A história deliciosa de um empresário de sucesso

Texto: Hélio Nascimento | Fotos: Kátia Viola


Nasceu em Évora, aos cinco anos mudou-se para Corroios e aos 14 estava a caminho de Nova Iorque, para onde os pais tinham emigrado. Cursou engenharia, trabalhou na IBM, mas… o ‘bichinho‘ era outro: a restauração e a hotelaria. Alfredo Pedro, cuja história de vida dava para escrever um livro ou fazer um filme, assentou, entretanto, arraiais no Algarve, mais propriamente em Lagos, e continua a ser um empresário de sucesso. É o dono do Carvi Beach Hotel, na Praia D. Ana, mantém bem acesa a chama dos negócios nos Estados Unidos e é com algum orgulho que nos mostra fotografias suas com Amália Rodrigues, Eusébio ou Grace Kelly. 

“Emigrei quando tinha quase 14 anos, mas sempre com uma luz muito acesa, na minha mente, do meu portuguesismo e da minha pátria. Apesar de lá ter vivido 50 e tal anos, nunca deixei de pensar em regressar a Portugal. Já estava no ramo da restauração, mas sempre sonhei nisto, num hotel em solo luso. Ao fazer uma pesquisa na internet, há uns anos, deparei-me com uma pensão residencial extremamente degradada, mas com localização excelente. A família foi contra e os meus filhos, que nasceram e vivem nos Estados Unidos, mas falam e escrevem português correto, quando viram o imóvel ainda mais torceram o nariz. Estava mesmo muito degradado. Insisti, dizendo para verem o mar, as condições à volta e ao facto de poder ser restaurado”.

Passados 14 anos, o Carvi é uma referência da zona e antes da pandemia tinha uma ocupação que, em certos meses, rondava os cem por cento. 

Alfredo Pedro tem 67 anos e cursou engenharia eletrónica. Trabalhou três anos e meio na fábrica da IBM, “mas não era eu”. A cidade Natal de Évora e a escola primária de Corroios, mais o liceu, tinham há muito ficado para trás. Se os Estados Unidos, como se diz, são uma ‘terra de sonhos’, não havia tempo a perder. 

“Entrei na restauração em 1980. Depois vendi um prédio em Manatthan, e, com essa mais-valia, abri um hotel em Nova Iorque, de raiz, e reformulei a tal pensão que hoje é o Carvi Beach Hotel”. De discurso fluente e explanando bem as suas ideias, Alfredo Pedro revisita passos importantes da sua vida, prendendo a atenção do jornalista. A história do primeiro restaurante também é deliciosa.

“Não era feliz no emprego e resolvi falar com o meu pai, já de olho num restaurante que pertencia a um casal idoso português. Estava aí uma oportunidade para mudar de ramo, apesar de nunca ter trabalhado nem ter experiência na restauração. Os proprietários ensinaram-me tudo o que sabiam e acho que aprendi rápido. Realmente, encontrara aquilo em que sou feliz. Sou mesmo um felizardo, faço aquilo que amo”. 

 Situações dramáticas 
Todos os empresários passam por um percalço e nada corre sempre a 100 por cento, garante Alfredo Pedro, pronto a desvendar o outro lado da história. “A dada altura perdi tudo o que tinha amealhado e fiquei a dever muito dinheiro à banca”.

O semblante não muda e o empresário prossegue a narrativa, aludindo ao “muito esforço e cabecinha” que nortearam os passos seguintes, pese os momentos dramáticos por que passou. “Aprendi que não se podem tomar decisões com o sistema nervoso alterado. Aprendi sempre a pensar, a ponderar. Em desespero, as opções acabam por ser erradas. Tive sempre cuidado e sangue frio para dar a volta à situação. Houve momentos em que não tinha como, mas, com persistência e alguma sorte – que dá muito trabalho – consegui”. 

