemas psicológicos, de acordo com os dados recolhidos pela ‘SaveFamily’. O relatório alerta, ainda, para a ansiedade associada à desconexão, necessidade constante de interação digital e, até, respostas agressivas quando se tenta retirar o telefone.

A isto juntam-se os algoritmos e a IA, que personalizam o que cada utilizador vê. A combinação do acesso precoce e dos sistemas algorítmicos provocam que os jovens abusem excessivamente dos ecrãs.

O retrocesso educativo implícito no relatório PISA aponta também que a disciplina nas aulas tem piorado. Mas são os ecrãs e a expansão do smartphone o que gera mais preocupação entre os peritos, que procuram uma fórmula para evitar que a hiperconectividade condicione a capacidade de ler, concentrar e aprender.

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