Armacenenses: O primeiro título da história do futebol feminino

Texto: Hélio Nascimento | Fotos: D.R.
O Clube de Futebol Os Armacenenses alcançou um feito histórico, tornando-se a primeira equipa do Algarve a conquistar um título nacional de futebol feminino, na sequência de um projeto iniciado há apenas quatro anos. Uma proeza digna de figurar em todas as ‘primeiras páginas’, porque, para além do triunfo em si, reúne contornos de absoluta crença, consubstanciados nas promessas feitas por Hugo Rosário e na enorme paixão de Carolina Aguiar, os principais rostos e impulsionadores desta tão bem-sucedida aventura no popular emblema da vila de Armação de Pêra.
O título foi alcançado pela equipa de sub-19, que ganhou a Taça Nacional, após uma “dura final” com o Gil Vicente. As meninas de Carolina Aguiar venceram em Barcelos, por 2-0, e depois, em casa, mesmo perdendo por 1-0, tiveram forças para aguentar a vantagem e erguer o troféu.
“Sou muito mais feliz treinadora do que fui jogadora”, garante Carolina, com a felicidade estampada no olhar. O percurso como atleta não deixa, todavia, de ser curioso, uma vez que praticou futsal cerca de duas décadas, em equipas do Ribatejo e por último no Sporting Lagoense, e também futebol, tendo sido guarda-redes no Salvaterrense e… extremo esquerdo em Londres, onde se encontrava a trabalhar.
Hugo Rosário, por sua vez, é o grande mentor do futebol feminino no Armacenenses, fruto de uma história igualmente curiosa. Jogou futebol e futsal, sobretudo em Lagoa, até que, por volta de 2009/10, o amigo Fernando Santos incutiu-lhe o gosto pelo treino. Começou por ser seu adjunto no clube de Armação e depois da pandemia surgiu a hipótese de treinar a equipa mista de futebol, de benjamins, dirigindo alguns miúdos que nunca tinham tocado numa bola.
“Um dia convidei uma menina, a Maria Inês, que costumava ver os treinos, a juntar-se a nós. O futebol feminino, posso dizer, surge a partir daí”. O convite foi aceite e a pequenita entrou num mundo então de rapazes, passando por dificuldades. “Era a única rapariga e não lhe passavam a bola. Até chorou. Nessa altura, prometi-lhe que iria criar uma equipa feminina”.
Do lúdico para a competição
Hugo Rosário, 44 anos, consultor imobiliário, iniciou então uma batalha titânica, até porque só tinha uma menina na equipa, precisamente a Maria Inês. “Tirei o curso e passei largos dias a distribuir flyers, de porta em porta, falando com os pais e procurando cativar as pessoas. Deviam pensar que era maluquinho, numa altura em que apenas Guia e Ferreiras tinham futebol feminino no Algarve. Lá consegui reunir 12 jogadoras, mas não tinha treinador…”.
O agora coordenador reconhece que “até me ridicularizaram, mas o grande desafio foi superado”. Porém, faltava o técnico. Uma semana antes do início do campeonato, era então apenas treinador da equipa mista de benjamins, Hugo perguntou a Carolina, em conversa circunstancial, se gostava de futebol. “Tenho um projeto bom”, argumentou. As iniciais reticências de Carolina ficaram desfeitas quando soube que era para treinar. “Um tiro no escuro, mas certeiro”, reconhecem ambos, recordando esse dia de setembro do ano de 2022.
“Lembro-me que jogava e era já treinadora dos escalões jovens masculinos”, prossegue Carolina, 32 anos e gerente de loja. No Armacenenses, o arranque deu-se com treinos lúdicos, pois muitas das miúdas pouco ou nada sabiam de futebol. “Era tudo novidade, mas fomos tentando. Havia quem pensasse que não chegávamos a dezembro…”. Puro engano. Dessa equipa inicial de benjamins A, quatro meninas participaram agora no jogo da final.