Alfredo Pedro releva o apoio familiar, inclusive porque, em muitos casos destes, perde-se até a família. “A pressão é imensa e até vimos a miséria à esquina, mas tive o apoio fundamental da minha mulher. É costume dizer que atrás de um grande homem está uma grande mulher, mas, neste caso, não esteve atrás, andou sempre ao meu lado. Sofremos juntos e a Judite esteve comigo em todas as ocasiões”. 
Este revés na sua vida de empresário ficou a dever-se a uma “decisão precipitada de voltar a Portugal, para me ocupar de um negócio com laços familiares, a recauchutagem de pneus numa fábrica em Setúbal, com 50 e tal empregados”. As coisas deram para o torto, com o país a atravessar uma fase complicada e “os sindicatos a não quererem negociar”. Alfredo Pedro tentava salvar a fábrica e estava menos atento ao restaurante de Nova Iorque… “Perdi tudo ao mesmo tempo. Não tens como reerguer. Não tens soluções. Estás habituado a uma vida, de repente vês-te confrontado com o não teres dinheiro. A tua mulher quer por gasolina e não tem dinheiro, tens dois filhos de tenra idade, enfim, foram momentos dramáticos. Fiquei a dever 1,2 milhões de euros”.  

Alfredo Pedro exibe agora um olhar reconfortante, sinal de que estas recordações ficaram lá bem para trás. “Não são as conquistas aquilo de que mais me orgulho, mas sim o ter conseguido dar a volta à situação. Se tens uma dívida pequena… eu não só perdi tudo como ainda devia aquela verba ao banco. Passei anos e anos a recuperar, com um tremendo desgaste mental e físico. Hoje em dia, considero-me forte psicologicamente e poucas coisas me abalam negativamente. À minha volta quase tudo é positivo. Se está a chover fico todo contente…”. 
 
Os pequenos grandes momentos 
Alfredo reconstruiu a vida, insistiu naquilo que tão bem sabe fazer e hoje, como ele diz, está feliz e faz o que mais gosta. Com a família presente em cada gesto. “Porquê Carvi? É a junção dos nomes dos meus filhos, Carlos e Vítor. As minhas empresas têm todas o nome dos meus filhos, seja ‘carvi’ ou ‘vicar’. E aqui, no hotel, o restaurante chama-se Luca e o bar Alessandra, precisamente o nome dos meus netos. É uma homenagem que lhes faço”.   

“Não era feliz no emprego
e resolvi falar com o meu pai, já de olho num restaurante que pertencia a um casal português. Estava aí uma oportunidade
para mudar de ramo”

O empresário confessa que, antes de investir, não conhecia muito bem o Algarve. “Sinceramente, nunca me cativou, mas hoje, volvidos 14 anos, já digo que Lagos é onde estou feliz e é o local onde sinto coisas positivas”. O hotel é de 3 estrelas, por “opção minha”. Está ao nível de um 4 estrelas, adianta, mas, “estrategicamente, quero ser o melhor 3 estrelas da zona”.

Até à pandemia, a clientela era maioritariamente estrangeira, à volta dos 90 e tal por cento. “Estamos na praia D. Ana, que é deveras conhecida, e somos alvo de todos os mercados. Só fechamos em janeiro. A covid apanhou-nos de surpresa, depois de um 2019 de ouro com diamantes, como costumo dizer. Pensámos que ia continuar assim e afinal é o que se vê. Mas aprendi com outras lições e estou sempre a olhar para um momento que pode ser fatal”. 

Alfredo Pedro continua ativo em Nova Iorque e até ao final do ano vai reabrir o restaurante que tinha fechado devido à pandemia. Agora, passa muito mais tempo em Portugal, tendo os filhos de olho nos negócios que mantém nos ‘States’. E quem é, ao fim e ao cabo, este cidadão português que tem ainda muitas mais histórias para contar? “Sou criança, brincalhão, alegre, de bem com a vida e agradecido por estar vivo. Aprecio e brindo sempre aos nossos pequenos grandes momentos, é assim a vida. Sou duro quando tem de ser e considero-me um bom negociador”.  

 A simplicidade de rei Eusébio 
A praia, o futebol e a natureza encabeçam as preferências de Alfredo Pedro, um adepto “das coisas simples, de caminhar e apreciar o que vejo à minha volta, bem como de viajar e andar de moto”. Jogou futebol, privando com nomes grados do antigamente, como Laranjeira, Conceição, Zé Maria, Abel, Cruz e Vicente, e ainda hoje mantém relacionamento com António Simões e Carlos Queirós. “O Eusébio? Era um homem simples, aprazível, simpático e reconhecido a quem o recebia bem, mas não muito falador. Pedia sempre o seu digestivo e é claro que tive um prazer indescritível em conhecê-lo. Continuo a falar com a filha dele de vez em quando”. 