As dificuldades, todavia, continuaram, e, uma semana antes do início do campeonato, foi necessário trocar mails com a Federação e a Associação, porque não havia o devido enquadramento do futebol feminino no processo competitivo, para além, claro, da participação de raparigas em campeonato de rapazes. Apesar da confusão, o Armacenenses foi a jogo, perdendo ‘só’ 2-0 na estreia. “Passámos do lúdico para a competição num ápice e elas aprenderam o que era um canto e um penálti nos jogos. Só fazíamos o básico e de repente estávamos a competir”.
A partir daí surgiram outros escalões, fruto do aparecimento de mais meninas. “O sucesso do projeto falou por si” e na última época o clube teve três equipas, a de sub-19, de sub-17 e de sub-15, todas com médias de idades mais baixas do que o limite. “Chegámos a defrontar os rapazes do Farense e Portimonense, nos sub-17, escalão em que fomos a única equipa feminina presente”, atira Hugo, destacando o “crescimento incrível” e a evolução verificada na passagem do futebol de sete para o de nove e depois para o de 11, tudo feito “com calma e metodologia parecida, para que não sentissem grandes diferenças”.
Mais nervos, amigos e familiares nas bancadas…
A equipa de Carolina falhou até o objetivo da época, visto que não conseguiu o apuramento para a subida de divisão. “Perdemos um jogo, o suficiente para sermos remetidos para a Taça Nacional. Curiosamente, o Hugo acreditou desde o primeiro minuto que íamos ganhar. Mas foi muito complicado”. A treinadora conta que após a fase de grupos o Armacenenses eliminou o Casa Pia, nos quartos de final, ganhando em Pina Manique, por 3-2. “Estivemos a ganhar 3-0, mas a bancada apertou a arbitragem e o período de compensação foi enorme. As nossas jogadoras ainda tremeram, mas ganhámos!”. Seguiu-se o União de Coimbra, nas meias finais, já a duas mãos, com um empate fora (1-1) e o triunfo por 1-0 em Armação.
Com a final à vista, os responsáveis admitem que as jovens sentiram a importância e a responsabilidade do jogo. “Defrontar o Gil Vicente… elas estavam incrédulas, face à dimensão incrível do que tinham alcançado, e nós procurámos sempre não passar demasiada carga”. A vitória em Barcelos, 2-0, com golos de Sofia Cavaco e Denise Reis, foi meio caminho andado. “Aqui, em casa, foi mais duro, com mais nervos, amigos e familiares nas bancadas e, talvez por isso, as jogadoras nem sempre se abstraíram do ambiente. É tudo um processo… só que depois houve uma festa enorme”, já que a derrota por 1-0 não invalidou que a Taça Nacional de sub-19 fosse parar à sala de troféus do Armacenenses. O primeiro título feminino – e logo nacional – da história!
A esmagadora maioria das 19 campeãs não conheceu outro clube, o que mais valoriza todo este processo de formação. Hugo evoca, a propósito, que na primeira época competitiva, nas sub-13 e na Taça Nacional, “até Sporting e Benfica apanhámos. Perdemos 18-0 com o Benfica e disse nesse dia à Marisa, a nossa guarda-redes, que íamos ganhar uma Taça Nacional”. Outra promessa cumprida…
Maria Ponte, Laura Oliveira, Skyla Vieira e Júlia Rodrigues são as quatro meninas que desde 2022 têm estado sempre presentes nesta epopeia de uma equipa que, embora campeã nos sub-19, tem uma média de idades de pouco mais de 15 anos. O clube movimenta cerca de 50 jogadoras e na época que se avizinha terá de novo três equipas, mas com uma de sub-13 em vez da de sub-15. Hugo Rosário, que este ano fez o estágio UEFA B, permanece coordenador do futebol feminino, e Carolina Aguiar segue com as sub-19, embora o apoio entre os técnicos dos três conjuntos seja constante.
Começar do zero e crescer
O Clube de Futebol Os Armacenenses, filial nº 4 do Belenenses, regista assim a conquista do seu primeiro título nacional, tal como o Algarve a nível do futebol feminino. A equipa principal, de seniores masculinos, milita na I Divisão Distrital, mas, está bom de ver, é a feminina, de sub-19, que surge na crista da onda. “Se o título aumenta a responsabilidade? Dá responsabilidade, mas não aumenta a pressão, pois sempre pugnámos pelo crescimento das miúdas, sem olhar para títulos, que são consequência desse trabalho”, afirma Carolina.
A eventual criação de uma equipa de seniores pode vir a acontecer, de forma natural, mas o objetivo, garante Hugo, não será esse. “Nada de pressas. Muitos clubes fazem a aposta no feminino por ser moda ou dar visibilidade, motivos de todo errados, e esquecem-se de outras coisas. Não vale tudo. Isto deve ser começado da maneira certa, do zero, mesmo que as jovens não saibam jogar à bola. A base da pirâmide tem de ser bem feita e é por causa disso, se calhar, que temos poucas equipas no Algarve”.

O crescimento surge com toda a normalidade, afiançam os técnicos, já na parte final da conversa com a Algarve Vivo. “É tudo consequência do nosso trabalho, de haver confiança recíproca, e prometemos que vamos batalhar pela subida de novo, porque queremos jogar com as melhores e estar entre os maiores”, atira Carolina, que deseja ser “treinadora toda a vida” recordando que quando tirou o curso – “hoje estou muito grata ao Hugo” – só duas raparigas figuravam num lote de 30 candidatos.
Hugo aproveita para destacar o papel de todos os elementos do staff. “Nos momentos importantes cerrámos fileiras. O clube e a cidade também estiveram connosco e puxámos pela comunidade, sobretudo na parte final. Houve pessoas que foram de comboio a Barcelos, algumas com mobilidade reduzida. Sim, muita gente da terra e do Algarve deu-nos total apoio”, adianta, com a perfeita consciência de que “não está tudo perfeito nem tudo mal”.
O clube disponibiliza os transportes e fornece o indispensável, tipo campo, balneários e roupa, para que não faltem condições, incluindo uma fisioterapeuta para as miúdas. “A época foi dispendiosa, com muitas saídas, hotel, refeições, enfim, o Armacenenses custeou tudo e tivemos duas carrinhas ao serviço futebol feminino”, já que, no dia a dia dos treinos (três vezes por semana para todos os escalões), é preciso ir buscar e levar atletas a Portimão, Faro, Silves e Quarteira.
“São muitos quilómetros e cheguei a fazer de motorista, das quatro da tarde às onze da noite. Consigo ter alguma margem de tempo, embora com prejuízo pessoal”, conclui Hugo, com a satisfação de constatar a evolução das equipas e a dinâmica que faz com que os treinadores conheçam todas as jogadoras, independentemente dos escalões. “Aqui, não há vínculos fechados”.

O QUADRO DE HONRA
Jogadoras
Marisa Ponte, Amara Lawrence, Sofia Cavaco, Laura Oliveira, Skyla Vieira, Joana Martins, Maria Gabryella, Júlia Rodrigues, Denise Reis, Gabriela Jucan, Rafaela Soares, Zofia Delezuch, Alícia Cruz, Margarida Cepo, Laura Encarnação, Luana Mendes, Maria Luysa, Valéria Guba e Maelie Vidor.
Staff
Carolina Aguiar (treinadora principal), Fábio Raimundo (treinador adjunto), Vítor Pimentel (treinador adjunto), Hugo Rosário (coordenador e treinador), Cláudia Jucan (delegada), Carla Jorge (delegada), Paula Jucan (‘team manager’), Miriam Borges (fisioterapeuta), Mário Lopes (roupeiro) e Marco Costa (presidente)
Carolina Aguiar é a treinadora do ano
Na habitual festa anual da entrega de prémios aos melhores do futebol algarvio, iniciativa da Associação que decorreu, em julho, em Albufeira, a treinadora Carolina Aguiar foi eleita a treinadora do ano, superando Ana Vicente, da UD Castromarinense, e Sara Marcelo, do Esperança de Lagos. Estiveram também nomeados Marisa Ponte (jogadora jovem do ano) e a equipa de sub-19 (equipa jovem do ano). O destaque maior vai, naturalmente, para Carolina, mas as restantes nomeações, num lote deveras restrito, justificam a época de excelência do Armacenenses.