E amigos, como será? “Tenho muitos conhecidos, mais do que eu pensava, mas amigos…não. É uma palavra complicada, pela qual tenho enorme respeito. Ser amigo de alguém é um privilégio, é o poder confidenciar algo e ter a certeza que essa pessoa não nos vai atraiçoar. É uma amizade duradoura e eu sou muito amigo do meu amigo”.  

Alfredo dirige-se então ao jornalista e recorda que “ainda há pouco tempo faleceu um grande amigo, que tínhamos em comum, e, estando eu em Nova Iorque, vim de propósito ao funeral”. O reverso da viagem também já sucedeu, quando “a filha do meu melhor amigo nos EUA faleceu e fiz questão de lá ir, para chorar com ele e dar-lhe o ombro. Quando se dá um abraço destes, somos um só”. 

Prémios são de toda a equipa 

Ao longo da sua vida empresarial, Alfredo Pedro tem recebido imensos prémios e distinções, atribuídos pelo estado de Nova Iorque e pelas diversas entidades da comunidade portuguesa nos Estados Unidos. O Carvi Hotel de Lagos, aliás, também já foi alvo de louvores. “Os prémios dão prestígio e é bonito recebê-los, mas, em termos individuais, não me dizem muito, porque não são só meus. As equipas que tenho é que fazem por os merecer”. 

Como bom estratega e comandante de homens e mulheres, Alfredo salienta que o mais importante é escolher uma boa equipa. “Para os cargos de chefia só dou emprego a quem mostrar que pode viver comigo, porque, sem confiança, nada feito. Sou companheiro deles todas as horas e não posso estar isolado. Se não for assim, os bons não ficam contigo”, argumenta, dividindo os méritos e os louros por todos aqueles que ao longo dos anos têm integrado as suas equipas.  

E agora, aos 67 anos, o que mais vem aí? Vai voltar a investir no Algarve? “O amanhã é incerto. Não consigo responder. Quando aparecer alguma coisa…logo se vê”. 


Grace Kelly à porta e Amália ao telefone 

Nos seus restaurantes em Manatthan, o empresário português recebeu pessoas bem conhecidas, de todos os quadrantes, da política ao desporto e ao espetáculo. Dos Kennedy e António Costa a Robert De Niro, Denzel Washington, Diogo Morgado, Diogo Infante ou Robert Redford, para lá dos já citados Eusébio, Amália e Grace Kelly, há imagens e episódios que ainda mais ‘temperam’ a vida de Alfredo Pedro. 
“Conheci muita gente, é verdade, independentemente da vida que tiveram ou da fama que alcançaram. No meu restaurante todos pareciam pessoas simples”, diz, já com uma luz a iluminar-lhe a face, pronto a contar a história de um dos mais imprevistos encontros. 


“Um belo dia, era uma sexta-feira, fizeram uma reserva para as 13 horas, talvez o horário mais apertado, porque quem chega mais cedo ainda está sentado à mesa. Na altura, este restaurante, no coração de Nova Iorque, nem era dos mais sofisticados, e, como nem bar tinha, pedi ao pequeno grupo que tinha feito essa marcação para esperar uns minutinhos à porta. Fiquei estupefacto quando, pouco tempo depois, um cliente me dirigiu a palavra: ‘Sabe quem está lá fora à espera? É a Grace Kelly!’. Fiquei nervoso e embaraçado por ver a atriz e princesa do Mónaco, que de facto era lindíssima, à espera de um lugar no meu restaurante”. 

lfredo fez questão de ser ele próprio a servir o grupo e, no fim, perguntou se tinha sido do agrado de todos. “A princesa disse-me que tinha adorado a simplicidade e a comida e que há muito tempo não se sentia tão bem num espaço público. À despedida, prometeu voltar, mas, infelizmente, faleceu meses depois num acidente”.  

Se Grace Kelly ficou à porta, Amália Rodrigues cantou ao telefone. “A Amália era minha cliente e amiga. Foi muito especial. Uma vez telefonou, para marcar uma mesa, mas falou sempre em inglês, uma língua que ela dominava. Não a reconheci, sou sincero, e, quando lhe pedi o nome, sabe qual foi a resposta dela? Cantou-me um fado! Uma sessão de fado em privado, pelo telefone, foi incrível. A Amália Rodrigues era uma mulher fantástica e cheia de surpresas”, conclui Alfredo, deliciado com recordações tão marcantes. 

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